{"id":125702,"date":"2020-04-19T00:00:03","date_gmt":"2020-04-19T03:00:03","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=125702"},"modified":"2020-04-22T13:11:31","modified_gmt":"2020-04-22T16:11:31","slug":"o-inexoravel-caminhar-do-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/o-inexoravel-caminhar-do-tempo\/","title":{"rendered":"O inexor\u00e1vel caminhar do tempo"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/Tempo-rel%C3%B3gio.jpg\" width=\"638\" height=\"359\" \/><\/p>\n<p><em><strong>por Amelia Gonzalez \u2013\u00a0<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Ando brincando com o tempo.<\/p>\n<p>Ou ser\u00e1 que deixo que ele brinque comigo?<\/p>\n<p>As ruas vazias, os compromissos adiados, as not\u00edcias monotem\u00e1ticas. E o tempo parou.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes me acordo e tento imaginar, ainda sem sair da cama, se ser\u00e1 s\u00e1bado, segunda, quarta\u2026 Nem importa tanto.<\/p>\n<p>Por isto ando brincando de encurtar a dist\u00e2ncia do tempo, puxando da mem\u00f3ria s\u00f3 lembran\u00e7as boas. As amargas, deixo de lado. Eis uma boa fun\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, livrar-nos do mal. Ax\u00e9!<\/p>\n<p>Foi assim que me desloquei at\u00e9 finzinho do s\u00e9culo passado, quando ganhei meu primeiro smartphone.<\/p>\n<p>Eu era editora do Globo, e todos os editores tiveram direito ao dispositivo. Come\u00e7ava a se tornar realidade o deslocamento das not\u00edcias, a pulveriza\u00e7\u00e3o dos meios. E n\u00f3s precis\u00e1vamos estar atentos ao movimento.<\/p>\n<p>Logo vieram as redes. O Orkut tornou-se febre, lembro das broncas nos rep\u00f3rteres que n\u00e3o despregavam os olhos daquele tro\u00e7o e atrasavam o fechamento do jornal.<\/p>\n<p>Logo veio o Face, e o Orkut ficou para tr\u00e1s. Tornou-se comum a pergunta: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 no face?\u201d. Criei meu perfil meio atrasada, confesso.<\/p>\n<p>E tempos depois um amigo me perguntou: \u201cQual seu zap?\u201d Eu n\u00e3o tinha, corri a criar.<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria pula de galho em galho feito macaco. E j\u00e1 estou aqui, nos dias atuais, neste s\u00e1bado que passou.<\/p>\n<p>Era um dia modorrento como t\u00eam sido todos. Algu\u00e9m me lembrou que ia acontecer um show mundial, capitaneado pela OMS, para homenagear os profissionais de sa\u00fade do mundo todo e repisar que \u00e9 preciso ficar em casa. Artistas de renome, convidados por Lady Gaga, montaram traquitanas no ambiente dom\u00e9stico e sua voz, sua arte, chegou para todo o mundo. Adorei ver os Rolling Stones, perceber detalhes da decora\u00e7\u00e3o deles\u2026<\/p>\n<p>Senti falta de Gil, Caetano, Chico e Milton. Percebi que o Brasil esteve fora das homenagens, e acho que faz sentido. Afinal, o chefe do executivo considera a pandemia uma gripezinha. E, mesmo no dia seguinte ao show, se arvorou feito dom Quixote em frente aos seus s\u00faditos, conclamando todos a acabarem com o isolamento.<\/p>\n<p>Vida que segue, n\u00e3o vou ficar repisando a ceninha. Prefiro ampliar pensamento.<\/p>\n<p>Como caminhamos r\u00e1pido quando se trata de tecnologia que vai render lucros, n\u00e3o? De duas d\u00e9cadas para c\u00e1, j\u00e1 estamos neste ponto, de assistir um show mundial feito em casa. Eu fico impressionada.<\/p>\n<p>E estarrecida.<\/p>\n<p>Porque somos velozes com m\u00e1quinas, com fios, chips, microchips, nanochips. J\u00e1 com a sa\u00fade de toda gente, vejam como patinamos.<\/p>\n<p>Um s\u00e9culo depois da Gripe Espanhola, que infectou cerca de 500 milh\u00f5es de pessoas, estamos aqui ainda precisando lembrar \u00e0s pessoas que elas precisam lavar as m\u00e3os para n\u00e3o pegar o v\u00edrus. O ator Miguel Falabella encontrou um panfleto da \u00e9poca e reproduz, graciosamente, em v\u00eddeo que anda correndo pela rede. A recomenda\u00e7\u00e3o era a mesma de agora, em panfletos distribu\u00eddos nas ruas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_240658\" class=\"wp-caption alignleft\" aria-describedby=\"caption-attachment-240658\"><a href=\"https:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/Fote-Tempo.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-240658 \" src=\"https:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/Fote-Tempo.jpg\" sizes=\"(max-width: 426px) 100vw, 426px\" srcset=\"https:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/Fote-Tempo.jpg 480w, https:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/Fote-Tempo-225x300.jpg 225w, https:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/Fote-Tempo-375x500.jpg 375w, https:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/Fote-Tempo-413x550.jpg 413w\" alt=\"\" width=\"426\" height=\"568\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-240658\" class=\"wp-caption-text\">(A foto \u00e9 do livro de Josu\u00e9 de Castro, \u201cGeografia da fome\u201d e retrata pessoas, na \u00e9poca chamadas de retirantes, descendo o Rio S\u00e3o Francisco)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Sim, corremos pela rede. N\u00e3o \u00e9 preciso mais cortar \u00e1rvores e produzir pap\u00e9is para fazer chegar as mensagens \u00e0 maioria. J\u00e1 temos, para isto, a tecnologia a nosso favor.<\/p>\n<p>E sabem o que tamb\u00e9m continua sendo do mesmo jeitinho? A pobreza, a fome, a desigualdade.<\/p>\n<p>Aqui no Brasil, Josu\u00e9 de Castro, um pensador e ativista que nasceu no ano da Gripe Espanhola focou o trabalho de toda a vida para provar que a fome n\u00e3o \u00e9 resultado de excesso de pessoas, mas de m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de renda.<\/p>\n<p>Quem tem dinheiro, come. Quem n\u00e3o tem dinheiro, n\u00e3o come.<\/p>\n<p>Ele escreveu \u201cGeografia da fome\u201d em 1946. E \u00e9 um livro t\u00e3o atual.<\/p>\n<p>De l\u00e1 para c\u00e1, agregamos \u00e0 mis\u00e9ria pela fome, a mis\u00e9ria causada pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Portanto, conseguimos piorar bastante a vida dos vulner\u00e1veis, dos que correm risco de vida desde que nascem. Na linguagem do atual governo, chamam-nos \u201cdesassistidos\u201d.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel n\u00e3o perceber o descalabro que \u00e9 deixar tantos \u00e0 margem de forma t\u00e3o cruel. A na\u00e7\u00e3o mais rica tamb\u00e9m exp\u00f5e esta vergonha, que vem \u00e0 tona em tempos de crise, como foi quando o furac\u00e3o Katrina assolou seu territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Que o tempo n\u00e3o pare \u00e0 toa.<\/p>\n<p>Que a gente n\u00e3o jogue fora pensamentos, porque eles ser\u00e3o preciosos.<\/p>\n<p>Mas, sobretudo, que a gente n\u00e3o se esque\u00e7a do que j\u00e1 viveu, das falsas promessas que j\u00e1 ouvimos, dos falsos resultados aos quais, no fim, n\u00e3o chegamos. Vamos ficar alertas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/Amelia-Gonzales.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft wp-image-240591 size-thumbnail\" src=\"https:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/Amelia-Gonzales-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>A jornalista Amelia Gonzalez \u00a0criou e editou o caderno Raz\u00e3o Social, sobre sustentabilidade, no jornal O Globo e nos \u00faltimos sete anos foi colunista do site G1, sempre com foco neste tema<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Amelia Gonzalez \u2013\u00a0 Ando brincando com o tempo. 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