{"id":125116,"date":"2020-04-12T12:38:06","date_gmt":"2020-04-12T15:38:06","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=125116"},"modified":"2020-04-12T12:38:06","modified_gmt":"2020-04-12T15:38:06","slug":"isolados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/isolados\/","title":{"rendered":"Isolados"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-riyhiN6CysY\/XpMzbkq9iuI\/AAAAAAAIIXU\/088Rn9BZRmA0HVG_DHW1CY3tzPR0IeQmACLcBGAsYHQ\/s640\/FOTOLE%25CC%2581ON.jpg\" width=\"640\" height=\"437\" \/><\/p>\n<p>Adriano de L\u00e9on*<\/p>\n<p>Um v\u00edrus me trouxe o inverno.<\/p>\n<p>Em menos de um m\u00eas, sem chover, trovejar, c\u00e9u claro e sol forte, uma tormenta caiu como grossas camadas de neve e gelo sobre mim. Portas fechadas. Liga\u00e7\u00f5es esparsas e, muitas vezes, movidas aos acordes da car\u00eancia dos outros.<\/p>\n<p>Estes tamb\u00e9m isolados em seus medos invernais. Tediosos de filmes, p\u00e1ginas de livros mal lidos naquela hora de afogamento. Reinventando o mesmo, o si mesmo, o mais mesquinho de si. Outros se mascarando, como sempre quiseram, sob o dom\u00ednio de um medo que nem bem conhecem. Temem n\u00e3o o v\u00edrus, presente no planeta mesmo antes do homem. Temem o outro. Este outro poss\u00edvel portador, como os medievos temiam a peste negra, como os europeus temiam a gripe espanhola, como os africanos temiam o ebola, como os americanos temiam o antraz. Temer o outro passou a ser nossa seguran\u00e7a. Al\u00e9m disto, mais que temer o outro, perder o sentido de solidariedade que seria um tra\u00e7o humano diante das trag\u00e9dias que a vida anuncia.<\/p>\n<p>Peguei minha toalha e fui ao banho. Permiti as \u00e1guas correrem e talvez me saciarem, quem sabe me limparem deste infecto mundo. Os felpos de algod\u00e3o engoliam as gotas d\u00b4\u00e1gua sobre minha pele, tal qual um v\u00edrus a uma c\u00e9lula. Meus cabelos ainda molhados e desgrenhados \u00e0 luz do espelho que sempre me vigia, faziam com que finos rios de \u00e1gua escorressem ainda sobre minha face. Nela, percebi minhas rugas. Leitos de rio de sabedoria da pele. Dobras da minha subjetividade que uns chamam velhice. Dentro daqueles sulcos havia rios. O que era antes liso, minha pele juvenil, foi erodida pelo tempo, senhor m\u00e1ximo da vida. Estes secos rios de pele e dobra desenharam em mim um outro. Um outro que sou eu e de quem gosto.<\/p>\n<p>Bem que eu poderia ser seduzido pelas m\u00e1gicas f\u00f3rmulas da juventude a qualquer pre\u00e7o. Por cremes e \u00e1cidos preenchedores, atenuantes, revitalizadores, e cirurgias correcionais. N\u00e3o. Este \u00e9 meu corpo no seu tempo. Evocar um corpo que superou o tempo \u00e9 viver uma caricatura de si mesmo. N\u00e3o quero portar m\u00e1scaras nenhumas.<\/p>\n<p>Ao pensar nisto diante da minha imagem, esbocei um sorriso. Um sem n\u00fameros de outras rugas e marcas apareceram do nada. Eram parte do meu sorriso. Ri mais ainda. Ri demasiadamente. E quanto mais ria, mais dobras, mais marcas, mais sombras, mais vigor, apareciam. Meus riachos e ribeirinhos de marcas eram tamb\u00e9m minha do\u00e7ura diante dos di\u00e1rios apocalipses. Feito isto, chorei. Muitas marcas se foram, como que dissolvidas no sal das l\u00e1grimas. Feito terra arada quando chove, que nada mais se v\u00ea a n\u00e3o ser a fina l\u00e2mina d\u00b4\u00e1gua que vivifica o ch\u00e3o sulcado. Meus castanhos olhos se inundaram de borbulhantes fontes. A \u00e1gua escorria pelas colinas das ma\u00e7\u00e3s do meu rosto, pelo vale profundo margeando as narinas, desaguando ora no abismo da minha boca, ora escorrendo no precip\u00edcio do meu queixo.<\/p>\n<p>Ali, \u00e1gua, c\u00e9lulas, bact\u00e9rias e v\u00edrus se juntavam em rodas de vida. Ali, naquele momento, nada os diferenciava como as v\u00e3s nomenclaturas da Ci\u00eancia que vive da separa\u00e7\u00e3o classificat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Suspirei por um segundo. O espelho se enevoou com o vapor da minha respira\u00e7\u00e3o. Desapareci por um tempo por entre o v\u00e9u quente que soprou entre meus l\u00e1bios. Por um instante quis me devolver \u00e0 imagem do espelho. Podia desanuviar o borr\u00e3o. N\u00e3o o fiz. Aquele tamb\u00e9m era eu. Um eu entre nuvens, um eu que se via esfumado e talvez distorcido. Lentamente minha imagem reapareceu. Lentamente meu rosto ressurgiu com seus sulcos e plan\u00edcies de pele. Havia tantos eus naquela imagem&#8230; Sou um eu caleidosc\u00f3pico, m\u00faltiplo e din\u00e2mico.<\/p>\n<p>Terminei o ritual e fui \u00e0 janela. Outros tantos ali trancafiados. Outros tantos al\u00e9m isolados. Isolados dos outros. Isolados de si.<\/p>\n<p>*Adriano de L\u00e9on \u00e9 Professor de Ci\u00eancias Sociais (Jo\u00e3o Pessoa-PB). <a href=\"mailto:%20adrianodeleon77@gmail.com\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.dropbox.com\/s\/47veiq6zonfnsle\/email-icon.png?dl=1\" width=\"20px\" height=\"20px\" align=\"top\" \/>\u00a0adrianodeleon77@gmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adriano de L\u00e9on* Um v\u00edrus me trouxe o inverno. Em menos de um m\u00eas, sem<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Adriano de L\u00e9on* Um v\u00edrus me trouxe o inverno. Em menos de um m\u00eas, sem","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/125116"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=125116"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/125116\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=125116"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=125116"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=125116"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}