{"id":121402,"date":"2020-02-07T10:00:41","date_gmt":"2020-02-07T13:00:41","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=121402"},"modified":"2020-02-06T21:22:13","modified_gmt":"2020-02-07T00:22:13","slug":"maior-estudo-genetico-ja-feito-sobre-o-cancer-abre-a-possibilidade-de-detecta-lo-antes-do-seu-surgimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/maior-estudo-genetico-ja-feito-sobre-o-cancer-abre-a-possibilidade-de-detecta-lo-antes-do-seu-surgimento\/","title":{"rendered":"Maior estudo gen\u00e9tico j\u00e1 feito sobre o c\u00e2ncer abre a possibilidade de detect\u00e1-lo antes do seu surgimento"},"content":{"rendered":"<p class=\"\"><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/cancer.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-121403\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/cancer.jpg\" alt=\"\" width=\"415\" height=\"265\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/cancer.jpg 415w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/cancer-300x192.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 415px) 100vw, 415px\" \/><\/a>O\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/cancer\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">c\u00e2ncer<\/a>\u00a0\u00e9 o pre\u00e7o que pagamos por estarmos vivos. Uma em cada tr\u00eas pessoas que leem estas linhas sofrer\u00e1 dessa doen\u00e7a ao longo da vida. A enfermidade segue as leis da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/12\/17\/ciencia\/1450308758_163091.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">evolu\u00e7\u00e3o darwiniana<\/a>\u00a0e \u00e9 uma consequ\u00eancia dela. O mesmo processo cego e irracional que governa a divis\u00e3o de nossas c\u00e9lulas e que permitiu que a Terra fosse um planeta repleto de vida cont\u00e9m vulnerabilidades e erros de programa\u00e7\u00e3o que \u00e0s vezes o aniquilam. Isso \u00e9 o c\u00e2ncer.<\/p>\n<p class=\"\">Saem nesta quarta-feira os resultados do projeto Pan-C\u00e2ncer, que analisou o genoma completo de mais de 2.600 pessoas que sofreram 38 tipos diferentes de tumores. \u00c9 o retrato mais detalhado j\u00e1 obtido de como e por que cada tipo de tumor surge no n\u00edvel molecular, apontando o caminho para novos tratamentos e m\u00e9todos de diagn\u00f3stico precoce.<\/p>\n<p class=\"\">As dimens\u00f5es e a complexidade do projeto s\u00e3o dif\u00edceis de imaginar. Uma pessoa \u00e9 um conjunto de 30 trilh\u00f5es de c\u00e9lulas. Cada vez que uma deles se divide para gerar uma filha, precisa copiar o genoma completo, composto por tr\u00eas bilh\u00f5es de letras perfeitamente arranjadas e combinadas, o A com o T e o C com o G, e esse \u00e9 o seu livro de instru\u00e7\u00f5es para a vida. Nesse processo, erros de c\u00f3pia totalmente casuais s\u00e3o cometidos \u2014as muta\u00e7\u00f5es\u2014. Um ser humano pode acumular milh\u00f5es dessas erratas, a grande maioria inofensiva, mas uma pequena fra\u00e7\u00e3o delas pode desencadear o c\u00e2ncer. Identificar um e outro \u00e9 essencial para entender melhor a doen\u00e7a e projetar novos tratamentos contra ela.<\/p>\n<blockquote class=\"quote quote_block | font_secondary border border_1 border_solid border_gray_dark border-box pull_left\">\n<div>Mais de um trilh\u00e3o de letras de DNA foram lidas, um n\u00famero maior que o de gal\u00e1xias no universo<\/div>\n<\/blockquote>\n<p class=\"\">O estudo colocou lado a lado o genoma completo do paciente, o de seu c\u00e2ncer e o genoma humano de refer\u00eancia, e os leu 30 vezes, letra por letra, para conhecer todas as muta\u00e7\u00f5es que diferenciam a c\u00e9lula cancerosa da saud\u00e1vel. No total, mais de um trilh\u00e3o de letras de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/adn\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">DNA<\/a>\u00a0foram lidas, um n\u00famero maior que o n\u00famero de gal\u00e1xias no universo e o de estrelas em toda a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/via_lactea\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Via L\u00e1ctea<\/a>. A obten\u00e7\u00e3o e a compreens\u00e3o dessa imensid\u00e3o exigiram o esfor\u00e7o de 1.300 cientistas de 37 pa\u00edses e o uso de 13 supercomputadores e centros de an\u00e1lise por cerca de 10 milh\u00f5es de horas; mais de 1.100 anos de computa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"\">A principal conclus\u00e3o do trabalho \u00e9 que o genoma do c\u00e2ncer \u00e9 finito e pode ser conhecido. Pela primeira vez na hist\u00f3ria, foi poss\u00edvel identificar todas as altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas que produzem um tumor espec\u00edfico e at\u00e9 classific\u00e1-las cronologicamente para conhecer sua biografia. Esse tipo de an\u00e1lise permitiu observar dezenas de milhares de muta\u00e7\u00f5es acumuladas nas c\u00e9lulas tumorais e identificou entre elas todas as que causam o tumor.<\/p>\n<p class=\"\">Em geral, pelo menos uma muta\u00e7\u00e3o causal foi identificada em 95% dos casos analisados. Em m\u00e9dia, o c\u00e2ncer precisa de cinco muta\u00e7\u00f5es causais para aparecer, embora varie bastante, dependendo do tipo de tumor. Cada um deles &#8220;pode ser um alvo poss\u00edvel para o desenvolvimento de novos medicamentos&#8221;, disse Peter Campbell, membro do comit\u00ea diretor do projeto.<\/p>\n<p class=\"\">\u201cO mais surpreendente \u00e9 a diferen\u00e7a entre o genoma do c\u00e2ncer de uma pessoa e o de outro\u201d, diz ele. \u201cExistem milhares de combina\u00e7\u00f5es de diferentes muta\u00e7\u00f5es que produzem a doen\u00e7a, e mais de 80 processos que causam essas muta\u00e7\u00f5es; alguns s\u00e3o devidos a causas heredit\u00e1rias, outros ao estilo de vida [<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/tabaquismo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">tabagismo<\/a>, bebida, dieta inadequada, exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 luz solar] e outros s\u00e3o causados por desgaste simples [acaso e idade]. O mais interessante desse projeto \u00e9 que ele nos permite come\u00e7ar a identificar padr\u00f5es recorrentes entre toda essa enorme complexidade\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p class=\"\">O ac\u00famulo dessas poucas muta\u00e7\u00f5es causais permite que o c\u00e2ncer cres\u00e7a e evolua mais rapidamente que as c\u00e9lulas saud\u00e1veis, e \u00e9 um processo que pode levar quase uma vida inteira. Embora dependa do tipo de tumor, o estudo mostra que alguns aparecem anos ou d\u00e9cadas antes do diagn\u00f3stico dessa condi\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. H\u00e1 casos em que o primeiro acontece durante a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/infancia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">inf\u00e2ncia<\/a>, destaca Campbell.<\/p>\n<blockquote class=\"quote quote_block | font_secondary border border_1 border_solid border_gray_dark border-box pull_right\">\n<div>O c\u00e2ncer precisa de cinco muta\u00e7\u00f5es causais para aparecer<\/div>\n<\/blockquote>\n<p class=\"\">Os resultados do trabalho n\u00e3o melhorar\u00e3o o tratamento do c\u00e2ncer em curto prazo, mas o conhecimento que eles fornecem \u00e9 essencial para a medicina de precis\u00e3o, na qual pacientes com c\u00e2ncer podem receber um tratamento ou outro, dependendo de seu perfil gen\u00e9tico, argumentam os respons\u00e1veis pelo projeto.<\/p>\n<p class=\"\">Ser capaz de identificar uma ou v\u00e1rias muta\u00e7\u00f5es causadoras do c\u00e2ncer com anos ou d\u00e9cadas de anteced\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao diagn\u00f3stico do tumor \u00e9 algo que abre uma grande margem para melhorias, observa Peter Van Loo, pesquisador do Instituto Francis Crick e coautor de um dos estudos do cons\u00f3rcio, publicado na\u00a0<i>Nature<\/i>\u00a0e em outras revistas cient\u00edficas. \u201cOs tumores com frequ\u00eancia secretam DNA na corrente sangu\u00ednea, e isso pode nos ajudar a desenvolver novos m\u00e9todos de diagn\u00f3stico precoce\u201d, diz Van Loo. \u201cNum futuro ainda distante, quase de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/ciencia_ficcion\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/a>, poderiam ser desenvolvidos tratamentos profil\u00e1ticos que simplesmente eliminam as c\u00e9lulas nas quais j\u00e1 vemos muta\u00e7\u00f5es causais do c\u00e2ncer\u201d, acrescenta.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\"><img loading=\"lazy\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/kxLDeInSMMpDgxMr_dqnoVuNFtw=\/1500x0\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/GMZUQCWVXUNN7CW4MNWEZH2EDI.jpg\" alt=\"Pesquisadores do Centro de Regula\u00e7\u00e3o Gen\u00f4mica, uma das institui\u00e7\u00f5es que participaram do estudo, analisam os resultados de um sequenciador de DNA de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o. \" width=\"640\" height=\"426\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Pesquisadores do Centro de Regula\u00e7\u00e3o Gen\u00f4mica, uma das institui\u00e7\u00f5es que participaram do estudo, analisam os resultados de um sequenciador de DNA de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o.\u00a0<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">OMAR JAMSHED<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">Em 5% dos pacientes n\u00e3o foi encontrada muta\u00e7\u00e3o causal, o que indica que o cat\u00e1logo de erros gen\u00e9ticos que causam c\u00e2ncer em todas as suas formas poss\u00edveis n\u00e3o est\u00e1 completo, e outros casos devem ser analisados.<\/p>\n<p class=\"\">Este projeto n\u00e3o se debru\u00e7ou somente sobre a parte do genoma que codifica as prote\u00ednas, as mol\u00e9culas que executam a maioria dos processos vitais no n\u00edvel celular e que representam apenas 2% do total, mas tamb\u00e9m sobre os 98% restantes. Os resultados mostram que existem poucas muta\u00e7\u00f5es causais ocultas fora desses 2%. &#8220;Isso confirma que nosso conhecimento das muta\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis pelo c\u00e2ncer \u00e9 mais completo do que muitos teriam previsto&#8221;, o que \u00e9 uma boa not\u00edcia, segundo o pesquisador \u00cd\u00f1igo Martincorena, do Instituto Sanger (Reino Unido) e coautor de outros trabalhos. Esses estudos cient\u00edficos ter\u00e3o impacto no tratamento no futuro, destaca ele. \u201cVoc\u00ea pode comparar a gen\u00f4mica com a inven\u00e7\u00e3o do microsc\u00f3pio. Por si s\u00f3, n\u00e3o \u00e9 capaz de curar um c\u00e2ncer, mas hoje em dia n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conceber o diagn\u00f3stico e o tratamento da doen\u00e7a em hospitais sem ela. Como o c\u00e2ncer \u00e9 o produto de muta\u00e7\u00f5es, a gen\u00f4mica est\u00e1 tendo e, acima de tudo ter\u00e1, um papel transformador \u201d, acrescenta o pesquisador.<\/p>\n<p class=\"\">A equipe de Jos\u00e9 Tub\u00edo, da Universidade de Santiago de Compostela (Espanha), encontrou um dos poucos e interessantes culpados de c\u00e2ncer que se escondem nesses 98% de genoma obscuro. Seu estudo se concentrou em pacotes de DNA cujo \u00fanico objetivo na vida \u00e9 produzir c\u00f3pias de si mesmos que saltam de um lugar para outro no genoma. Eles s\u00e3o chamados de retrotransposons, e acredita-se que estejam relacionados aos retrov\u00edrus, a grande fam\u00edlia de agentes patog\u00eanicos aos quais pertence o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/sida\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">v\u00edrus da AIDS<\/a>. A diferen\u00e7a \u00e9 que esses elementos est\u00e3o inclu\u00eddos no genoma e n\u00e3o podem infectar novas c\u00e9lulas, apenas se copiam repetidamente sempre que h\u00e1 uma divis\u00e3o celular. Elementos desse tipo comp\u00f5em mais de 40% de todo o nosso genoma, sem quase nenhuma fun\u00e7\u00e3o ben\u00e9fica conhecida, explica Tub\u00edo.<\/p>\n<blockquote class=\"quote quote_block | font_secondary border border_1 border_solid border_gray_dark border-box pull_left\">\n<div>\u201cNosso conhecimento das muta\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis pelo c\u00e2ncer \u00e9 mais completo do que muitos teriam previsto\u201d<\/div>\n<\/blockquote>\n<p class=\"\">Sua equipe identificou 120 retrotransposons relacionados ao c\u00e2ncer e observou os 16 mais perigosos, que aumentam os tumores de alta incid\u00eancia, como de pulm\u00e3o e c\u00f3lon, bem como os do es\u00f4fago e da boca. \u201cNosso genoma possui um freio natural para impedir a replica\u00e7\u00e3o desses elementos transpon\u00edveis, conhecidos como metila\u00e7\u00e3o. Sabe-se que quando um tumor aparece, a metila\u00e7\u00e3o muda e isso desencadeia esses elementos \u201d, afirma.<\/p>\n<p class=\"\">De acordo com os resultados mais recentes, dois ter\u00e7os de todos os tumores s\u00e3o devidos ao acaso. O outro ter\u00e7o \u00e9 explicado por muta\u00e7\u00f5es herdadas dos pais e por fatores externos e evit\u00e1veis, como estilo de vida, conforme ilustrado pelo trabalho de Tub\u00edo. Um dos fatores que mais destroem a metila\u00e7\u00e3o do DNA e favorecem a replica\u00e7\u00e3o desses fragmentos perigosos do genoma \u00e9 a fuma\u00e7a do tabaco. O \u00e1lcool tamb\u00e9m afeta e, curiosamente, todos os tumores causados por esses fragmentos de genoma transpon\u00edveis s\u00e3o do sistema digestivo. &#8220;Nossa equipe j\u00e1 tem quase um m\u00e9todo de diagn\u00f3stico para detectar esse tipo de muta\u00e7\u00e3o, e estamos explorando como interromper sua expans\u00e3o, que pode advir do uso de antirretrovirais j\u00e1 projetados contra retrov\u00edrus&#8221;, explica Tubio.<\/p>\n<p class=\"\">O outro grande mecanismo de c\u00e2ncer escondido no genoma obscuro s\u00e3o as muta\u00e7\u00f5es no gene da telomerase TERT e outras regi\u00f5es gen\u00e9ticas relacionadas aos tel\u00f4meros, que controlam a capacidade da c\u00e9lula de se dividir e gerar filhas. Muta\u00e7\u00f5es nesse gene permitem que as c\u00e9lulas cancer\u00edgenas se multipliquem muito mais rapidamente que as saud\u00e1veis, sem freios. Nesse caso, observa-se como o c\u00e2ncer \u00e9 refinado em n\u00edvel evolutivo, uma vez que muta\u00e7\u00f5es que afetam esse mecanismo s\u00e3o mais frequentes em tecidos de crescimento lento, onde \u00e9 mais dif\u00edcil que o c\u00e2ncer se prolifere.<\/p>\n<p class=\"\">A pr\u00f3pria abrang\u00eancia do estudo tamb\u00e9m causa preocupa\u00e7\u00f5es. &#8220;Em 2025, o genoma de mais de 60 milh\u00f5es de pessoas ter\u00e1 sido sequenciado nos centros hospitalares&#8221;, comenta outro dos trabalhos publicados nesta quarta, propondo a cria\u00e7\u00e3o de regulamentos internacionais que garantam a maior acessibilidade poss\u00edvel aos dados e ao mesmo tempo protejam privacidade dos pacientes, uma vez que o estudo Pan-C\u00e2ncer foi realizado em grande parte na nuvem, para facilitar o acesso a dados de diferentes pa\u00edses. Estudos anteriores com bancos de dados gen\u00e9ticos mostraram que pode ser poss\u00edvel identificar os pacientes. Sem vigil\u00e2ncia, o sonho de um futuro com bancos de dados de milhares ou milh\u00f5es de pacientes que ajudem a procurar novos tratamentos contra o c\u00e2ncer pode se tornar uma distopia na qual os planos de sa\u00fade saber\u00e3o quem j\u00e1 tem uma ou v\u00e1rias muta\u00e7\u00f5es causais preditivas de tumores.<\/p>\n<p class=\"\">O projeto Pan-C\u00e2ncer tamb\u00e9m confirma o potencial da intelig\u00eancia artificial. Um dos trabalhos mostra que um algoritmo \u00e9 capaz de aprender a identificar padr\u00f5es de muta\u00e7\u00f5es inofensivas em uma amostra de tumores que permitem apontar em qual \u00f3rg\u00e3o o tumor prim\u00e1rio foi produzido com uma taxa de sucesso que dobra a dos patologistas humanos.<\/p>\n<p class=\"\">Este trabalho tamb\u00e9m pretende ser um marco metodol\u00f3gico, explica Alfonso Valencia, chefe de biocomputa\u00e7\u00e3o do Centro de Supercomputa\u00e7\u00e3o de Barcelona, que foi o supercomputador que mais dados analisou para este projeto: mais de 300 bilh\u00f5es de letras de DNA lidas. \u201cMostramos como fazer grandes estudos gen\u00f4micos do c\u00e2ncer de maneira sustent\u00e1vel, e agora a ideia \u00e9 fazer o mesmo em hospitais e incluir dados cl\u00ednicos de cada paciente, especialmente o hist\u00f3rico do tratamento, para que um dia talvez possamos conhecer todas e cada uma das muta\u00e7\u00f5es causais do c\u00e2ncer\u201d, destaca o pesquisador.<\/p>\n<p class=\"\">Os participantes do projeto brincam entre si dizendo que fizeram esse trabalho &#8220;por amor ao c\u00e2ncer&#8221;, porque n\u00e3o receberam financiamento extra para analisar e interpretar os dados de sequenciamento. Ainda n\u00e3o se sabe como a pr\u00f3xima etapa do projeto ser\u00e1 paga, mas os respons\u00e1veis est\u00e3o confiantes de que sair\u00e1 do papel. Ivo Gut, diretor do Centro Nacional de An\u00e1lise Gen\u00f4mica da Espanha, dirigiu um dos 16 grupos de trabalho do projeto. &#8220;Este foi apenas o primeiro passo, precisamos de pelo menos 100 vezes mais genomas&#8221;, diz ele.<\/p>\n<p class=\"\">\u201cA principal novidade deste projeto \u00e9 que um n\u00famero muito grande de tumores \u00e9 analisado, tanto em seus tipos quanto no n\u00famero total de pacientes analisados, o que nos d\u00e1 uma resolu\u00e7\u00e3o sem precedentes\u201d, afirma Xos\u00e9 Bustelo, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Espanhola de Pesquisa do C\u00e2ncer (ASEICA, na sigla em espanhol). \u201cDe certa forma, \u00e9 como a descoberta da Am\u00e9rica: na primeira viagem, Colombo viu apenas uma pequena parte da ilha rec\u00e9m-descoberta. Mas suas viagens sucessivas, como as dos outros conquistadores, nos permitiram visualizar e mapear um mundo totalmente novo, neste caso mapeando o genoma das c\u00e9lulas do c\u00e2ncer. \u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O\u00a0c\u00e2ncer\u00a0\u00e9 o pre\u00e7o que pagamos por estarmos vivos. 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