{"id":12280,"date":"2014-12-15T20:00:43","date_gmt":"2014-12-15T20:00:43","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=12280"},"modified":"2014-12-15T11:33:13","modified_gmt":"2014-12-15T11:33:13","slug":"jornada-da-vida-mostra-origem-dos-brasileiros-ha-13-mil-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/jornada-da-vida-mostra-origem-dos-brasileiros-ha-13-mil-anos\/","title":{"rendered":"\u2018Jornada da Vida\u2019 mostra origem dos brasileiros h\u00e1 13 mil anos"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/origem_brasileiros.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-12281\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/origem_brasileiros-300x191.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"191\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/origem_brasileiros-300x191.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/origem_brasileiros.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>J\u00e1 parou para pensar como era o Brasil 10 mil anos atr\u00e1s? O Fant\u00e1stico vai mostrar como vivia o povo que chegou aqui milhares de anos antes do descobrimento. Esse povo chegou muito antes at\u00e9 do que os \u00edndios. Os rep\u00f3rteres S\u00f4nia Bridi e Paulo Zero visitaram os lugares que contam essa hist\u00f3ria. Uma hist\u00f3ria que tem rosto e tem nome: Luzia, a primeira brasileira.<\/p>\n<p>Cavernas, \u00e1gua e vento mudam essas formas lentamente. Trazem a terra que cobre e preserva milhares de anos de uma hist\u00f3ria aos poucos descoberta. A chegada ao continente americano da esp\u00e9cie que conquistou o planeta: o Homo sapiens.<\/p>\n<p>Como a humanidade chegou at\u00e9 o local, a milhares de quil\u00f4metros de onde a esp\u00e9cie surgiu, na \u00c1frica? Caminhando, sem rumo definido, seguia animais de ca\u00e7a, buscava frutas, ra\u00edzes. Fugia da seca ou do frio. E como n\u00e3o tinha cidades e nem lavouras, uma vez que avan\u00e7ava tamb\u00e9m n\u00e3o tinha motivos para voltar para tr\u00e1s. Assim chegou at\u00e9 a Am\u00e9rica do Sul. A \u00faltima fronteira da humanidade na incr\u00edvel jornada da vida.<\/p>\n<p>A nossa esp\u00e9cie surgiu na Eti\u00f3pia. H\u00e1 dois milh\u00f5es de anos, o Homo erectus j\u00e1 estava deixando a \u00c1frica. F\u00f3sseis desse nosso ancestral foram encontrados na \u00c1sia e em toda a Europa. H\u00e1 80 mil anos o Homo sapiens, a nossa esp\u00e9cie, come\u00e7ou a se espalhar pela \u00c1frica e o resto do planeta. Foram muitas levas de migra\u00e7\u00f5es. Ele ocupou a \u00c1sia, chegou \u00e0 Austr\u00e1lia e Polin\u00e9sia. Na \u00faltima Era do Gelo, \u00c1sia e Am\u00e9rica ainda eram ligadas por terra, o Homo sapiens atravessou o Estreito de Bering e se espalhou pelo continente.<\/p>\n<p>H\u00e1 13 mil anos, j\u00e1 ocupava cavernas em Lagoa Santa, Minas Gerais. Uma das maiores concentra\u00e7\u00f5es de f\u00f3sseis humanos das Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>\u201cA gente realmente est\u00e1 conseguindo ver as crian\u00e7as, os jovens, os adultos, mulheres, homens, e ter uma no\u00e7\u00e3o de como esses grupos se comportavam como uma popula\u00e7\u00e3o\u201d, diz o arque\u00f3logo da UPS Andr\u00e9 Strauss.<\/p>\n<p>Um povo que tinha rituais. A maior prova est\u00e1 nos sepultamentos, revelados sob a poeira milenar.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s temos dois esqueletos, numa sepultura aparentemente dupla, em que h\u00e1 um indiv\u00edduo onde a cabe\u00e7a estaria sob esse bloco de pedra, as costelas. As costas dele fazem essa curva. Aqui estaria a bacia\u201d, mostra um bioantrop\u00f3logo.<\/p>\n<p>Por que eles foram enterrados assim? Uma passagem para a vida ap\u00f3s a morte? Ou uma homenagem dos vivos \u00e0 vida que se foi? A regi\u00e3o est\u00e1 cheia de mensagens deixadas por eles. Cenas de ca\u00e7a, da incr\u00edvel variedade de animais que andava pelo local.<\/p>\n<p>O primeiro a registrar essas mensagens do passado foi um dinamarqu\u00eas, Peter Lund, ainda na primeira metade do s\u00e9culo XIX. Lund fez muitas descobertas reveladoras. A principal, neste lugar: o sumidouro &#8211; onde na \u00e9poca da seca o riacho some para dentro de uma caverna subterr\u00e2nea, que na esta\u00e7\u00e3o das chuvas transborda, formando um lago.<\/p>\n<p>No local, Peter Lund encontrou f\u00f3sseis humanos junto com os de animais da chamada megafauna. Bichos imensos que foram extintos h\u00e1 10 mil anos. Como a pregui\u00e7a gigante, o tigre-dente-de-sabre e o xenorrinot\u00e9rio, um parente do cavalo com nariz estranho.<\/p>\n<p>Um s\u00e9culo e meio depois, nos anos 70, o professor Andr\u00e9 Prous era um jovem pesquisador da miss\u00e3o francesa que veio estudar a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cQuando est\u00e1vamos escavamos na parte de cima, ou seja h\u00e1 menos de 7 mil anos, n\u00f3s encontramos v\u00e1rias pinturas enterradas. Foi o primeiro caso, acho que na Am\u00e9rica Latina, em todo caso no Brasil, que permitiu a gente ter uma comprova\u00e7\u00e3o de que pinturas, aquelas que a gente chama de rupestre, j\u00e1 tinham v\u00e1rios mil\u00eanios de exist\u00eancia\u201d, conta o arque\u00f3logo.<\/p>\n<p>Foram anos seguidos de pesquisa, at\u00e9 juntar as provas de vida humana por l\u00e1 h\u00e1 mais de 10 mil anos. Em uma fenda, eles encontraram ossos humanos espalhados. Primeiro, partes do corpo. No ano seguinte, o cr\u00e2nio.<\/p>\n<p>Confira os bastidores da produ\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Ainda foi preciso um tempo para eles entenderem que pertenciam todos a um mesmo indiv\u00edduo, uma mulher que morreu ou foi enterrada no local h\u00e1 13 mil anos. Essa mulher ficou conhecida como Luzia, a primeira brasileira.<\/p>\n<p>S\u00f3 20 anos depois Luzia ganhou fama. O pesquisador Walter Neves, da USP, estudou o f\u00f3ssil.<\/p>\n<p>\u201cEla faz parte da primeira popula\u00e7\u00e3o humana que entrou no continente americano\u201d, diz o pesquisador.<\/p>\n<p>Analisando o formato do cr\u00e2nio, as cavidades dos olhos, os dentes, Walter viu que Luzia era negroide, muito parecida com os abor\u00edgenes australianos. E muito diferente dos \u00edndios que a gente conhece.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s propusemos, ent\u00e3o, no final dos anos 80, de que a Am\u00e9rica teria sido ocupada por duas popula\u00e7\u00f5es distintas\u201d, diz Walter.<\/p>\n<p>Segundo essa teoria, a popula\u00e7\u00e3o mais antiga, o povo de Luzia, teria atravessado o Estreito de Bering, h\u00e1 14 mil anos. E, pelo Alasca, foi descendo at\u00e9 chegar ao Brasil. H\u00e1 11 mil anos, veio outra leva, a dos ancestrais dos \u00edndios atuais.<\/p>\n<p>A reconstru\u00e7\u00e3o art\u00edstica deu um rosto para os primeiros brasileiros. O v\u00eddeo mostra os tra\u00e7os de Luzia. N\u00e3o sabemos que cor ele tinha ou qual o tipo de cabelo. Mas podemos, com ajuda da computa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica, imaginar.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o rosto. A cada vez que os pesquisadores encontram um f\u00f3ssil, uma ferramenta, restos de fogueiras, \u00e9 como se abrissem uma janela para o passado que nos permite ver e reconstruir a vida que levava o povo de Luzia. Uma vida dura. Poucos passavam dos 35 anos.<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o viviam nestas cavernas. Eram n\u00f4mades. Ca\u00e7avam, colhiam frutas, muitas ra\u00edzes. Nas cavernas eles passavam alguns dias, se abrigavam e seguiam em frente. O povo de Luzia era exatamente igual a n\u00f3s. Tinham as mesmas habilidades, a mesma intelig\u00eancia que n\u00f3s. \u00c9ramos n\u00f3s, antes das cidades, do desenvolvimento, da agricultura. Iguais a n\u00f3s, num mundo muito diferente e perigoso.<\/p>\n<p>O mundo da megafauna, tigres-dente-de-sabre, pregui\u00e7as gigantes.<\/p>\n<p>\u201cComo iam chegar com uma zarabatana, um arquinho igual aos que o meu filho brinca, diante de um mastodonte. Diante de uma pregui\u00e7a gigante que tinha pelo menos 70 cent\u00edmetros de garra. Era o primeiro astronauta brasileiro. O sopapo que ia receber entrava em \u00f3rbita\u201d, afirma o paleont\u00f3logo Castor Cartelle.<\/p>\n<p>\u201cO maior terror do povo de Luzia deveria ser correr de um tigre-dente-de-sabre. Por raz\u00f5es que n\u00f3s n\u00e3o conseguimos explicar, eles n\u00e3o ca\u00e7avam essa megafauna\u201d, diz o pesquisador Walter Neves.<\/p>\n<p>Mas entre as 70 mil pe\u00e7as do Museu de Ci\u00eancias Naturais de Belo Horizonte, o professor Cartelle tem provas de que eles n\u00e3o desperdi\u00e7avam a carne se encontrassem o bicho morto. Um osso de pregui\u00e7a gigante.<\/p>\n<p>\u201cHouve nitidamente o trabalho de arrancar. Aqui esses cortes, neste sentido, a natureza n\u00e3o pode fazer isso\u201d, destaca o professor.<\/p>\n<p>O que aconteceu com o povo de Luzia quando os outros chegaram? Em alguns pontos do Brasil, h\u00e1 ind\u00edcios de que sobreviveu at\u00e9 o s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>\u201cEm alguns locais eles foram completamente substitu\u00eddos, como por exemplo na costa brasileira, voc\u00ea n\u00e3o tem vest\u00edgios dessas popula\u00e7\u00f5es e em algumas regi\u00f5es houve cruzamento entre essas duas levas\u201d, diz o pesquisador Walter Neves.<\/p>\n<p>Mas seriam mesmo esses os primeiros brasileiros?<\/p>\n<p>Serra da Capivara, Piau\u00ed. Regi\u00e3o arqueol\u00f3gica declarada pela Unesco Patrim\u00f4nio da Humanidade. Na paisagem deslumbrante da caatinga, galerias de arte a c\u00e9u aberto, deixadas por povos que viveram no local.<\/p>\n<p>Um registro rico da fauna da regi\u00e3o quando havia uma floresta \u00famida. Cenas de uma sociedade que valorizava a intera\u00e7\u00e3o social. Dan\u00e7as, festas.<\/p>\n<p>Um parto, feito por um xam\u00e3, para falar da vida? Ou por um homem que acabou de descobrir a emo\u00e7\u00e3o de ser pai? Os tracinhos s\u00e3o uma esp\u00e9cie de contabilidade? Um calend\u00e1rio?<\/p>\n<p>\u201cIsso \u00e9 a primeira escrita, eram povos que tinham tradi\u00e7\u00f5es, que tinham cren\u00e7as. N\u00f3s escrevemos tudo que n\u00f3s sentimos. Eles gravavam, ent\u00e3o, dessa maneira. S\u00f3 que tinha um c\u00f3digo e esse c\u00f3digo se perdeu com esses povos\u201d, diz a arque\u00f3loga Ni\u00e9de Guidon<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m conhece este lugar como a pesquisadora Ni\u00e9de Guidon. Os estudos liderados por ela tentam mostrar que a chegada \u00e0s Am\u00e9ricas se deu muito antes do povo de Luzia.<\/p>\n<p>\u201cAs datas s\u00e3o as mais antigas que n\u00f3s temos, s\u00e3o de 90 mil anos, temos data\u00e7\u00f5es de carbono 14 de 58 mil e uma grande quantidade de 30, 20 mil. Tudo indica que vieram da \u00c1frica\u201d, diz a pesquisadora.<\/p>\n<p>A teoria dela \u00e9 de que h\u00e1 mais de 80 mil anos, os primeiros humanos vieram para c\u00e1 direto da \u00c1frica, cruzando o Atl\u00e2ntico, em balsas, empurrados por fortes correntes marinhas.<\/p>\n<p>No bem montado Museu do Homem Americano, em S\u00e3o Raimundo Donato, \u00e9 poss\u00edvel ver os f\u00f3sseis humanos encontrados na regi\u00e3o. Os esqueletos s\u00e3o mais recentes do que o povo de Luzia. Mas as provas de que o homem estava no local h\u00e1 mais de 80 mil anos, s\u00e3o as ferramentas de pedra lascada. A data\u00e7\u00e3o foi feita com base em carv\u00e3o encontrado junto com elas. Mas parte da comunidade cient\u00edfica acha que essas pedras n\u00e3o foram moldadas por humanos.<\/p>\n<p>\u201cEu era ferrenho opositor das pesquisas da Ni\u00e9de l\u00e1 na Serra da Capivara, mas h\u00e1 alguns anos ela me convidou para visit\u00e1-la e eu analisei essas ferramentas. Eu sa\u00ed dessa visita, digamos que 99% convencido de que ela est\u00e1 correta\u201d, diz o pesquisador Walter Neves.<\/p>\n<p>O elo perdido, que vai revelar quando de fato os primeiros brasileiros chegaram, est\u00e1 enterrado em algum ponto do Brasil, esperando para vir \u00e0 luz.<\/p>\n<p>\u201cSe voc\u00ea estudar as popula\u00e7\u00f5es humanas no velho mundo at\u00e9 10 mil anos atr\u00e1s, todas tinham cara de africanos\u201d, diz Walter Neves.<\/p>\n<p>Dez mil anos. Um piscar de olhos na hist\u00f3ria da evolu\u00e7\u00e3o humana. \u00c9ramos todos iguais. Foi o ambiente onde os humanos se estabeleceram que mudou tra\u00e7os, cores. Criou a diversidade humana. Mas n\u00e3o mudou a esp\u00e9cie, que continua \u00fanica, igual.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 parou para pensar como era o Brasil 10 mil anos atr\u00e1s? 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