{"id":130578,"date":"2020-07-18T09:41:31","date_gmt":"2020-07-18T12:41:31","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=130578"},"modified":"2020-07-18T09:41:59","modified_gmt":"2020-07-18T12:41:59","slug":"a-agroecologia-em-tempos-de-covid-19-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/a-agroecologia-em-tempos-de-covid-19-2\/","title":{"rendered":"A agroecologia em tempos de covid-19"},"content":{"rendered":"<header>\n<h2 class=\"description\">Neste momento da pandemia de coronav\u00edrus, a agroecologia pode ajudar a explorar os v\u00ednculos entre agricultura e sa\u00fade<\/h2>\n<div class=\"details-bar\">\n<div class=\"author-time\">\n<div class=\"author\">Clara In\u00e9s Nicholls e Miguel A Altieri<\/div>\n<p class=\"author\">Tradu\u00e7\u00e3o: Romier Sousa<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<figure>\n<div class=\"img-container\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/cdn.brasildefato.com.br\/media\/cf83ec17743acc6cce65f80b0bf0255c.jpeg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"316\" \/><\/div><figcaption>A agroecologia tamb\u00e9m cria &#8220;quebra-fogos ecol\u00f3gicos&#8221; que podem ajudar a impedir que pat\u00f3genos escapem de seus habitats &#8211; MST<\/figcaption><\/figure>\n<\/header>\n<div class=\"content\">\n<div class=\"text-content\">\n<p>A\u00a0 maioria dos nossos\u00a0 problemas globais: escassez de energia e de \u00e1gua, degrada\u00e7\u00e3o ambiental, mudan\u00e7a clim\u00e1tica, desigualdade econ\u00f4mica, inseguran\u00e7a alimentar e outros, n\u00e3o\u00a0 podem ser abordados de forma separada, j\u00e1 que estes est\u00e3o interconectados e s\u00e3o interdependentes. Quando um dos problemas se agrava, os efeitos se estendem por todo o sistema, exacerbando os outros problemas. Como nunca antes, a pandemia de coronav\u00edrus nos revela a natureza sist\u00eamica do nosso mundo:\u00a0 a sa\u00fade humana, animal e ecol\u00f3gica est\u00e3o estreitamente vinculadas. Sem d\u00favida, a covid-19 \u00e9 um chamado de aten\u00e7\u00e3o para a humanidade repensar nosso modo de desenvolvimento capitalista e altamente consumista, e as formas com que nos relacionamos com a natureza. Os tempos exigem uma resposta\u00a0 integral \u00e0 crise atual, onde se abordam as causas profundas por tr\u00e1s da j\u00e1 aparente fragilidade e vulnerabilidade s\u00f3cio ecol\u00f3gica do nosso mundo. A agroecologia representa um exemplo inspirador de uma abordagem sist\u00eamica poderosa e, neste momento da pandemia de coronav\u00edrus,\u00a0 a agroecologia pode ajudar a explorar os v\u00ednculos entre agricultura e sa\u00fade, demonstrando que a maneira como a agricultura \u00e9 praticada pode por um lado, promover a sa\u00fade ou, pelo contr\u00e1rio, se for mal praticada, como na agricultura industrial, pode causar grandes riscos \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>As consequ\u00eancias ecol\u00f3gicas da agricultura industrial na sa\u00fade humana<\/strong><\/p>\n<p>Durante\u00a0 d\u00e9cadas, muitos\u00a0 agroecologistas t\u00eam denunciado\u00a0 os impactos da agricultura industrial\u00a0 na sa\u00fade humana e nos ecossistemas. Os\u00a0 monocultivos em grande escala ocupam em torno\u00a0 de 80% dos 1,5 bilh\u00f5es de hectares dedicados\u00a0 a agricultura em todo o mundo.Devido sua baixa diversidade ecol\u00f3gica e homogeneidade\u00a0 gen\u00e9tica, s\u00e3o muito vulner\u00e1veis \u00e0s infesta\u00e7\u00f5es de plantas daninhas, invas\u00f5es de insetos e epidemias de doen\u00e7as, e recentemente \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Para controlar as pragas, aplicam em torno de 2,3 bilh\u00f5es kg de agrot\u00f3xicos a cada ano, menos de 1% dos quais alcan\u00e7a as pragas efetivamente.\u00a0 A maioria termina nos\u00a0 sistemas\u00a0 de solo, ar,\u00a0 e \u00e1gua, causando\u00a0 danos ambientais e\u00a0 na sa\u00fade p\u00fablica, estimados em mais de U$ 10 bilh\u00f5es ao ano, somente nos Estados\u00a0 Unidos da Am\u00e9rica (EUA). Estas cifras n\u00e3o incluem os envenenamentos de pessoas\u00a0 por agrot\u00f3xicos. Que em n\u00edvel mundial afeta manualmente aproximadamente 26 milh\u00f5es de pessoas. Estes c\u00e1lculos\u00a0 t\u00e3o pouco consideram os custos associados aos efeitos t\u00f3xicos agudos e cr\u00f4nicos que causam os agrot\u00f3xicos atrav\u00e9s dos res\u00edduos nos alimentos.<\/p>\n<p>Muitos inseticidas causam a diminui\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies como polinizadores, inimigos naturais das pragas, assim como borboletas e besouros, aves e a biota\u00a0 do solo em paisagens agr\u00edcolas, todos os quais contribuem com servi\u00e7os ecol\u00f3gicos fundamentais para a agricultura. Esta perda de biodiversidade custa\u00a0 centenas de bilh\u00f5es de d\u00f3lares anuais na produ\u00e7\u00e3o de cultivos e na sa\u00fade humana, e refor\u00e7a a espiral dos agrot\u00f3xicos amplificando seus efeitos sobre humanos e ecossistemas. O aparecimento de umas 586 esp\u00e9cies\u00a0 de insetos e \u00e1caros resistentes a mais de 325 inseticidas, indica que a agricultura moderna tem ficado sem ferramentas, n\u00e3o s\u00f3 para fazer frente \u00e0s pragas dos cultivos, mas tamb\u00e9m \u00e0s doen\u00e7as humanas como a dengue, a mal\u00e1ria e outras.<\/p>\n<p>Muito foi escrito sobre como a cria\u00e7\u00e3o de gado bovino industrial de maneira confinada \u201cfeedlots\u201d, \u00e9 particularmente vulner\u00e1vel a devasta\u00e7\u00e3o por diferentes v\u00edrus como a gripe avi\u00e1ria e a influenza. As grandes propriedades que tem dezenas de milhares de aves ou milhares de\u00a0 porcos,em nome de uma produ\u00e7\u00e3o eficiente de prote\u00ednas,criam uma oportunidade para que os v\u00edrus como a influenza sofram muta\u00e7\u00e3o e se propaguem. Mais de 50 milh\u00f5es de galinhas e perus nos Estados Unidos morreram pela gripe avi\u00e1ria. As pr\u00e1ticas nestas opera\u00e7\u00f5es industriais (confinamento, exposi\u00e7\u00e3o respirat\u00f3ria a altas concentra\u00e7\u00f5es de amon\u00edaco, sulfeto de hidrog\u00eanio, etc. que emanam dos dejetos) n\u00e3o somente deixam os animais mais suscept\u00edveis as infec\u00e7\u00f5es virais, como podem proporcionar as condi\u00e7\u00f5es pelas quais os pat\u00f3genos podem evoluir a tipos de v\u00edrus mais contagiosos e\u00a0 infecciosos. Estes v\u00edrus em constante mudan\u00e7a d\u00e3o lugar \u00e0 pr\u00f3xima pandemia humana, como ocorreu em abril de 2009, com um novo tipo de gripe (Influenza) conhecida como o H1N1. O v\u00edrus se fez conhecido como a gripe su\u00edna e se propagou rapidamente por todo o mundo para alcan\u00e7ar o estado de pandemia.<\/p>\n<p>Outro fator que contribui para o surgimento de pandemias \u00e9 o uso massivo e indiscriminado de produtos antibi\u00f3ticos e promotores de crescimento em modelos de pecu\u00e1ria industrial. Enrique Murgueitio, do CIPAV (Fundaci\u00f3n Centro para la Investigaci\u00f3n en Sistemas Sostenibles de Producci\u00f3n Agropecuaria), afirma que \u201cal\u00e9m de poluente e caro, seu pior efeito na sa\u00fade humana \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia de estirpes patog\u00eanicas aos medicamentos. Como outros v\u00edrus, esperando uma pr\u00f3xima pandemia, superbact\u00e9rias como Pseudomonas aeruginosa, Escherichia coli, Staphylococcus aureus e Salmonella se alinham, com as quais n\u00e3o h\u00e1 como lidar\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que existem outros sistemas de produ\u00e7\u00e3o de gado bovino, como os sistemas silvipastoris, que baseados em princ\u00edpios agroecol\u00f3gicos asseguram uma produ\u00e7\u00e3o animal saud\u00e1vel, restauram as paisagens \u00a0 e s\u00e3o menos prop\u00edcios a promo\u00e7\u00e3o de epidemias. Antibi\u00f3ticos\u00a0\u00a0\u00a0 n\u00e3o\u00a0\u00a0\u00a0 s\u00e3o\u00a0\u00a0\u00a0 utilizados\u00a0\u00a0\u00a0 nesses\u00a0\u00a0\u00a0 sistemas (exceto em emerg\u00eancias), pois vivem ao ar livre em agroecossistemas biodiversos e sua dieta \u00e9 baseada\u00a0 em alimentos naturais provenientes de solos saud\u00e1veis, fortalecendo o sistema imunol\u00f3gico desses animais.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o\u00a0 se agrava \u00e0 medida que as paisagens agr\u00edcolas biodiversas, em que os cultivos est\u00e3o rodeados por \u00e1reas de vegeta\u00e7\u00e3o\u00a0 natural, est\u00e3o sendo substitu\u00eddas por grandes \u00e1reas de monocultivos que causam desmatamento e aparecimento de doen\u00e7as. Como observou o bi\u00f3logo evolucionista Rob Wallace: \u201cMuitos desses novos pat\u00f3genos anteriormente controlados\u00a0 por ecologias florestais de longa data est\u00e3o sendo liberados, amea\u00e7ando o mundo inteiro. A agricultura liderada pelo capital que substitui os habitats naturais oferece as condi\u00e7\u00f5es \u00f3timas para que os pat\u00f3genos desenvolvam fen\u00f3tipos mais contagiosos e infecciosos\u201d. Em outras palavras, os pat\u00f3genos anteriormente envoltos em ambientes\u00a0 naturais, est\u00e3o estendendo as comunidades de cria\u00e7\u00f5es animais e humanas devido \u00e0s perturba\u00e7\u00f5es causadas pela agricultura moderna e seus agrot\u00f3xicos e inova\u00e7\u00f5es biotecnol\u00f3gicas. Um mero aumento de 4% no desmatamento na Amaz\u00f4nia aumentou a incid\u00eancia de mal\u00e1ria em quase 50%. A pandemia de coronav\u00edrus nos lembra\u00a0 que, ao violar as leis b\u00e1sicas da ecologia em nome do lucro, mais doen\u00e7as infecciosas emergentes nas pessoas vir\u00e3o de animais dom\u00e9sticos criados na natureza e na ind\u00fastria.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Diminui\u00e7\u00e3o da biodiversidade de cultivos e a sa\u00fade humana<\/strong><\/p>\n<p>Outra consequ\u00eancia na sa\u00fade p\u00fablica da intensifica\u00e7\u00e3o da agricultura tem sido a diminui\u00e7\u00e3o da diversidade\u00a0 de cultivos nas paisagens agr\u00edcolas. Apesar dos seres humanos poderem comer mais de 2.500\u00a0 esp\u00e9cies de plantas, a dieta da maioria das pessoas \u00e9 composta por tr\u00eas culturas principais, como trigo, arroz e milho, que fornecem mais\u00a0 de 50% das calorias consumidas em n\u00edvel mundial. No entanto, mais de 850 milh\u00f5es de pessoas n\u00e3o t\u00eam acesso a calorias suficientes\u00a0 para se alimentar. Por outro lado, mais de 2 bilh\u00f5es de pessoas (principalmente crian\u00e7as) que consomem principalmente calorias,sofrem\u00a0 com a fome oculta, pois sua ingest\u00e3o e absor\u00e7\u00e3o de vitaminas e minerais s\u00e3o muito baixas para manter uma boa sa\u00fade e desenvolvimento.<\/p>\n<p>O fato de menos\u00a0 esp\u00e9cies de cultivos estarem alimentando o mundo, suscita preocupa\u00e7\u00f5es com a nutri\u00e7\u00e3o humana, bem como com a resili\u00eancia do sistema alimentar global, pois a diversidade de cultivos \u00e9 essencial para a adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. A perda da diversidade\u00a0 de cultivos e a homogeneiza\u00e7\u00e3o concomitante de agroecossistemas podem ter consequ\u00eancias importantes para a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os ecol\u00f3gicos e a sustentabilidade do sistema alimentar. O pre\u00e7o do fracasso de qualquer um desses cultivos pode ser muito significativo para a seguran\u00e7a alimentar, afetando ainda mais o prec\u00e1rio estado nutricional e de sa\u00fade das pessoas mais pobres e vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>Como\u00a0 indicado por Michael Pollan, \u201ctodo o suprimento de alimentos dos Estados Unidos passou por um processo de &#8220;cornifica\u00e7\u00e3o&#8221;(dieta baseada em derivados de milho) e a maior parte do milho consumido \u00e9 invis\u00edvel, j\u00e1 que tem sido processado ou passado atrav\u00e9s da alimenta\u00e7\u00e3o animal antes que cheguem aos consumidores\u201d.A maioria das galinhas, porcos e gado de hoje subsiste com uma dieta de milho. A maioria dos refrigerantes e lanches consumidos nos EUA cont\u00e9m xarope de milho com alto teor de frutose (high-fructose corn syrup), associado \u00e0 epidemia de obesidade e diabetes tipo 2.<\/p>\n<p>Nos\u00a0 pa\u00edses em desenvolvimento, a moderniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola levou a uma perda de seguran\u00e7a alimentar vinculada \u00e0 ruptura das comunidades rurais tradicionais e seus sistemas\u00a0 diversificados de produ\u00e7\u00e3o de alimentos. Alimentado principalmente por um sistema alimentar globalizado corporativo e acordos de livre com\u00e9rcio. Muitos pa\u00edses est\u00e3o passando de dietas tradicionais diversas e ricas para alimentos e bebidas altamente processados,\u00a0 com alta densidade de energia e pobres em micronutrientes. Como consequ\u00eancia, a obesidade e as doen\u00e7as cr\u00f4nicas relacionadas a essas dietas se proliferaram.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Agroecologia e um novo sistema alimentar<\/strong><\/p>\n<p>Atualmente, quando os governos imp\u00f5em restri\u00e7\u00f5es a viagens e com\u00e9rcio e o bloqueio de cidades inteiras para impedir a dissemina\u00e7\u00e3o da covid-19, a fragilidade do sistema alimentar\u00a0 globalizado se torna muito evidente. Mais restri\u00e7\u00f5es comerciais e de viagens podem limitar a flu\u00eancia de alimentos importados, de outros pa\u00edses ou de outras regi\u00f5es de um pa\u00eds em\u00a0 particular, com consequ\u00eancias devastadoras no acesso aos alimentos, principalmente nos setores mais pobres. Isso \u00e9 cr\u00edtico para os pa\u00edses que importam mais de 50% dos alimentos consumidos por suas popula\u00e7\u00f5es. O acesso a alimentos tamb\u00e9m \u00e9 cr\u00edtico\u00a0 para cidades com mais de 5 milh\u00f5es de pessoas que, para alimentar seus cidad\u00e3os, precisam importar n\u00e3o menos que 2.000 toneladas de alimentos por dia, percorrendo uma m\u00e9dia de 1.000 quil\u00f4metros. Claramente, este \u00e9 um sistema alimentar altamente\u00a0 insustent\u00e1vel, facilmente perturbado por choques externos, como desastres naturais ou uma pandemia.<\/p>\n<p>Diante de tais tend\u00eancias globais, a agroecologia ganhou muita aten\u00e7\u00e3o nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas como base para a transi\u00e7\u00e3o para uma agricultura, que\u00a0 n\u00e3o apenas proporcionaria \u00e0s fam\u00edlias rurais, benef\u00edcios sociais, econ\u00f4micos e ambientais significativos, mas tamb\u00e9m alimentaria as massas urbanas de maneira equitativa e sustent\u00e1vel. Existe uma necessidade urgente de promover novos sistemas\u00a0 alimentares locais para garantir a produ\u00e7\u00e3o de alimentos abundantes, saud\u00e1veis e acess\u00edveis para uma crescente popula\u00e7\u00e3o humana urbanizada. Esse desafio ser\u00e1 dif\u00edcil, considerando os cen\u00e1rios previstos de uma base de terra ar\u00e1vel em decl\u00ednio; com petr\u00f3leo caro e pre\u00e7os vol\u00e1teis; suprimentos cada vez mais limitados de \u00e1gua e nitrog\u00eanio; e, em um momento de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas extremas, tens\u00f5es sociais e incerteza econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o melhor sistema agr\u00edcola capaz de enfrentar desafios futuros \u00e9 aquele que se baseia em princ\u00edpios agroecol\u00f3gicos que exibem altos n\u00edveis de diversidade e resili\u00eancia, oferecendo rendimentos razo\u00e1veis e servi\u00e7os ecossist\u00eamicos. A agroecologia\u00a0 prop\u00f5e restaurar as\u00a0 paisagens que circundam\u00a0 as propriedades rurais, o que enriquece a matriz ecol\u00f3gica e\u00a0 seus servi\u00e7os, como controle natural\u00a0 de pragas, conserva\u00e7\u00e3o do solo e da \u00e1gua,\u00a0 etc., mas tamb\u00e9m cria &#8220;quebra-fogos ecol\u00f3gicos&#8221;\u00a0 que podem ajudar a impedir que pat\u00f3genos escapem de seus habitats.<\/p>\n<p>Muito\u00a0 trabalho\u00a0 foi feito\u00a0 para restaurar\u00a0 as capacidades de\u00a0 produ\u00e7\u00e3o de pequenos agricultores, \u00a0 promovendo princ\u00edpios e pr\u00e1ticas \u00a0 agroecol\u00f3gicas que aumentam a produ\u00e7\u00e3o\u00a0 agr\u00edcola tradicional, mas tamb\u00e9m melhorando\u00a0 a agrobiodiversidade e seus efeitos positivos associados\u00a0 \u00e0 seguran\u00e7a alimentar e \u00e0 integridade ambiental. Este trabalho \u00e9 chave para a soberania alimentar de muitas comunidades, j\u00e1 que os pequenos agricultores que controlam apenas 30% das terras ar\u00e1veis do mundo produzem entre 50 e 70% dos alimentos consumidos na maioria dos pa\u00edses.<\/p>\n<p>A agricultura urbana foi refor\u00e7ada como uma importante alternativa sustent\u00e1vel para melhorar a seguran\u00e7a alimentar em um planeta urbanizado. A produ\u00e7\u00e3o de frutas frescas, vegetais e alguns produtos de origem animal nas cidades podem ser melhorados usando a agroecologia, contribuindo assim para o fornecimento de alimentos e nutri\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias em n\u00edvel local, especialmente em comunidades marginalizadas. A produ\u00e7\u00e3o urbana de alimentos dobrou globalmente em pouco mais de 15 anos, e essa tend\u00eancia de expans\u00e3o\u00a0 continuar\u00e1 \u00e0 medida que as pessoas perceberem que em tempos de crise, o acesso a alimentos produzidos localmente \u00e9 estrat\u00e9gico. A ingest\u00e3o de alimentos nutritivos \u00e0 base de plantas produzidos em propriedades agroecol\u00f3gicas locais pode ajudar a fortalecer nosso sistema imunol\u00f3gico, possivelmente melhorando nossa capacidade de resistir a v\u00e1rias amea\u00e7as, incluindo os v\u00edrus contagiosos como a covid-19.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p>A\u00a0 agroecologia\u00a0 tem o potencial\u00a0 de produzir localmente\u00a0 grande parte dos alimentos necess\u00e1rios\u00a0 para as comunidades rurais e urbanas, particularmente\u00a0 em um mundo amea\u00e7ado pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e outros\u00a0 dist\u00farbios, como as pandemias de doen\u00e7as. O que \u00e9 necess\u00e1rio\u00a0 \u00e9 o apoio para a amplia\u00e7\u00e3o da agroecologia, a fim de otimizar,\u00a0 restaurar e melhorar as capacidades produtivas dos pequenos agricultores locais\u00a0 e urbanos. Para aproveitar esse potencial, iniciativas agroecol\u00f3gicas locais bem-sucedidas devem ser amplamente disseminadas por meio de estrat\u00e9gias pedag\u00f3gicas de agricultor para\u00a0 agricultor, a cria\u00e7\u00e3o de refer\u00eancias agroecol\u00f3gicas, a reativa\u00e7\u00e3o dos sistemas tradicionais e a reconfigura\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios inteiros sob gest\u00e3o agroecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Para melhorar a viabilidade \u00a0 econ\u00f4mica de tais esfor\u00e7os, \u00e9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m desenvolver oportunidades de mercado locais e regionais equitativas, regidas pelos princ\u00edpios da economia solid\u00e1ria. Nesse ponto, \u00a0 o papel dos consumidores \u00e9 fundamental,se eles entenderem que comer \u00e9 um ato pol\u00edtico e ecol\u00f3gico, de modo que, quando apoiam os agricultores locais, e n\u00e3o a cadeia alimentar corporativa, eles\u00a0 criam sustentabilidade e resili\u00eancia socioecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o da agricultura mediante pol\u00edticas governamentais levar\u00e1 tempo, mas cada um de n\u00f3s pode acelerar o processo fazendo escolhas di\u00e1rias\u00a0 para ajudar os pequenos agricultores, o planeta e, finalmente, nossa pr\u00f3pria sa\u00fade.A transi\u00e7\u00e3o para a agroecologia para uma agricultura socialmente mais justa, economicamente vi\u00e1vel, ambientalmente \u00a0 sanae saud\u00e1vel ser\u00e1 o resultado da conflu\u00eancia entre movimentos sociais rurais e urbanos, que de maneira coordenada trabalham\u00a0 para a transforma\u00e7\u00e3o\u00a0 radical do sistema alimentar globalizado\u00a0 que est\u00e1 colapsando. Hoje em dia \u00e9 sensato\u00a0 refletir sobre o fato de que os ecossistemas sustentam as economias\u00a0 (e a sa\u00fade); economias n\u00e3o sustentam os ecossistemas. A covid-19 nos lembra que o tratamento desrespeitoso com a natureza, incluindo a biodiversidade de plantas\u00a0 e animais, t\u00eam consequ\u00eancias e, quando s\u00e3o prejudicadas, em \u00faltima inst\u00e2ncia, os seres humanos tamb\u00e9m s\u00e3o. Esperamos que a atual crise provocada pela covid-19 ajude a iluminar a humanidade a\u00a0 lan\u00e7ar as bases para um novo mundo e maneiras mais suaves de interagir com a natureza.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Refer\u00eancias (online)<\/p>\n<p><em>[1]\u00a0<\/em>https:\/\/mronline.org\/2020\/01\/29\/notes-on-a-novel-coronavirus\/<\/p>\n<p><em>[2] https:\/\/michaelpollan.com\/articles-archive\/when-a-crop-becomes-king\/<\/em><\/p>\n<p><em>[3] https:\/\/www.nytimes.com\/2012\/07\/15\/sunday-review\/the-ecology-ofdisease.html?fbclid=IwAR3_IcCnCXGDI26RV7_MfchXusL7TfK3o3dE1kdHvw69YSUOThG42 6sNykg<\/em><\/p>\n<p><em>[4] https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/21683565.2018.1499578<\/em><\/p>\n<p><em>[5] https:\/\/www.academia.edu\/38706380\/Urban_agroecology_Agrosur<\/em><\/p>\n<p><em>[6] https:\/\/www.mdanderson.org\/publications\/focused-on-health\/5-benefits-of-a-plant-based-diet.h20-1592991.html<\/em><\/p>\n<p><em>*Miguel A Altieri e Clara In\u00e9s Nicholls s\u00e3o pesquisadores da Universidade da Calif\u00f3rnia, Berkeley e Centro Latinoamericano de Investigaciones Agroecol\u00f3gicas (CELIA).<\/em><\/p>\n<p><em>**Tradu\u00e7\u00e3o ao Portugu\u00eas: Romier Sousa, educador do IFPA Castanhal e vice-presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Agroecologia (ABA).<\/em><\/p>\n<p class=\"editor\">Edi\u00e7\u00e3o: Luiza Man\u00e7ano<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste momento da pandemia de coronav\u00edrus, a agroecologia pode ajudar a explorar os v\u00ednculos entre<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Neste momento da pandemia de coronav\u00edrus, a agroecologia pode ajudar a explorar os v\u00ednculos entre","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/130578"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=130578"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/130578\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=130578"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=130578"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=130578"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}