{"id":122178,"date":"2020-02-19T13:30:32","date_gmt":"2020-02-19T16:30:32","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=122178"},"modified":"2020-02-19T20:30:40","modified_gmt":"2020-02-19T23:30:40","slug":"brasil-ja-sente-impactos-das-mudancas-climaticas-e-situacao-pode-se-agravar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/brasil-ja-sente-impactos-das-mudancas-climaticas-e-situacao-pode-se-agravar\/","title":{"rendered":"Brasil j\u00e1 sente impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e situa\u00e7\u00e3o pode se agravar"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-122179\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/mudanca_climatica-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/mudanca_climatica-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/mudanca_climatica.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Desde o final de janeiro, o Sudeste brasileiro sofre com sucessivas chuvas torrenciais. No estado de S\u00e3o Paulo, as pancadas iniciaram na tarde do \u00faltimo domingo, 9 de fevereiro, e se estenderam pela madrugada. Em um dia, o volume foi suficiente para transbordar os dois principais rios da capital paulista, o Tiet\u00ea e o Pinheiros. Em apenas 24 horas, o volume de chuvas na capital paulista foi de 92,4mm \u2013\u00a0o equivalente a 42,6% dos 216,7mm da m\u00e9dia para fevereiro. At\u00e9 \u00e0s 7 da manh\u00e3 desta ter\u00e7a-feira, j\u00e1 choveu 215,5mm, ou 99,4% do esperado para o m\u00eas. As informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o do Centro de Gerenciamento de Emerg\u00eancias Clim\u00e1ticas (CGE), da Prefeitura de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Ao longo de segunda, o Corpo de Bombeiros recebeu 10.371 liga\u00e7\u00f5es, que resultaram em 2.345 ocorr\u00eancias relacionadas a enchentes, desabamentos, deslizamentos e quedas de \u00e1rvores. A Defesa Civil paulista confirmou sete mortes, 1528 desalojados e 408 desabrigados, em balan\u00e7o divulgado na manh\u00e3 desta ter\u00e7a. J\u00e1 a Companhia de Entrepostos e Armaz\u00e9ns Gerais de S\u00e3o Paulo (Ceagesp), o terceiro maior centro atacadista do mundo, ficou abaixo d\u2019\u00e1gua teve preju\u00edzo estimado em R$ 21 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Em Minas Gerais, mais de 100 cidades ficaram em\u00a0estado de alerta. S\u00f3 na capital Belo Horizonte choveu 935,2 mil\u00edmetros em janeiro, recorde hist\u00f3rico para o m\u00eas segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e mais da metade da m\u00e9dia anual.Os danos socioecon\u00f4micos d\u00e3o o tom da gravidade do ocorrido no estado mineiro: 59\u00a0mortes ligadas \u00e0s tempestades, mais de 45 mil pessoas desalojadas e 8 mil desabrigadas, de acordo com a Defesa Civil estadual.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_885\/public\/fff-7.jpg\" alt=\"O munic\u00edpio de Alfredo Chaves foi um dos mais atingidos pelas tempestades que assolaram o estado ...\" width=\"640\" height=\"358\" \/><figcaption>O munic\u00edpio de Alfredo Chaves foi um dos mais atingidos pelas tempestades que assolaram o estado do Esp\u00edrito Santo no in\u00edcio deste ano. Em todo o estado, dez pessoas morreram, 14.098 ficaram desalojadas e 1.280 desabrigadas, segundo a Defesa Civil.<br \/>\nFOTO DE\u00a0<strong>GOVERNO DO ESP\u00cdRITO SANTO<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>As fortes chuvas, que tamb\u00e9m se instauraram no Esp\u00edrito Santo e no Rio de Janeiro, chamam a aten\u00e7\u00e3o para a variabilidade do ciclo hidrol\u00f3gico \u2013\u00a0um dos reflexos mais preocupantes do aquecimento global no Brasil. Esta mudan\u00e7a \u00e9 representada pela maior frequ\u00eancia de eventos\u00a0clim\u00e1ticos extremos: as estiagens s\u00e3o mais duradouras e intensas, assim como as \u00e9pocas chuvosas.<\/p>\n<p>\u201cNo Brasil, a altera\u00e7\u00e3o do ciclo hidrol\u00f3gico j\u00e1 est\u00e1 acontecendo agora. N\u00e3o \u00e9 uma coisa para 2100\u201d, observa Paulo Nobre, coordenador do Modelo Brasileiro de Sistema Terrestre (BESM), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).O cientista considera uma irresponsabilidade tratar esses fen\u00f4menos extremos, a exemplo das chuvas intensas no Sudeste, como se fossem eventos epis\u00f3dicos que s\u00f3 acontecem uma vez a cada cem anos.<\/p>\n<p>Se as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa e, por consequ\u00eancia, a temperatura m\u00e9dia global continuarem em alta, \u201cas regi\u00f5es Norte e Nordeste e parte do Centro-Oeste sofrer\u00e3o uma redu\u00e7\u00e3o nas chuvas, com per\u00edodos de estiagens predominantemente mais longos, mas talvez sem a compensa\u00e7\u00e3o de chover mais no per\u00edodo chuvoso\u201d, projeta Nobre. \u201cNo Sul e no Sudeste, a tend\u00eancia dos biomas ali representados \u00e9 que tamb\u00e9m ocorram secas mais extremas e duradouras, intercaladas por per\u00edodos muito chuvosos.\u201d<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_885\/public\/capbhchuva.jpg\" alt=\"belo-horizonte-mudancas-clima\" width=\"640\" height=\"349\" \/><figcaption>Rios subterr\u00e2neos na cidade de Belo Horizonte transbordaram, inundando a cidade. As tempestades deste in\u00edcio de ano que atingiram os estado de Minas Gerais deixaram 59 pessoas mortas, 45 mil desalojadas e 8 mil desabrigadas, de acordo com a Defesa Civil.<br \/>\nFOTO DE\u00a0<strong>PREFEITURA DE BELO HORIZONTE<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>Nobre atualmente investiga as mudan\u00e7as mais pr\u00f3ximas que acontecer\u00e3o em decorr\u00eancia da emerg\u00eancia clim\u00e1tica no Brasil. O estudo deve ser publicado no in\u00edcio deste ano. \u201cComo nossos modelos subestimam a taxa de crescimento da varia\u00e7\u00e3o do clima\u201d, avalia o cientista, \u201cse olhar as proje\u00e7\u00f5es para o final do per\u00edodo desse s\u00e9culo, voc\u00ea ter\u00e1 uma aprecia\u00e7\u00e3o mais precisa das varia\u00e7\u00f5es da pr\u00f3xima d\u00e9cada\u201d. As secas sem precedentes na Amaz\u00f4nia em 2005 e 2010, intercaladas por uma grande enchente em 2009, e a estiagem no Sudeste de 2015 e 2016 demonstram \u201ccasos pilotos dessa variabilidade\u201d.<\/p>\n<h3><strong>A resposta \u00e0 emerg\u00eancia clim\u00e1tica<\/strong><\/h3>\n<p>Em novembro de 2020, representantes dos 195 pa\u00edses signat\u00e1rios do Acordo de Paris estar\u00e3o novamente reunidos em Glasgow, no Reino Unido, para a Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas. Entre os objetivos principais COP-26 est\u00e1 a readequa\u00e7\u00e3o das metas nacionalmente determinadas (NDCs).<\/p>\n<p>As a\u00e7\u00f5es precisam ser mais ambiciosas para manter o aumento da temperatura abaixo de 2\u00b0C comparado aos n\u00edveis pr\u00e9-industriais (1850-1900) e, de prefer\u00eancia, limit\u00e1-lo em\u00a01,5\u00b0C. Para isso, o Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC) concluiu, em um relat\u00f3rio especial de 2018, que os governos precisam alcan\u00e7ar neutralidade nas emiss\u00f5es de di\u00f3xido de carbono at\u00e9 2050 e de todos os gases de efeito estufa (GEE) at\u00e9 2070.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_885\/public\/01_climatekids_gettyimages-1130679526.jpg\" alt=\"Jovens manifestantes participam de um evento #YouthStrike4Climate do movimento #SextasPeloFuturo em frente ao Parlamento, em Londres, ...\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/figure>\n<p>O\u00a0Climate Action Tracker (CAT) projeta\u00a0uma eleva\u00e7\u00e3o em2,8\u00b0C at\u00e9 2100 caso todas as metas atuais sejam cumpridas, conforme an\u00e1lise publicada em dezembro de 2019. Contudo, diante das crescentes emiss\u00f5es de GEE, o cons\u00f3rcio estima que o planeta caminha para um aumento de 3,2\u00b0C.<\/p>\n<p>\u201cO custo das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas est\u00e1 se tornando muito alto\u201d, avalia Carlos Rittl, secret\u00e1rio-executivo do\u00a0Observat\u00f3rio do Clima. \u201cEm 2019, o F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial, em Davos, ao elencar os principais riscos globais colocou a aus\u00eancia de a\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, ou a a\u00e7\u00e3o menor do que a necess\u00e1ria, e os eventos extremos, al\u00e9m de outros relacionados, como degrada\u00e7\u00e3o de ecossistemas e quest\u00f5es ligadas a \u00e1gua.\u201d<\/p>\n<p>Rittl considera que a\u00a0press\u00e3o dos ativistas jovens, que movimentam greves semanais pelo clima no mundo inteiro, tem obtido rea\u00e7\u00f5es dos tomadores de decis\u00e3o. Em novembro passado<strong>,<\/strong>\u00a0o Parlamento Europeu declarou a emerg\u00eancia clim\u00e1tica. Noruega, Nova Zel\u00e2ndia e Alemanha adotaram objetivos para zerar suas emiss\u00f5es de GEE at\u00e9 2050 e a \u00c1frica do Sul deve reduzir as suas pela primeira vez.<\/p>\n<p>Quando se trata do enfraquecimento das a\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, o relat\u00f3rio do CAT destaca o Brasil, onde h\u00e1 uma \u201ccont\u00ednua invers\u00e3o das pol\u00edticas ambientais\u201d. O cons\u00f3rcio enfatiza a alta no desmatamento da Amaz\u00f4nia que j\u00e1 se estende por uma d\u00e9cada, diante de altera\u00e7\u00f5es para abrandar leis, cortes de or\u00e7amento e desestrutura\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o e combate ao desmatamento.<\/p>\n<p>Na COP-21 em 2015,O Brasil estabeleceu como compromissos oficiais reduzir as emiss\u00f5es de GEE em 37% comparado aos n\u00edveis de 2005, at\u00e9 2025, e 47% em 2030. Para atingir tais metas, o pa\u00eds comprometeu-se a ampliar para 18% a parcela da bioenergia e 45% de energias renov\u00e1veis em sua matriz energ\u00e9tica at\u00e9 2030, al\u00e9m de restaurar e reflorestar 12 milh\u00f5es de hectares de florestas. Em 2009, o pa\u00eds havia estabelecido como objetivo limitar em 2 bilh\u00f5es de toneladas de GEE e, at\u00e9 este ano, reduzir o desmatamento ilegal na Amaz\u00f4nia para no m\u00e1ximo 3.925 km\u00b2.<\/p>\n<p>\u201cL\u00f3gico que as emiss\u00f5es brasileiras n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas respons\u00e1veis pelos impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no nosso territ\u00f3rio\u201d, continua Rittl. \u201cTodos os pa\u00edses que est\u00e3o fazendo menos do que deveriam contribuem para os impactos sofridos em cada cent\u00edmetro quadrado do planeta. Mas a falta de a\u00e7\u00e3o do Brasil significa que estamos fazendo um furo no mesmo barco no qual est\u00e1 toda a humanidade.\u201d<\/p>\n<p>O Perfil dos Munic\u00edpios Brasileiros, publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) em 2018, chama aten\u00e7\u00e3o aos desastres naturais provocados por quest\u00f5es clim\u00e1ticas. Entre 2013 e 2017, 2.706 munic\u00edpios (48,6%) tiveram secas, 1.726 (31%) alagamentos, 1.515 (27,2%) enxurradas, 1.093 (19,6%) processos erosivos acelerados e 833 (15%) deslizamentos. O instituto constatou ainda que 59% dos munic\u00edpios n\u00e3o possu\u00edam instrumentos de preven\u00e7\u00e3o de desastres e somente 14,7% contavam com plano de conting\u00eancia ou preven\u00e7\u00e3o para a seca.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil \u00e9 bastante vulner\u00e1vel \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Em 2019, a gente teve chuvas muito fortes em Salvador, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, que provocaram mortes. No semi\u00e1rido do Nordeste, muitas regi\u00f5es sa\u00edram da pior seca em d\u00e9cadas\u201d, diz Rittl. \u201cSe a comunidade internacional n\u00e3o for respons\u00e1vel para enfrentar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no sentido de urg\u00eancia e com a responsabilidade que exige, o pre\u00e7o a ser pago vai ser muito pior.\u201d<\/p>\n<h3><strong>O futuro da Amaz\u00f4nia<\/strong><\/h3>\n<p>Os continentes aquecem mais rapidamente do que os oceanos. Se a temperatura m\u00e9dia global chegar a 3\u00b0C, nas plataformas continentais ficar\u00e1 entre 3,5\u00b0C e 4\u00b0C, principalmente nas tropicais como a Am\u00e9rica do Sul. O aumento est\u00e1 em 1,1\u00b0C comparado aos n\u00edveis do per\u00edodo pr\u00e9-industrial (1850-1900), segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial.<\/p>\n<p>Na Amaz\u00f4nia, por sua vez, a crise clim\u00e1tica resultou na eleva\u00e7\u00e3o em 1,5\u00b0C. Em \u00e1reas desmatadas, j\u00e1 supera os 2\u00b0C. \u201cTodas as proje\u00e7\u00f5es mostram o aumento do que chamamos de sazonalidade das chuvas. Elas ficam mais concentradas na esta\u00e7\u00e3o chuvosa. J\u00e1 o per\u00edodo de seca aumenta tanto na Amaz\u00f4nia quanto no Cerrado\u201d, observa o climatologista Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados da Universidade de S\u00e3o Paulo (IEA-USP).<\/p>\n<p>\u00c0s consequ\u00eancias do aquecimento global somam-se os reflexos do desmatamento. Na Amaz\u00f4nia Internacional \u2013 que envolve Brasil (60% do territ\u00f3rio), Peru (13%), Bol\u00edvia, Col\u00f4mbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Suriname e Venezuela\u00a0\u2013,17% da cobertura vegetal natural j\u00e1 foi suprimida. Na por\u00e7\u00e3o brasileira da floresta, o total desmatado gira em torno de 20%.O desmatamento cresceu na Bol\u00edvia, na Col\u00f4mbia e, principalmente, no Brasil. O Prodes, do Inpe, constatou que\u00a09.762 km\u00b2 foram desmatados\u00a0de agosto de 2018 a julho de 2019 \u2013 29,5% a mais em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo anterior.De 1\u00b0 de agosto passado a 14 de fevereiro, o Deter j\u00e1 emitiu alertas de desmate na Amaz\u00f4nia Legal em 4.748,42 km\u00b2.<\/p>\n<p>Esta \u201ccombina\u00e7\u00e3o perversa de aquecimento global e desmatamento\u201d, continua Nobre, resulta em secas mais intensas, duradouras e frequentes. Isso tem acontecido sobretudo no sul da Floresta Amaz\u00f4nica, do Peru ao Par\u00e1. Grande parte das proje\u00e7\u00f5es do IPCC, para cen\u00e1rios de 3,5\u00b0C a 4\u00b0C mais quentes, indica uma sens\u00edvel diminui\u00e7\u00e3o das chuvas no centro-sul e leste da Amaz\u00f4nia e aumento no extremo oeste da floresta, pr\u00f3ximo \u00e0 Cordilheira dos Andes. Nas localidades mais degradadas j\u00e1 s\u00e3o evidentes os reflexos da temperatura elevada.<\/p>\n<p>\u201cNessa regi\u00e3o da Amaz\u00f4nia, a floresta est\u00e1 3\u00b0C mais quente durante a esta\u00e7\u00e3o seca. Essa secura na faixa toda no sul j\u00e1 indica um efeito adicional, onde a esta\u00e7\u00e3o j\u00e1 aumentou de tr\u00eas a quatro semanas, comparando com os anos 1970\u201d, explica Nobre. \u201cEssa \u00e9 a maior preocupa\u00e7\u00e3o que temos: de as partes central e sul da Amaz\u00f4nia se tornarem um cerrado, no processo de savaniza\u00e7\u00e3o que estamos vendo acontecer.\u201d<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 15 anos, a Amaz\u00f4nia viveu tr\u00eas grandes estiagens. Os eventos de 2005 e 2010, relacionados ao clima, foram induzidos pelo acentuado aquecimento do oceano Atl\u00e2ntico ao norte da Linha do Equador. J\u00e1 a de 2015 e 2016 estava associada ao El Ni\u00f1o no Pac\u00edfico Equatorial.<\/p>\n<p>Os repetidos per\u00edodos de seca s\u00e3o, provavelmente, reflexos da crise clim\u00e1tica, analisa Carlos Nobre. Foram intercalados por \u00e9pocas de chuvas intensas e inunda\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas em 2009 e 2012. Entretanto, \u201cas secas muito cont\u00ednuas n\u00e3o d\u00e3o tempo de a floresta se recuperar\u201d, prossegue o cientista. \u201cQuando ocorre uma estiagem, as \u00e1rvores v\u00e3o morrendo por dois, tr\u00eas anos. Se j\u00e1 tem outra logo ap\u00f3s, e outra depois, a floresta perde \u00e1rvores em definitivo. \u00c9 isso que est\u00e1 acontecendo na Amaz\u00f4nia.\u201d<\/p>\n<p>Os estudos de Nobre indicam que, se o desmatamento passar de 20% a 25% na Amaz\u00f4nia como um todo, a floresta pode atravessar um ponto de n\u00e3o retorno. Isto \u00e9, o bioma perder\u00e1 a capacidade de regenerar-se e se transformar\u00e1 em uma savana.<\/p>\n<p>Tal amea\u00e7a, evidentemente,\u00a0impacta a fauna e a flora. A Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Servi\u00e7os Ecossist\u00eamicos (IPBES) calculou, em maio de 2019, que 1 milh\u00e3o de esp\u00e9cies correm risco de extin\u00e7\u00e3o devido \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Na Amaz\u00f4nia habita o maior n\u00famero de esp\u00e9cies do planeta.\u201cDezenas de milhares s\u00e3o end\u00eamicas. Numa savaniza\u00e7\u00e3o estamos falando da perda dessas esp\u00e9cies, pois s\u00e3o pr\u00f3prias de floresta \u00famida, e n\u00e3o de savanas\u201d, alerta Nobre.<\/p>\n<p>Estima-se tamb\u00e9m que, no caso de savaniza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, 200 bilh\u00f5es de toneladas de g\u00e1s carb\u00f4nico seriam liberadas na atmosfera. Isso agravaria a crise clim\u00e1tica, visto que a quantidade equivale a cinco anos de emiss\u00f5es globais.<\/p>\n<p>Nobre ainda destaca o reflexo no clima regional e os desdobramentos na agricultura. \u201cA temperatura no Brasil tropical j\u00e1 \u00e9 pr\u00f3xima dos limites de m\u00e1ximos de produtividade para gr\u00e3os, como soja e milho\u201d, ele explica. \u201cQuando ocorre uma onda de calor na \u00e9poca do enchimento dos gr\u00e3os, associada a menos chuva, as perdas de produ\u00e7\u00e3o podem ser de 20% a 50%. Isso tem acontecido repetidamente tanto no Cerrado quanto em por\u00e7\u00f5es da Amaz\u00f4nia.\u201d<\/p>\n<p>Nas regi\u00f5es do sul do bioma, a soma da eleva\u00e7\u00e3o de temperatura em 3\u00b0C, esta\u00e7\u00e3o seca mais duradoura e degrada\u00e7\u00e3o florestal tornam a floresta mais rarefeita e, portanto, mais suscet\u00edvel ao fogo. Segundo Nobre, aproximadamente 600 mil km\u00b2 do territ\u00f3rio amaz\u00f4nico encontram-se nessa condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cNa floresta densa, s\u00f3 4% da radia\u00e7\u00e3o solar atinge a superf\u00edcie do solo. Ent\u00e3o, \u00e9 muito \u00famido e n\u00e3o tem radia\u00e7\u00e3o suficiente para sec\u00e1-lo\u201d, explica o climatologista. \u201cQuando se aumenta a degrada\u00e7\u00e3o, as \u00e1rvores v\u00e3o sumindo, eleva-se a radia\u00e7\u00e3o e o ch\u00e3o fica mais seco. Em um inc\u00eandio, o material do solo, a serrapilheira, queima e a floresta fica mais vulner\u00e1vel a inc\u00eandios.\u201d<\/p>\n<p>Para combater os impactos no bioma, Nobre acredita que pelo menos metade dos 12 milh\u00f5es de hectares de restaura\u00e7\u00e3o florestal, do Acordo de Paris, deveria se concentrar no sul e no leste da Amaz\u00f4nia. A despeito de n\u00e3o haver sinaliza\u00e7\u00e3o do governo brasileiro em refor\u00e7ar seus compromissos clim\u00e1ticos, o cientista considera que ampliar para 20 milh\u00f5es de hectares de reflorestamento \u201cseria a atitude correta tanto para contribuir para retirar CO2 da atmosfera com o crescimento de \u00e1rvores, como para reduzir o risco de savaniza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<h3><strong>Impactos \u00e0 sa\u00fade humana<\/strong><\/h3>\n<p>O Brasil emitiu\u00a01,93 bilh\u00e3o de toneladas de carbono em 2018, de acordo com o Sistema de Estimativas de Emiss\u00f5es de Gases de Efeito Estufa (SEEG). No levantamento realizado pelo Observat\u00f3rio do Clima, o n\u00famero representa uma leve alta de 0,3% em rela\u00e7\u00e3o a 2017. A tend\u00eancia \u00e9 que as emiss\u00f5es de 2019 sejam maiores, devido ao acelerado desmatamento e queimadas na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a no uso da terra e floresta, como desmatamento, corresponde a 44% do emitido, seguido pela agropecu\u00e1ria (25%), produ\u00e7\u00e3o de energia (21%), res\u00edduos (5%) e processos industriais (5%). Par\u00e1 (13,3%), Mato Grosso (11,7%) e S\u00e3o Paulo (7,6%) s\u00e3o os estados que mais emitem GEE.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da quest\u00e3o ambiental, a polui\u00e7\u00e3o do ar e a emiss\u00e3o de gases de efeito estufa representam um grande problema de sa\u00fade p\u00fablica. \u201cA alta nas emiss\u00f5es das queimadas aumenta as concentra\u00e7\u00f5es de tr\u00eas componentes principais: material particulado,\u00a0<em>black carbon<\/em>\u00a0e precursores de oz\u00f4nio\u201d, explica Paulo Artaxo, professor do Instituto de F\u00edsica da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).\u201cEsses tr\u00eas poluentes atmosf\u00e9ricos, que tamb\u00e9m afetam o aquecimento global, podem ter efeitos danosos na sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o, tanto da regi\u00e3o amaz\u00f4nica quanto de fora.\u201d<\/p>\n<p>Um aumento de 3\u00b0C na temperatura m\u00e9dia global resultaria em uma concentra\u00e7\u00e3o ainda maior de poluentes atmosf\u00e9ricos. \u201cObviamente, isso vai depender do cen\u00e1rio de emiss\u00f5es de agora at\u00e9 2050\u201d, observa Artaxo. \u201cO que a gente espera \u00e9 que a redu\u00e7\u00e3o da polui\u00e7\u00e3o do ar nas grandes cidades, uma demanda da sociedade, possa diminuir as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa a n\u00edvel global. Este co-benef\u00edcio \u00e9 extremamente importante, por ser uma press\u00e3o adicional para a redu\u00e7\u00e3o da queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis.\u201d<\/p>\n<p>Artaxo participou de um estudo, realizado pelo Observat\u00f3rio de Clima e Sa\u00fade da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), queconstatou que moradores de cidades pr\u00f3ximas aos focos de inc\u00eandio na Amaz\u00f4nia em 2019 tinham 36% mais chance de serem internados por problemas respirat\u00f3rios.<\/p>\n<p>Houve 2,5 mil interna\u00e7\u00f5es a mais por m\u00eas, em cerca de 100 munic\u00edpios da Amaz\u00f4nia Legal, sobretudo nos estados do Par\u00e1, Rond\u00f4nia, Maranh\u00e3o e Mato Grosso, em maio e junho de 2019. Nas regi\u00f5es mais impactadas pelo fogo, o n\u00famero de crian\u00e7as internadas dobrou. A\u00a0mortalidade infantil associada a problemas respirat\u00f3rios\u00a0tamb\u00e9m se agravou. Em Rond\u00f4nia, por exemplo, ocorreram 2.398 mortes a cada 100 mil crian\u00e7as no primeiro semestre de 2019. Foram 1.427 no mesmo per\u00edodo de 2018.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade aponta que o n\u00famero de mortes associadas \u00e0 polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica subiu 14% em uma d\u00e9cada \u2013\u00a0de 38.782 pessoas em 2006 para 44.228 em 2016. O estudo levou em conta doen\u00e7as cr\u00f4nicas n\u00e3o transmiss\u00edveis, card\u00edacas e pulmonares, assim como c\u00e2nceres de pulm\u00e3o, traqueia e br\u00f4nquios.A pasta estima que as interna\u00e7\u00f5es por problemas respirat\u00f3rios custaram R$ 14 bilh\u00f5es ao Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) entre 2008 e 2019.<\/p>\n<p>Os desdobramentos na sa\u00fade p\u00fablica n\u00e3o se limitam \u00e0 polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica. O relat\u00f3rio\u00a0Lancet Countdown, de 2018, constatou que pequenas mudan\u00e7as no regime de chuvas e na temperatura refor\u00e7am o poder de dissemina\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as por vetores e pela \u00e1gua. A capacidade de transmiss\u00e3o do v\u00edrus da dengue atingiu alta recorde em 2016 \u2013 9,1% a mais pelo\u00a0<em>Aedes aegypti\u00a0<\/em>e 11,1% pelo<em>\u00a0Aedes albopictus<\/em>. As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tamb\u00e9m refletiram na maior recorr\u00eancia de surtos de c\u00f3lera e mal\u00e1ria. O estudo teve participa\u00e7\u00e3o de 27 institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas de todos os continentes, entre elas a Fiocruz. O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade estima que haver\u00e1 surto de dengue em 11 estados brasileiros em 2020.<\/p>\n<p>As ondas de calor representam outra grande preocupa\u00e7\u00e3o. As regi\u00f5es tropicais e subtropicais s\u00e3o mais sens\u00edveis a este impacto, j\u00e1 que normalmente possuem temperaturas mais altas. \u201cEm uma cidade como Paris, onde a m\u00e9dia no ver\u00e3o \u00e9 de 25\u00b0C, uma onda de calor a aumenta por 7 ou 8\u00b0C. O impacto \u00e9 menor do que, por exemplo, em Cuiab\u00e1, no Mato Grosso, onde j\u00e1 \u00e9 normal fazer 40\u00b0C no ver\u00e3o. Se ocorrer, atingir\u00e1 47 ou 48\u00b0C\u201d, compara Artaxo.<\/p>\n<p>Tanto as ondas de calor quanto as de frio est\u00e3o associadas \u00e0 amplifica\u00e7\u00e3o do ciclo hidrol\u00f3gico, observa Paulo Nobre, o pesquisador do Inpe. \u201cEm per\u00edodo de seca, h\u00e1 menos \u00e1gua no ch\u00e3o para evaporar, ent\u00e3o a sensa\u00e7\u00e3o de calor \u00e9 maior. Com o aumento da temperatura global, teremos um agravamento nas condi\u00e7\u00f5es em per\u00edodos de falta d\u2019\u00e1gua e calor extremo. Isso tem um rebatimento tremendo na sa\u00fade humana.\u201d<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial (OMM) confirmou 2019 como o desfecho da\u00a0d\u00e9cada mais quente desde os anos 1850. Segundo a OMM, o\u00a0ano passado foi o segundo mais quente\u00a0da s\u00e9rie hist\u00f3rica, atr\u00e1s apenas de 2016. Duas ondas de calor atingiram a Europa no \u00faltimo ver\u00e3o, com recordes de temperatura na Fran\u00e7a, Alemanha, Holanda, B\u00e9lgica, Luxemburgo e Reino Unido. S\u00f3 na Fran\u00e7a, 1500 pessoas morreram por conta do calor, principalmente crian\u00e7as e idosos.<\/p>\n<p>Em parceria com a Fiocruz, o Inpe realiza um estudo sobre a vulnerabilidade t\u00e9rmica no Brasil. Segundo Nobre, os pesquisadores quantificar\u00e3o o efeito t\u00e9rmico da presen\u00e7a da Amaz\u00f4nia na ocorr\u00eancia de extremos de temperatura no pa\u00eds inteiro. \u201cNossos resultados preliminares indicam que a exist\u00eancia da Floresta Amaz\u00f4nica e os servi\u00e7os ambientais que ela carrega, como a condu\u00e7\u00e3o de umidade para o interior do continente, funcionam como um fator estabilizante para o clima.\u201d<\/p>\n<p>Diante deste cen\u00e1rio, Nobre considera urgente que as cidades aumentem sua cobertura vegetal. \u201cO\u00a0\u00f3leo que chegou na costa do Nordeste\u00a0\u00e9 uma crise expl\u00edcita \u2013 afetou a vida, poluiu, acabou com a pesca. J\u00e1 a onda de calor \u00e9 uma crise silenciosa, porque se mistura com a varia\u00e7\u00e3o do inverno e do ver\u00e3o e n\u00f3s nos esquecemos de que no passado n\u00e3o era assim.\u201d<\/p>\n<h3><strong>Vulnerabilidade litor\u00e2nea<\/strong><\/h3>\n<p>Migra\u00e7\u00f5es motivadas por quest\u00f5es clim\u00e1ticas j\u00e1 s\u00e3o uma realidade no mundo. Em 2018, o\u00a0Centro de Monitoramento de Deslocados Internos (Idmc) registrou 17,2 milh\u00f5es de migra\u00e7\u00f5es\u00a0por desastres naturais em 148 pa\u00edses. J\u00e1 o Banco Mundial estima que 143 milh\u00f5es de pessoas de pa\u00edses da \u00c1frica Subsaariana, sul asi\u00e1tico e Am\u00e9rica Latina se tornar\u00e3o deslocados internos devido \u00e0 improdutividade agr\u00edcola, escassez de \u00e1gua e eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar.<\/p>\n<p>\u201cA falta de condi\u00e7\u00f5es de vida adequada em cidades, como no interior do Nordeste, em regi\u00f5es semi\u00e1ridas que podem se tornar \u00e1ridas, pode levar a fluxos migrat\u00f3rios para as capitais de seus estados, ou para outras regi\u00f5es como parte da Amaz\u00f4nia e para o Sul e Sudeste do Brasil\u201d, analisa Carlos Rittl, do Observat\u00f3rio do Clima. \u201cIsso deve impactar em custos como o do sistema de sa\u00fade das cidades. E boa parte dessa popula\u00e7\u00e3o talvez n\u00e3o encontre outra solu\u00e7\u00e3o al\u00e9m de se estabelecer em \u00e1reas muito vulner\u00e1veis aos impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.\u201d<\/p>\n<p>No litoral brasileiro vivem 26,6% dos brasileiros ao longo dos 7.367 km de costa, segundo o Censo 2010 do IBGE.\u00a0<strong>\u201c<\/strong>Nas proje\u00e7\u00f5es de eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar, em boa parte das capitais brasileiras, sendo cidades litor\u00e2neas, as consequ\u00eancias ser\u00e3o muito severas para a infraestrutura costeira e o sistema de esgotamento sanit\u00e1rio\u201d, analisa Rittl.<\/p>\n<p>Em novembro de 2019, Recife tornou-se a primeira cidade brasileira a reconhecer a emerg\u00eancia clim\u00e1tica.\u00a0Em decreto, a capital pernambucana se comprometeu a zerar suas emiss\u00f5es de carbono at\u00e9 2050 e estabeleceu como pontos de vulnerabilidade \u201cinunda\u00e7\u00f5es, deslizamentos, doen\u00e7as transmiss\u00edveis, ondas de calor, seca meteorol\u00f3gica e eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar\u201d.<\/p>\n<p>Os oceanos funcionam como reguladores de temperatura. Al\u00e9m de absorverem boa parte do carbono, distribuem calor por meio das massas d\u2019\u00e1gua e ajudam a equilibrar, junto \u00e0 atmosfera, o clima do planeta. Contudo, a emiss\u00e3o de gases de efeito estufa tem provocado altera\u00e7\u00f5es na temperatura dos oceanos, observa Eduardo Siegle, professor do Instituto Oceanogr\u00e1fico da USP e pesquisador dos impactos costeiros da crise clim\u00e1tica.O aumento do n\u00edvel do mar est\u00e1 relacionado \u00e0 expans\u00e3o t\u00e9rmica dos oceanos, assim como ao derretimento das geleiras e calotas na Ant\u00e1rtica, no \u00c1rtico e na Groenl\u00e2ndia.<\/p>\n<p>\u201cAs previs\u00f5es do IPCC apontam para aumento de 0,4 a 1 metro de eleva\u00e7\u00e3o at\u00e9 o final do s\u00e9culo. Mas as estimativas de estudos que incluem o derretimento de calotas e geleiras, publicadas em revistas de renome, j\u00e1 projetam 2 metros at\u00e9 2100\u201d, pondera Siegle. No \u00faltimo s\u00e9culo, o n\u00edvel do mar subiu, em m\u00e9dia, 20 cent\u00edmetros.<\/p>\n<p>Siegle observa que, em fun\u00e7\u00e3o do que j\u00e1 foi alterado no planeta at\u00e9 hoje, as consequ\u00eancias nos oceanos e eventos extremos relacionados durar\u00e3o por d\u00e9cadas, sen\u00e3o s\u00e9culos. \u201cO n\u00edvel do mar, por exemplo, continuar\u00e1 a subir mesmo se as emiss\u00f5es parassem completamente hoje. E, claro, isso n\u00e3o est\u00e1 acontecendo.\u201d<\/p>\n<p>De 2009 a 2013, Siegle pesquisou sobre a\u00a0vulnerabilidade costeira de S\u00e3o Paulo e Pernambuco. Em cada estado, o cientista estudou os impactos em praias muito urbanizadas \u2013\u00a0Massagua\u00e7u (SP) e Paiva (PE) \u2013 e em outras pouco habitadas \u2013\u00a0Ilha Comprida (SP) e Piedade (PE).<\/p>\n<p>Com a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar, espera-se que haja retra\u00e7\u00e3o da linha de costa. Se n\u00e3o houver ocupa\u00e7\u00e3o urbana, a eros\u00e3o ocorre sem grandes impactos socioecon\u00f4micos e o litoral se adapta a um novo perfil da praia. J\u00e1 nas regi\u00f5es urbanizadas o processo de retra\u00e7\u00e3o encontra barreiras que agravam os impactos.<\/p>\n<p>\u201cGrande parte do litoral brasileiro tem \u00e1reas em que j\u00e1 ocorrem problemas erosivos, onde foram constru\u00eddos muros, espig\u00f5es, para tentar segurar sedimentos na regi\u00e3o\u201d, observa Siegle. \u201cEssas regi\u00f5es s\u00e3o mais vulner\u00e1veis \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar. O perfil natural da praia, com manguezal ou recife, ajuda a proteger a costa de eventos extremos.\u201d<\/p>\n<p>Os recifes de corais, presentes principalmente ao longo da costa do Nordeste, servem para atenuar a energia da onda em ambientes tropicais, continua o ocean\u00f3logo. Um dos reflexos das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa consiste na acidifica\u00e7\u00e3o dos oceanos. Em regi\u00f5es oce\u00e2nicas saud\u00e1veis, os corais podem crescer e acompanhar a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar. Contudo, os corais podem morrer em \u00e1guas mais quentes e acidificadas, no fen\u00f4meno conhecido como branqueamento.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da acidifica\u00e7\u00e3o, trag\u00e9dias externas colaboram para prejudicar a sa\u00fade dos corais. \u00c9 o caso de Abrolhos, onde um estudo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro identificou que a pluma de\u00a0sedimentos da lama da barragem da Samarco, em Mariana (MG), contaminou os corais do arquip\u00e9lago baiano. Outro exemplo \u00e9 o vazamento de petr\u00f3leo cru que j\u00e1 atingiu 2 mil quil\u00f4metros em praias do Nordeste e do Sudeste desde agosto de 2019.<\/p>\n<p>Em uma\u00a0pesquisa na regi\u00e3o da Bahia, Siegle realizou proje\u00e7\u00f5es do n\u00edvel do mar em praias como Caravelas, Porto Seguro e Corumbau. Ele analisou a altera\u00e7\u00e3o na for\u00e7a das ondas quando chegam as praias, caso passem por cima dos recifes de coral com menor atenua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO impacto ser\u00e1 muito grande em \u00e1reas tropicais do mundo inteiro, porque perder\u00e3o a prote\u00e7\u00e3o e aumentar\u00e1 a for\u00e7a das ondas que chegam nessas regi\u00f5es, ainda mais do que em praias onde n\u00e3o h\u00e1 recifes\u201d, explica Siegle. \u201cQuando tem uma tempestade, o mar alcan\u00e7a um n\u00edvel maior e cada vez mais ter\u00e1 essa tend\u00eancia de inunda\u00e7\u00f5es mais fortes, frequentes e intensas.\u201d<\/p>\n<p>Em 2019, um furac\u00e3o devastou duas ilhas das Bahamas, no Caribe, dois ciclones seguidos provocaram destrui\u00e7\u00e3o em Mo\u00e7ambique, no sul da \u00c1frica, e um tuf\u00e3o deixou dezenas de mortos no Jap\u00e3o. Eventos extremos como esses s\u00e3o mais constantes e devastadores com o aquecimento global. Isso ocorre porque, quanto mais quente fica a \u00e1gua, maior a troca de calor com a atmosfera, resume Siegle.<\/p>\n<p>Para o ocean\u00f3logo, h\u00e1 pouco planejamento dos munic\u00edpios, estados e governo federal em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as impostas pelo clima no Brasil. Na vis\u00e3o dele, em vez do tratamento como quest\u00e3o de Estado, as pol\u00edticas dependem da boa vontade dos governantes que assumem os postos. Faltam, por exemplo, mar\u00e9grafos instalados em toda a costa para monitorar as altera\u00e7\u00f5es do n\u00edvel do mar e obter s\u00e9ries temporais mais longas no Brasil.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma quest\u00e3o global, mas a resposta \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o costeira precisa ser federal. \u00c1reas ter\u00e3o que ser recuadas, outras perder\u00e3o terreno, algumas acabar\u00e3o protegidas. Tem que planejar de acordo com a situa\u00e7\u00e3o, e h\u00e1 muito pouco feito\u201d, avalia Siegle. \u201cA m\u00e1 ocupa\u00e7\u00e3o costeira \u00e9 um aspecto bastante grave nessa quest\u00e3o, porque os problemas ser\u00e3o exacerbados com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde o final de janeiro, o Sudeste brasileiro sofre com sucessivas chuvas torrenciais. 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