{"id":12762,"date":"2014-12-23T18:00:48","date_gmt":"2014-12-23T18:00:48","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=12762"},"modified":"2014-12-23T12:08:25","modified_gmt":"2014-12-23T12:08:25","slug":"deserto-em-cabo-verde-e-formado-por-graos-de-areia-que-atravessam-o-atlantico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/deserto-em-cabo-verde-e-formado-por-graos-de-areia-que-atravessam-o-atlantico\/","title":{"rendered":"Deserto em Cabo Verde \u00e9 formado por gr\u00e3os de areia que atravessam o Atl\u00e2ntico"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/deserto_cabo_verde.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-12768\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/deserto_cabo_verde-300x191.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"191\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/deserto_cabo_verde-300x191.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/deserto_cabo_verde.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Chove o tempo todo. Mas n\u00e3o \u00e9 de \u00e1gua que falamos, muito pelo contr\u00e1rio. \u00c9 deserto. Chove areia.<\/p>\n<p>Das dez ilhas de Cabo Verde, Boavista \u00e9 a que fica mais perto do continente africano. S\u00e3o menos de 500 quil\u00f4metros at\u00e9 a costa do Senegal.<\/p>\n<p>O Deserto de Viana \u00e9 um filho leg\u00edtimo do maior e mais quente deserto do mundo, o Saara. S\u00e3o 7 quil\u00f4metros quadrados com areia que sobrevoa o Atl\u00e2ntico at\u00e9 chegar ao deserto. N\u00e3o \u00e9 a cara do pai?<\/p>\n<p>Um pequeno Saara, de desenhos ondulados, um galho ou outro fincado na areia, seco.<\/p>\n<p>Em um pa\u00eds t\u00e3o modesto em recursos naturais, que importa mais de 80% dos alimentos que consome, a riqueza mais \u00f3bvia vem do mar.<\/p>\n<p>Garoupa, bica, vidi\u00e3o, moreia, lula, variedade. Peixes desfilam pelas ruas \u00e0 procura de comprador.<\/p>\n<p>Quem v\u00ea o tamanho do dourado imagina uma situa\u00e7\u00e3o de fartura, de facilidade de trazer do mar peixes t\u00e3o grandes. Foi-se o tempo.<\/p>\n<p>Aos 68 anos, a m\u00e3o segue firme no controle do barco. \u00c9 o seu Armando. \u00c9 meio-dia, ele saiu \u00e0s 4h, sozinho, para bem longe, onde passou 30 minutos batalhando com o Marlim, que, como vemos, foi o perdedor. Se tudo der certo, seu armando vai vender o peixe por R$ 60. Um dinheiro suado e arriscado.<\/p>\n<p>Globo Rep\u00f3rter: E n\u00e3o \u00e9 perigoso n\u00e3o, seu Armando?<br \/>\nArmando, pescador: Ah, perigoso, \u00e9 perigoso. Muito cansado.<\/p>\n<p>Um toco bate em outro toco para firmar o mastro. Um leme de muitos mares dantes navegados \u00e9 fixado na popa. Sobe a vela feita de sacas de arroz e farinha. \u00c9 quase uma jangada um pouco mais estruturada. O problema \u00e9 que tem levado para destinos cada vez mais distantes.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o dos Santos, pescador: Vamos para longe.<br \/>\nGlobo Rep\u00f3rter: \u00c9 perigoso?<br \/>\nJo\u00e3o dos Santos: Perigoso, \u00e9 risco, tem que arriscar.<\/p>\n<p>Reclamam que a pesca internacional em Cabo Verde diminuiu muito a oferta de peixes e asfixia ainda mais a fr\u00e1gil economia do pa\u00eds. Longe das \u00e1guas calmas da ba\u00eda, a busca pelos peixes \u00e9 de alto risco.<\/p>\n<p>Cabo Verde se tornou independente de Portugal h\u00e1 menos de 40 anos. A vida de col\u00f4nia, quando os portugueses viviam sob a ditadura de Salazar, era ainda mais dura.<\/p>\n<p>Um antigo campo de concentra\u00e7\u00e3o foi o cen\u00e1rio de tortura e, segundo os n\u00fameros oficiais, foram 36 mortes. Nos anos 60, entre as centenas de cabo-verdianos presos, estava um senhor, que revisita a pris\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s fizemos uma luta revolucion\u00e1ria para a independ\u00eancia do nosso pa\u00eds\u201d, contou Fernando Tavares, comerciante.<\/p>\n<p>Para o seu Fernando Tavares, foram tr\u00eas anos l\u00e1.<\/p>\n<p>\u201cEles esperavam que n\u00f3s dev\u00edamos ficar a chorar. N\u00f3s enfrent\u00e1vamos a pol\u00edcia assim, de cara, fa\u00e7a o que quiser, n\u00e3o t\u00ednhamos medo de morrer\u201d, disse Fernando Tavares.<\/p>\n<p>O som ainda \u00e9 aquele t\u00edpico som de cadeia. E tudo remete a dor, perda, sofrimento. E o seu Fernando aceitou voltar ao campo de concentra\u00e7\u00e3o, sem rancor, sem \u00f3dio. O velho militante n\u00e3o desaprendeu a sorrir.<\/p>\n<p>Para o seu Fernando, manter o campo de concentra\u00e7\u00e3o \u00e9 lembrar a vit\u00f3ria sobre ele. No corredor onde est\u00e3o as fotos de alguns presos pol\u00edticos, seu Fernando aparece sorrindo.<\/p>\n<p>A s\u00edntese de um pa\u00eds cheio de hist\u00f3rias cru\u00e9is, mas que n\u00e3o perde o sorriso e o bom humor. Um povo que aprendeu a ser solid\u00e1rio para sobreviver.<\/p>\n<p>Um pa\u00eds que oferece um mar padr\u00e3o caribe aos turistas e mergulhos cheios de cores e de vida, como pudemos confirmar.<\/p>\n<p>Um pa\u00eds de mulheres equilibristas, que levam acima da cabe\u00e7a uma extensa e incr\u00edvel variedade de artigos. M\u00e3os livres, coluna ereta, as mulheres de Cabo Verde, que em geral falam melhor em crioulo do que em portugu\u00eas. A gente at\u00e9 que estava se entendendo, at\u00e9 que ela pediu um dinheirinho, o equivalente a uns R$ 5.<\/p>\n<p>Ela ri feliz, porque percebeu que Tino Marcos entendeu, mas&#8230; \u201cQuando \u00e9 para dar dinheiro, a gente n\u00e3o entende n\u00e3o\u201d, brincou o rep\u00f3rter.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chove o tempo todo. 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