{"id":12453,"date":"2014-12-18T13:18:14","date_gmt":"2014-12-18T13:18:14","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=12453"},"modified":"2014-12-18T13:18:14","modified_gmt":"2014-12-18T13:18:14","slug":"encontrado-em-madagascar-cranio-de-um-mamifero-que-viveu-no-supercontinente-gondwana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/encontrado-em-madagascar-cranio-de-um-mamifero-que-viveu-no-supercontinente-gondwana\/","title":{"rendered":"Encontrado em Madagascar cr\u00e2nio de um mam\u00edfero que viveu no supercontinente Gondwana"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/mamifero_madagascar.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-12454\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/mamifero_madagascar-300x191.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"191\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/mamifero_madagascar-300x191.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/mamifero_madagascar.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Por Alexander Kellner*<\/p>\n<p>Parece que, em termos de descobertas paleontol\u00f3gicas, o final de 2014 \u00e9 mesmo dos mam\u00edferos. N\u00e3o s\u00f3 <a class=\"internal-link\" title=\"Novos mam\u00edferos jur\u00e1ssicos\" href=\"http:\/\/cienciahoje.uol.com.br\/colunas\/cacadores-de-fosseis\/novos-mamiferos-jurassicos\">achados recentes<\/a> de formas jur\u00e1ssicas na China surpreenderam os cientistas, mas tamb\u00e9m a descoberta de uma nova esp\u00e9cie de cinodonte no Rio Grande do Sul (veja abaixo, nas Paleocurtas), trouxeram v\u00e1rias novas informa\u00e7\u00f5es a respeito da evolu\u00e7\u00e3o dos mam\u00edferos.<\/p>\n<p>A essas descobertas junta-se um f\u00f3ssil espetacular procedente de Madagascar, tema central desta coluna. A nova esp\u00e9cie, denominada <em>Vintana sertichi<\/em>, pertence a um dos mais enigm\u00e1ticos grupos de mam\u00edferos extintos descoberto at\u00e9 agora: os Gondwanatheria.<\/p>\n<p>O achado de David Krause, da Stony Brook University, de Nova York, nos Estados Unidos, e colegas foi publicado com destaque na revista <em>Nature<\/em> e, em seguida, foi tema de uma grande monografia no <span class=\"link-external\"><a class=\"external-link\" href=\"http:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/02724634.2014.957292#.VI8UNdLF_N4\" target=\"_blank\"><em>Journal of Vertebrate Paleontology<\/em><\/a><\/span>.<\/p>\n<p>Os gondwanat\u00e9rios s\u00e3o formas raras que viveram no supercontinente Gondwana, que outrora reunia todas as massas continentais ao sul da linha do Equador, mais o territ\u00f3rio da \u00cdndia. Restos desses mam\u00edferos foram encontrados na Argentina, \u00cdndia, \u00c1frica e pen\u00ednsula Ant\u00e1rtica, em dep\u00f3sitos cuja idade varia de 110 milh\u00f5es de anos a 56 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s.<\/p>\n<dl class=\"image-inline captioned image-inline\">\n<dt><a href=\"http:\/\/cienciahoje.uol.com.br\/colunas\/cacadores-de-fosseis\/imagens\/fossilespetacular03.jpg\" rel=\"lightbox\"><img loading=\"lazy\" class=\"link-overlay\" style=\"cursor: pointer;\" title=\"Supercontinentes\" src=\"http:\/\/cienciahoje.uol.com.br\/colunas\/cacadores-de-fosseis\/imagens\/fossilespetacular03.jpg\/image_preview\" alt=\"Supercontinentes\" width=\"400\" height=\"285\" \/><\/a><\/dt>\n<dd class=\"image-caption\" style=\"width: 400px;\">Foi no supercontinente Gondwana, que reunia as massas continentais ao sul do Equador, mais a \u00cdndia, que surgiram formas raras como os gondwanat\u00e9rios, a que pertence \u2018V. sertichi\u2019. (imagem: LennyWikidata\/ Wikimedia Commons \u2013 CC BY 3.0)<\/dd>\n<\/dl>\n<p>Infelizmente, as sete esp\u00e9cies que puderam ser comprovadamente classificadas nesse grupo s\u00e3o conhecidas, em sua maioria, por restos de dentes isolados e algumas poucas arcadas inferiores. Entre as principais caracter\u00edsticas do grupo est\u00e3o os molares com coroas muito altas, o que levou os pesquisadores a sugerir que eram on\u00edvoros ou herb\u00edvoros.<\/p>\n<p>Devido \u00e0 escassez de material, n\u00e3o se tinha uma no\u00e7\u00e3o exata da classifica\u00e7\u00e3o dos gondwanat\u00e9rios na hist\u00f3ria evolutiva dos mam\u00edferos. Mas o novo cr\u00e2nio \u2013 o primeiro de uma esp\u00e9cie que pode ser atribu\u00edda ao grupo \u2013 muda tudo.<\/p>\n<h3>Um golpe de sorte<\/h3>\n<p><em>Vintana<\/em>, nome derivado da palavra malgaxe que significa sorte, foi encontrado em rochas formadas entre 72 e 66 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, uma faixa de tempo que forma o topo do Cret\u00e1ceo e \u00e9 denominada de Maastrichtiano.<\/p>\n<p>O achado foi feito por Joseph Sertich, a quem a esp\u00e9cie foi dedicada (<em>Vintana sertichi<\/em>), em rochas que pertencem \u00e0 Forma\u00e7\u00e3o Maevarano. Essas rochas s\u00e3o velhas conhecidas dos paleont\u00f3logos, j\u00e1 que forneceram v\u00e1rios dinossauros (inclusive aves) interessantes, como tamb\u00e9m restos de crocodilomorfos, um sapo gigante, peixes, tartarugas e cobras.<\/p>\n<p>Segundo David Krause e colegas, o cr\u00e2nio de <em>Vintana<\/em> era grande para um mam\u00edfero daquele tempo: aproximadamente 125 mil\u00edmetros, pouco menor que uma caneta Bic. Estimativas sugerem que o animal chegava a pesar perto de 9 quilos, o que o torna o segundo maior mam\u00edfero da Era Mesozoica, sendo ultrapassado apenas pela forma carn\u00edvora <a class=\"internal-link\" title=\"Dinossauros no card\u00e1pio\" href=\"http:\/\/cienciahoje.uol.com.br\/colunas\/cacadores-de-fosseis\/dinossauros-no-cardapio\"><em>Repenomamus<\/em><\/a>, da China, que, diga-se de passagem, se alimentava tamb\u00e9m de dinossauros.<\/p>\n<dl class=\"image-inline captioned image-inline\">\n<dt><a href=\"http:\/\/cienciahoje.uol.com.br\/colunas\/cacadores-de-fosseis\/imagens\/fossilespetacular02.jpg\" rel=\"lightbox\"><img loading=\"lazy\" class=\"link-overlay\" style=\"cursor: pointer;\" title=\"Vintana sertichi\" src=\"http:\/\/cienciahoje.uol.com.br\/colunas\/cacadores-de-fosseis\/imagens\/fossilespetacular02.jpg\/image_preview\" alt=\"Vintana sertichi\" width=\"400\" height=\"142\" \/><\/a><\/dt>\n<dd class=\"image-caption\" style=\"width: 400px;\">Imagem do cr\u00e2nio de \u2018V. sertichi\u2019 produzida por tomografia computadorizada; ao lado, reconstru\u00e7\u00e3o da nova esp\u00e9cie em vida. O cr\u00e2nio do animal \u00e9 considerado grande para um mam\u00edfero de sua \u00e9poca. (imagem: Krause et al.\/ Nature)<\/dd>\n<\/dl>\n<p>Al\u00e9m de ter as coroas dos molares bastante desenvolvidas, caracter\u00edstica que possibilitou classificar a nova esp\u00e9cie nos Gondwanatheria, <em>Vintana<\/em> possu\u00eda dois grandes incisivos na parte anterior do cr\u00e2nio, que possivelmente cresciam de forma cont\u00ednua. Estes eram separados de um pequeno dente pr\u00e9-molariforme e de quatro dentes molariformes por um grande espa\u00e7o (diastema). N\u00e3o possu\u00eda caninos, ao contr\u00e1rio das esp\u00e9cies carn\u00edvoras.<\/p>\n<p>Entre as diversas caracter\u00edsticas do novo mam\u00edfero malgaxe, um osso na parte lateral do cr\u00e2nio (denominado jugal) era muito desenvolvido, indicando que o animal tinha uma musculatura para mastiga\u00e7\u00e3o possante. Como n\u00e3o se conhecem outros cr\u00e2nios de gondwanat\u00e9rios, n\u00e3o se sabe se essa era uma caracter\u00edstica \u00fanica de <em>Vintana<\/em> ou uma caracter\u00edstica compartilhada pelos demais membros do grupo.<\/p>\n<p>Muitas outras fei\u00e7\u00f5es cranianas surpreenderam os pesquisadores. A cabe\u00e7a de <em>Vintana<\/em> \u00e9 relativamente curta e alta, e foram encontrados ossos na cabe\u00e7a que normalmente est\u00e3o ausentes nos demais mam\u00edferos, como o tabular e o p\u00f3s-parietal. A presen\u00e7a desses ossos na nova esp\u00e9cie, que se perderam ao longo da hist\u00f3ria evolutiva dos mam\u00edferos, \u00e9 algo totalmente intrigante para os paleont\u00f3logos, cuja explica\u00e7\u00e3o requer mais estudos.<\/p>\n<p>Usando tomografia computadorizada, David Krause e colegas puderam estudar a cavidade cerebral de <em>Vintana<\/em>. Descobriram que o animal tinha um c\u00e9rebro relativamente pequeno e similar a algumas formas de esp\u00e9cies que antecederam o surgimento dos mam\u00edferos (esp\u00e9cies designadas mamaliformes basais).<\/p>\n<p>As \u00f3rbitas s\u00e3o bastante desenvolvidas, sugerindo a exist\u00eancia de olhos grandes. Como os bulbos olfat\u00f3rios, regi\u00e3o do c\u00e9rebro respons\u00e1vel por captar cheiros, tamb\u00e9m eram bastante desenvolvidos, tudo indica que o olfato de <em>Vintana<\/em> era bem apurado. Caracter\u00edsticas da regi\u00e3o auditiva sugerem que esse mam\u00edfero era bastante \u00e1gil e r\u00e1pido, e an\u00e1lise detalhada do desgaste dos dentes indica que se alimentava de material resistente, como sementes, frutifica\u00e7\u00f5es e ra\u00edzes.<\/p>\n<h3>Isolamento geogr\u00e1fico<\/h3>\n<p>No trabalho, David Krause e colaboradores tentaram estabelecer os motivos pelos quais <em>Vintana<\/em> seria t\u00e3o distinto dos demais mam\u00edferos. Eles acreditam que isso talvez decorra do intenso isolamento geogr\u00e1fico, que, no caso de Madagascar, foi de aproximadamente 16 a 22 milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<dl class=\"image-inline captioned image-inline\">\n<dt><a href=\"http:\/\/cienciahoje.uol.com.br\/colunas\/cacadores-de-fosseis\/imagens\/fossilespetacular04.jpg\" rel=\"lightbox\"><img loading=\"lazy\" class=\"link-overlay\" style=\"cursor: pointer;\" title=\"Madagascar\" src=\"http:\/\/cienciahoje.uol.com.br\/colunas\/cacadores-de-fosseis\/imagens\/fossilespetacular04.jpg\/image_preview\" alt=\"Madagascar\" width=\"400\" height=\"277\" \/><\/a><\/dt>\n<dd class=\"image-caption\" style=\"width: 400px;\">Maci\u00e7os de pedra em plan\u00edcie do lado ocidental de Madagascar. O isolamento geogr\u00e1fico dessa ilha do oceano \u00cdndico talvez explique por que \u2018V. sertichi\u2019 seria t\u00e3o distinto dos demais mam\u00edferos. (foto: Wikimedia Commons\/ Moongateclimber \u2013 CC BY-SA 3.0)<\/dd>\n<\/dl>\n<p>Outros achados nas mesmas camadas onde a nova esp\u00e9cie foi encontrada corroboram essa hip\u00f3tese, j\u00e1 que alguns elementos da fauna reptiliana descoberta at\u00e9 agora tamb\u00e9m diferem bastante dos demais.<\/p>\n<p>A descoberta do cr\u00e2nio de <em>Vintana<\/em> tamb\u00e9m possibilitou melhor an\u00e1lise da rela\u00e7\u00e3o de parentesco dos Gondwanatheria. Tudo indica que esses animais estariam proximamente relacionados com os <a class=\"internal-link\" title=\"Novos mam\u00edferos jur\u00e1ssicos\" href=\"http:\/\/cienciahoje.uol.com.br\/colunas\/cacadores-de-fosseis\/novos-mamiferos-jurassicos\">multituberculados e haramiyidos<\/a>, outros grupos de mam\u00edferos extintos.<\/p>\n<p>Como podemos novamente enfatizar, a paleontologia n\u00e3o se dedica apenas \u00e0 pesquisa dos dinossauros. Outros tantos grupos pelo menos t\u00e3o fascinantes quanto esses r\u00e9pteis t\u00eam sido descobertos, para felicidade geral dos que se interessam por esse maravilhoso mundo \u2013 ou mundos \u2013 que a pesquisa paleontol\u00f3gica descerra para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>*Alexander Kellner<\/strong> atua no Museu Nacional\/UFRJ e na Academia Brasileira de Ci\u00eancias<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Alexander Kellner* Parece que, em termos de descobertas paleontol\u00f3gicas, o final de 2014 \u00e9<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12454,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/mamifero_madagascar.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/mamifero_madagascar-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/mamifero_madagascar-300x191.jpg",300,191,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/mamifero_madagascar.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/mamifero_madagascar.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/mamifero_madagascar.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/mamifero_madagascar.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/mamifero_madagascar.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/mamifero_madagascar.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/mamifero_madagascar.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Por Alexander Kellner* Parece que, em termos de descobertas paleontol\u00f3gicas, o final de 2014 \u00e9","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12453"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12453"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12453\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12454"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12453"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12453"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12453"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}