{"id":124401,"date":"2020-03-31T09:00:25","date_gmt":"2020-03-31T12:00:25","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=124401"},"modified":"2020-03-30T18:15:03","modified_gmt":"2020-03-30T21:15:03","slug":"a-arara-azul-e-seu-papel-chave-na-dispersao-de-sementes-de-18-especies-de-plantas-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/a-arara-azul-e-seu-papel-chave-na-dispersao-de-sementes-de-18-especies-de-plantas-no-brasil\/","title":{"rendered":"A arara-azul e seu papel-chave na dispers\u00e3o de sementes de 18 esp\u00e9cies de plantas no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-124403\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/arara-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/arara-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/arara.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>A\u00a0<strong>arara-azul\u00a0<\/strong>(<em>Anodorhynchus hyacinthinus<\/em>) \u00e9 a maior\u00a0<strong>esp\u00e9cie\u00a0<\/strong>entre as araras. Sua cong\u00eanere, a\u00a0<strong>arara-azul-de-lear<\/strong>\u00a0(<em>Anodorhynchus leari<\/em>) \u00e9 fenotipicamente semelhante, mas um pouco menor. Esses p\u00e1ssaros t\u00eam o bico mais fortes entre os psitac\u00eddeos e s\u00e3o capazes de quebrar facilmente os grandes\u00a0<strong>frutos<\/strong>\u00a0de diferentes\u00a0<strong>palmeiras.<\/strong><\/p>\n<p>Um estudo cient\u00edfico, publicado em janeiro na revista MPDI, revelou o papel que ambas as araras t\u00eam na\u00a0<strong>dispers\u00e3o de sementes\u00a0<\/strong>de 18 esp\u00e9cies de plantas, das quais 98% correspondem a seis esp\u00e9cies de palmeiras grandes. O trabalho de campo consistiu em doze expedi\u00e7\u00f5es realizadas na<strong>\u00a0Caatinga<\/strong>\u00a0e no\u00a0<strong>Cerrado<\/strong>\u00a0e no\u00a0<strong>Pantanal<\/strong>\u00a0do Brasil e da Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>O artigo, assinado por oito pesquisadores de cinco institui\u00e7\u00f5es, registrou um total de 1.722 eventos de dispers\u00e3o. Nesses registros, os frutos foram movimentados pelas araras a uma dist\u00e2ncia vari\u00e1vel de at\u00e9 1.620 metros. Inclusive, ambas as esp\u00e9cies de aves levaram frutos que haviam sido regurgitados anteriormente pelo gado para seus ninhos, registrando um caso incomum de dispers\u00e3o terci\u00e1ria.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisa, esse mutualismo planta-animal tem sido at\u00e9 agora muito inesperado. Diferentemente de outras esp\u00e9cies de araras, que apenas consomem a polpa e descartam as sementes das palmeiras, as\u00a0<em>Anodorhynchus<\/em>\u00a0s\u00e3o capazes de quebrar a dura casca que cobre os frutos de diferentes palmeiras para consumir as sementes que dominam sua dieta.<\/p>\n<p>Antes, essas araras eram consideradas exclusivamente como antagonistas das plantas. No entanto, o estudo afirma que esse papel de aparente predador de sementes pode, em \u00faltima an\u00e1lise, representar uma rela\u00e7\u00e3o mutualista entre as plantas e essas aves. Isso acontece quando \u201cuma propor\u00e7\u00e3o funcionalmente relevante das sementes \u00e9 recrutada com sucesso nos eventos de dispers\u00e3o das araras, como mostramos\u201d, afirma o artigo.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/conexaoplaneta.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/arara-azul-sementes-3-conexao-planeta.jpg\" alt=\"A arara-azul e seu papel-chave na dispers\u00e3o de sementes de 18 esp\u00e9cies de plantas no Brasil \" width=\"638\" height=\"359\" \/><\/figure>\n<\/div>\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Armadilhas fotogr\u00e1ficas do estudo registram araras-azuis colhendo frutos de palmeiras. Foto: Esta\u00e7\u00e3o Biol\u00f3gica Do\u00f1ana, CSIC.<\/em><\/p>\n<h2><strong>Frutos da megafauna<\/strong><\/h2>\n<p>Para obter os resultados, os pesquisadores afirmam que se basearam em observa\u00e7\u00f5es diretas de araras-azuis e araras-azuis-de-leares forrageando e espalhando os frutos, as quais foram complementadas por registros fotogr\u00e1ficos.<\/p>\n<p>Foi assim que conseguiram obter em detalhes as taxas de dispers\u00e3o dos frutos de diferentes esp\u00e9cies de palmeiras, como\u00a0<em>Acrocomia totai<\/em>\u00a0(coco-de-espinho ou maca\u00faba) e\u00a0<em>Attalea phalerata<\/em>\u00a0(ouricuri) no Pantanal boliviano, e\u00a0<em>Attalea barreirensis<\/em>\u00a0(catol\u00e9 ou coco-de-caro\u00e7o-s\u00f3) e\u00a0<em>Attalea eichleri<\/em>\u00a0(baba\u00e7u) no Cerrado.<\/p>\n<p>No caso do Pantanal boliviano, os dados foram obtidos por meio de observa\u00e7\u00f5es diretas realizadas na \u00c1rea Natural de Manejo Integrado de San Mat\u00edas (ANMI), uma das \u00e1reas protegidas do pa\u00eds, que tamb\u00e9m abriga a arara-azul.<\/p>\n<p>J\u00e1 no Cerrado brasileiro foi preciso usar c\u00e2meras infravermelhas, uma vez que as esp\u00e9cies de palmeira\u00a0<em>Attalea barreirensis<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Attalea eichleri<\/em>\u00a0est\u00e3o quase no n\u00edvel do solo, o que dificultava as observa\u00e7\u00f5es de forrageio \u00e0 dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Essas c\u00e2meras foram escondidas pr\u00f3ximas ao ch\u00e3o, a cerca de 3 a 5 metros das palmeiras. Ativadas pelo movimento, elas permitiram a captura de v\u00e1rias imagens instant\u00e2neas (tiradas a cada 5 segundos) das araras pegando e espalhando os frutos.<\/p>\n<p>O artigo tamb\u00e9m discute o papel-chave que ambas as esp\u00e9cies amea\u00e7adas de arara t\u00eam na dispers\u00e3o de sementes grandes, um papel que at\u00e9 agora havia sido amplamente atribu\u00eddo \u00e0 extinta megafauna que habitava a Am\u00e9rica do Sul durante o Pleistoceno.<\/p>\n<p>Segundo Fernando Hiraldo, do Departamento de Biologia da Conserva\u00e7\u00e3o da Esta\u00e7\u00e3o Biol\u00f3gica de Do\u00f1ana (Espanha), e um dos autores da publica\u00e7\u00e3o, este trabalho demonstra claramente que as duas esp\u00e9cies de Anodorhynchus espalham frutos enormes, que s\u00e3o considerados pr\u00f3prios da megafauna.<\/p>\n<p>\u201dE elas fazem isso por grandes dist\u00e2ncias, algo muito importante para a sa\u00fade gen\u00e9tica da planta dispersada\u201d, destaca Hiraldo. \u201c\u00c9 impressionante como conseguem transportar mais de um desses grandes frutos por grandes dist\u00e2ncias, seja na boca ou em suas garras\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o pesquisador aponta que o estudo mostra o sucesso dessa dispers\u00e3o, algo que foi observado nas in\u00fameras germina\u00e7\u00f5es das plantas espalhadas sob \u00e1rvores onde araras-azuis e araras-azuis-de-leares levavam os frutos.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/conexaoplaneta.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/arara-azul-sementes-2-conexao-planeta.jpg\" alt=\"A arara-azul e seu papel-chave na dispers\u00e3o de sementes de 18 esp\u00e9cies de plantas no Brasil \" width=\"640\" height=\"384\" \/><\/figure>\n<\/div>\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Araras-azuis-de-lear na Caatinga. Foto: Steve Brooks (www.wildparrotsupclose.com)<\/em><\/p>\n<p>As descobertas dos cientistas tamb\u00e9m indicam que a diminui\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es dessas araras bem como a redu\u00e7\u00e3o da \u00e1rea de seus habitats poderiam comprometer ainda mais a dispers\u00e3o de grandes palmeiras.<br \/>\nA publica\u00e7\u00e3o enfatiza a necessidade de planos de recupera\u00e7\u00e3o para ambas as esp\u00e9cies, n\u00e3o apenas para alcan\u00e7ar sua conserva\u00e7\u00e3o mas tamb\u00e9m para restaurar suas fun\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas nos ecossistemas amea\u00e7ados em que habitam.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\">\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\"><span class=\"embed-youtube\"><iframe loading=\"lazy\" class=\"youtube-player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hx6oa5fMXnc?version=3&amp;rel=1&amp;fs=1&amp;autohide=2&amp;showsearch=0&amp;showinfo=1&amp;iv_load_policy=1&amp;wmode=transparent\" width=\"800\" height=\"450\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/span><\/div>\n<\/figure>\n<h2><strong>Conserva\u00e7\u00e3o e amea\u00e7as<\/strong><\/h2>\n<p>Jos\u00e9 Antonio D\u00edaz, diretor da Funda\u00e7\u00e3o de Conserva\u00e7\u00e3o Loros Bol\u00edvia (CLB), e um dos autores do artigo, aponta que o \u201cdecl\u00ednio dessas popula\u00e7\u00f5es de araras acabaria afetando o habitat, sua estrutura e capacidade de regenera\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Internacionalmente, a arara-azul e a arara-azul-de-lear s\u00e3o classificadas como Vulner\u00e1vel (VU) e em Perigo de Extin\u00e7\u00e3o (EN), respectivamente, de acordo com a Lista Vermelha da Uni\u00e3o Internacional para a Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza (IUCN). Isso porque n\u00e3o apenas suas popula\u00e7\u00f5es diminu\u00edram drasticamente nas \u00faltimas d\u00e9cadas, mas tamb\u00e9m sua \u00e1rea de distribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No caso da arara-azul, h\u00e1 uma popula\u00e7\u00e3o estimada em 6.500 indiv\u00edduos, restrita \u00e0s regi\u00f5es do Pantanal, Cerrado e Amaz\u00f4nia, com um fluxo gen\u00e9tico provavelmente baixo ou mesmo nulo entre elas.<\/p>\n<p>No caso da arara-azul-de-lear, seu raio de distribui\u00e7\u00e3o potencial sofreu uma diminui\u00e7\u00e3o de 845 mil km\u00b2 na Caatinga para uma popula\u00e7\u00e3o estimada em 1.200 indiv\u00edduos, concentrada em poucos locais de reprodu\u00e7\u00e3o, em um raio de cerca de 50 km.<\/p>\n<p>O estudo tamb\u00e9m indica que o Pantanal e o Cerrado est\u00e3o sofrendo uma r\u00e1pida perda de cobertura vegetal devido ao\u00a0<strong>desmatamento<\/strong>, para dar lugar \u00e0 agricultura e \u00e0 pecu\u00e1ria.<\/p>\n<p>No caso da Caatinga, o bioma foi degradado devido ao excesso de pasto para gado, o que est\u00e1 afetando a regenera\u00e7\u00e3o da palmeira de licuri (<em>S. coronata<\/em>), considerada o principal recurso alimentar da arara-azul-de-lear. Por isso, as a\u00e7\u00f5es de conserva\u00e7\u00e3o dessa arara se concentram na regenera\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o das palmeiras de licuri.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/conexaoplaneta.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/arara-azul-sementes-4-conexao-planeta.jpg\" alt=\"A arara-azul e seu papel-chave na dispers\u00e3o de sementes de 18 esp\u00e9cies de plantas no Brasil \" width=\"640\" height=\"360\" \/><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p><em>Fotos: Eduardo Franco Berton (abertura)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A\u00a0arara-azul\u00a0(Anodorhynchus hyacinthinus) \u00e9 a maior\u00a0esp\u00e9cie\u00a0entre as araras. 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