{"id":121293,"date":"2020-02-05T10:00:34","date_gmt":"2020-02-05T13:00:34","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=121293"},"modified":"2020-02-05T10:20:07","modified_gmt":"2020-02-05T13:20:07","slug":"extracao-de-madeira-esta-corrompendo-arquipelago-mas-um-vilarejo-decidiu-virar-o-jogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/extracao-de-madeira-esta-corrompendo-arquipelago-mas-um-vilarejo-decidiu-virar-o-jogo\/","title":{"rendered":"Extra\u00e7\u00e3o de madeira est\u00e1 corrompendo arquip\u00e9lago, mas um vilarejo decidiu virar o jogo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/lama.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-121294\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/lama.jpg\" alt=\"\" width=\"415\" height=\"265\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/lama.jpg 415w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/lama-300x192.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 415px) 100vw, 415px\" \/><\/a>ILHAS SALOM\u00c3O &#8211; Em meados de fevereiro de 2018, os moradores da comunidade de Marasa, nas Ilhas Salom\u00e3o, notaram que os rios haviam come\u00e7ado a ganhar uma colora\u00e7\u00e3o vermelha. A esta\u00e7\u00e3o chuvosa estava quase no fim e chuvas fortes haviam ca\u00eddo sobre o cume da floresta, que surge a partir da costa e separa Marasa do resto da ilha de Guadalcanal. Logo, as \u00e1guas ganharam uma cor densa de ferrugem que todos reconheceram como proveniente do solo cerca de 200 metros acima nas encostas, mas que nunca antes havia se dissolvido e escoado para o mar.<\/p>\n<p>Os rios encheram e transbordaram pouco tempo depois, inundando plan\u00edcies que abrigavam coqueiros e planta\u00e7\u00f5es de manga e inhame, depositando argila imperme\u00e1vel e deixando a terra incultiv\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, os moradores locais caminharam at\u00e9 uma regi\u00e3o com sinal de telefonia celular e ligaram para Philip Manakako, nativo de Marasa, que morava a cerca de 48 quil\u00f4metros nas montanhas em Honiara, a capital. Seu pai, tamb\u00e9m Philip Manakako, disse que n\u00e3o havia mais peixe nos rios. A \u00e1gua estava deixando as crian\u00e7as doentes, disse um tio. Uma mulher que morava pr\u00f3ximo dali explicou como todas as suas plantas morreram tr\u00eas dias ap\u00f3s a chegada das inunda\u00e7\u00f5es, e o ch\u00e3o ao seu redor cheirava a gasolina.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_885\/public\/03-solomon-islands-deforestation-jaques.jpg\" alt=\"Philip Manakako caminha pela floresta perto de sua aldeia natal, Marasa. Ele exerceu um papel fundamental ...\" width=\"639\" height=\"426\" \/><figcaption>Philip Manakako caminha pela floresta perto de sua aldeia natal, Marasa. Ele exerceu um papel fundamental no processo de retirada da Gallego, a madeireira que estava desmatando a floresta pr\u00f3ximo de sua casa.<br \/>\nFOTO DE\u00a0<strong>MONIQUE JAQUES, NATIONAL GEOGRAPHIC<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>No cume, uma empresa madeireira da Mal\u00e1sia, chamada Gallego Resources, havia come\u00e7ado a desmatar enormes trechos da floresta \u2014 seus homens\u00a0derrubavam as altas \u00e1rvores\u00a0<em>kwila<\/em>\u00a0de tronco acinzentando e as\u00a0<em>akwa<\/em>\u00a0repletas de frutos, e as arrastavam das encostas para exporta\u00e7\u00e3o, permitindo que as chuvas levassem a camada superficial de solo que havia ficado desabrigada.<\/p>\n<p>Manakako ficou atordoado quando descobriu. As montanhas estiveram intocadas h\u00e1 tempos e sempre foram abundantes, cobertas de \u00e1rvores. Desde crian\u00e7a ele acreditava que as \u00e1rvores est\u00e3o na regi\u00e3o desde a cria\u00e7\u00e3o do planeta. Durante sua inf\u00e2ncia, ele e seus primos seguiam os riachos montanha acima durante algumas horas e voltavam com quilos de camar\u00e3o para o jantar.<\/p>\n<p>Os moradores de Marasa sabiam o que aconteceria a seguir. As florestas das quais dependiam para obter alimento, \u00e1gua e madeira seriam destru\u00eddas. E, sem as \u00e1rvores, teriam que comer arroz importado e construir suas casas com madeira comprada com as pequenas quantias que as madeireiras pagavam \u00e0s comunidades por cada remessa exportada. Os adolescentes teriam que assumir empregos perigosos e as jovens seriam coagidas a casamentos tempor\u00e1rios com trabalhadores estrangeiros visando a explora\u00e7\u00e3o sexual. Provavelmente tamb\u00e9m haveria um aumento do alcoolismo e, com isso, da viol\u00eancia. \u201cA vida\u201d, como muitos parentes de Manakako descreveram, n\u00e3o existiria mais.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_885\/public\/01-solomon-islands-deforestation-jaques.jpg\" alt=\"Uma estrada aberta para extra\u00e7\u00e3o madeireira leva ao acampamento principal da Gallego, uma madeireira for\u00e7ada pela ...\" width=\"639\" height=\"427\" \/><figcaption>Uma estrada aberta para extra\u00e7\u00e3o madeireira leva ao acampamento principal da Gallego, uma madeireira for\u00e7ada pela comunidade local a interromper suas opera\u00e7\u00f5es.<br \/>\nFOTO DE\u00a0<strong>MONIQUE JAQUES, NATIONAL GEOGRAPHIC<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>Eles sabiam disso porque j\u00e1 havia acontecido na maior parte da costa de Guadalcanal \u2014 e em quase todas as outras partes do arquip\u00e9lago desde que a explora\u00e7\u00e3o madeireira come\u00e7ou, logo ap\u00f3s a independ\u00eancia do Reino Unido, em 1978. Empresas estrangeiras, principalmente chinesas e malaias, est\u00e3o cortando \u00e1rvores a uma taxa que ultrapassa em mais de 19 vezes a taxa sustent\u00e1vel,\u00a0de acordo com a Global Witness, tornando as Ilhas Salom\u00e3o o segundo maior fornecedor de toras tropicais para a China.<\/p>\n<h3>\u00c0 procura de um salvador<\/h3>\n<p>Sobrevoe a regi\u00e3o e ver\u00e1 os danos causados \u2014 trechos desmatados em meio a um carpete verde, conectados por uma rede de estradas de terra. Ao longo da costa, pontos de embarque podem ser avistados, rampas de barro por onde as \u00e1rvores s\u00e3o carregadas em barca\u00e7as e rebocadas para navios de carga no mar.<\/p>\n<p>O povo de Marasa ligou para Manakako porque ele entende de extra\u00e7\u00e3o de madeira e, ap\u00f3s dois anos na filial local da\u00a0Transparency International, ele tamb\u00e9m passou a entender a burocracia das Ilhas Salom\u00e3o. De acordo com os moradores, se houvesse algu\u00e9m capaz de salvar a floresta das m\u00e3os da empresa Gallego, seria ele.<\/p>\n<p>Manakako tem 31 anos e trabalha na divis\u00e3o anticorrup\u00e7\u00e3o do gabinete do primeiro-ministro. Ele possui\u00a0<em>dreadlocks\u00a0<\/em>nos cabelos e as laterais raspadas, e gosta de usar camisas esportivas norte-americanas quando est\u00e1 de folga. Ele agora est\u00e1 diferente do povo de Marasa, mas continua orgulhoso de seus ancestrais e sua tribo. Ele frequentemente conta lendas locais, leva frutos do vilarejo para sua esposa e dois filhos pequenos, e\u00a0mastiga a tradicional noz de betel (embora apenas nos fins de semana), que possui efeito estimulante.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_885\/public\/02-solomon-islands-deforestation-jaques.jpg\" alt=\"Toras empilhadas na praia, deixadas por uma empresa madeireira. A movimenta\u00e7\u00e3o de toras e equipamentos em ...\" width=\"639\" height=\"425\" \/><figcaption>Toras empilhadas na praia, deixadas por uma empresa madeireira. A movimenta\u00e7\u00e3o de toras e equipamentos em pequena escala geralmente \u00e9 cara e as empresas costumam deixar o que restou no local.<br \/>\nFOTO DE\u00a0<strong>MONIQUE JAQUES, NATIONAL GEOGRAPHIC<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cAinda trata-se do esp\u00edrito guerreiro\u201d, ele diz de tr\u00e1s de sua mesa em Honiara. \u201cEstou lutando de uma maneira diferente pela minha terra e para tomar as decis\u00f5es certas para o meu povo.\u201d<\/p>\n<p>Quando a Gallego chegou, em fevereiro, Manakako estava desempregado ap\u00f3s concluir seu curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Fiji. Ele rapidamente aproveitou o tempo livre para investigar a empresa.<\/p>\n<p>A madeira \u00e9, de longe, o produto mais exportado pelas Ilhas Salom\u00e3o\u00a0e existe um processo legalmente consagrado para concess\u00e3o de licen\u00e7as de explora\u00e7\u00e3o madeireira. A corrup\u00e7\u00e3o end\u00eamica permite que as empresas contornem quase todo esse processo. Com uma economia subdesenvolvida que oferece poucas fontes de renda alternativas, muitos moradores locais aceitam o pouco dinheiro oferecido pela atividade. Caso contr\u00e1rio, barcos de patrulha da pol\u00edcia s\u00e3o \u00e0s vezes enviados para amea\u00e7ar ou deter qualquer oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_885\/public\/04-solomon-islands-deforestation-jaques.jpg\" alt=\"Um dos 19 cont\u00eaineres de kwila \u2014 uma \u00e1rvore de crescimento lento \u2014 apreendidos pelo Departamento ...\" width=\"638\" height=\"425\" \/><figcaption>Um dos 19 cont\u00eaineres de kwila \u2014 uma \u00e1rvore de crescimento lento \u2014 apreendidos pelo Departamento Aduaneiro das Ilhas Salom\u00e3o. A carga foi faturada como kwila cortada, que tem taxas de exporta\u00e7\u00e3o e valor no exterior significativamente menores do que a kwila inteira.<br \/>\nFOTO DE\u00a0<strong>MONIQUE JAQUES, NATIONAL GEOGRAPHIC<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>Isso acontece descaradamente. No ano passado, a Tabilo Timber iniciou suas opera\u00e7\u00f5es perto de um afluente da principal fonte de \u00e1gua de Honiara e logo a poluiu com tamanha quantidade de lodo que o fornecimento de \u00e1gua tinha que ser interrompido ap\u00f3s cada chuva torrencial.<\/p>\n<p>\u201cQuando a situa\u00e7\u00e3o fica ruim, dizemos que parece Milo [bebida de chocolate com malte]\u201d, diz Ray Andresen, gerente estrat\u00e9gico de recursos h\u00eddricos das Ilhas Salom\u00e3o, em uma manh\u00e3 de setembro, em uma esta\u00e7\u00e3o de bombeamento acima da capital. Aquela semana tinha sido relativamente seca, ent\u00e3o o fluxo era apenas de um branco leitoso, que o tratamento com cloro pelo menos tornava pot\u00e1vel.<\/p>\n<p>Oito quil\u00f4metros mata adentro, duas fontes de \u00e1gua se combinavam e corriam encosta abaixo. Uma estava limpa. A outra, vinda de uma regi\u00e3o pr\u00f3xima do local de opera\u00e7\u00e3o da Tabilo, exibia a mesma cor leitosa. Essa \u00f3bvia culpabilidade n\u00e3o facilitou a interrup\u00e7\u00e3o das atividades da empresa, diz Ian Gooden, gerente geral de recursos h\u00eddricos das Ilhas Salom\u00e3o, que repetidamente trabalhou para conscientizar diferentes ramos do governo de que a lei estava sendo violada, mas sem nenhuma consequ\u00eancia.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_470\/public\/06-solomon-islands-deforestation-jaques.jpg\" alt=\"As estradas abertas pela explora\u00e7\u00e3o s\u00e3o uma das muitas maneiras pelas quais as madeireiras est\u00e3o arruinando ...\" width=\"638\" height=\"957\" \/><figcaption>As estradas abertas pela explora\u00e7\u00e3o s\u00e3o uma das muitas maneiras pelas quais as madeireiras est\u00e3o arruinando as ilhas, que agora t\u00eam mais de 12,5 mil quil\u00f4metros dessas estradas. Habitats sens\u00edveis enfrentam poss\u00edvel degrada\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o devido \u00e0s novas estradas.<br \/>\nFOTO DE\u00a0<strong>MONIQUE JAQUES, NATIONAL GEOGRAPHIC<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>Gooden parecia exausto, algo comum entre aqueles que tentam proteger as florestas do pa\u00eds. Ruth Liloqula, diretora executiva da Transparency Solomons e antiga chefe de Manakako, diz que a corrup\u00e7\u00e3o colocou os minist\u00e9rios do governo e o judici\u00e1rio no mesmo time que as empresas. Ela nem mesmo conseguiu impedir que sua pr\u00f3pria comunidade fosse devastada.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um caso sem esperan\u00e7a\u201d, ela suspira ao final de mais um dia de trabalho em seu escrit\u00f3rio em Honiara. \u201cPorque realmente n\u00e3o h\u00e1 nada que possa ser feito para ajudar algu\u00e9m.\u201d<\/p>\n<h3>Travando batalhas<\/h3>\n<p>Para um cidad\u00e3o comum das Ilhas Salom\u00e3o, o processo legal exigido para proteger a terra \u00e9 incrivelmente complexo e dispendioso. Isso \u00e9 especialmente verdade em \u00e1reas remotas, e a maior parte das Ilhas Salom\u00e3o \u00e9 bastante remota. Marasa, que consiste em cinco casas tradicionais e uma igreja, faz parte de um aglomerado de aldeias afastadas de uma praia repleta de pedras negras, com nada al\u00e9m de 1,6 mil quil\u00f4metros de mar e ventos fortes entre ela e Queensland, na Austr\u00e1lia. Apesar de sua proximidade com a capital, o governo \u00e9 quase invis\u00edvel l\u00e1.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_885\/public\/09-solomon-islands-deforestation-jaques.jpg\" alt=\"Phillip Manakako pai guia seu barco para Marasa. A falta de estradas transit\u00e1veis torna o vilarejo ...\" width=\"632\" height=\"421\" \/><figcaption>Phillip Manakako pai guia seu barco para Marasa. A falta de estradas transit\u00e1veis torna o vilarejo acess\u00edvel apenas por barco.<br \/>\nFOTO DE\u00a0<strong>MONIQUE JAQUES, NATIONAL GEOGRAPHIC<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>Antes havia uma estrada de cerca de 11 quil\u00f4metros at\u00e9 o interior, um servi\u00e7o de balsa e um aer\u00f3dromo que operava um \u00fanico voo semanal. Essa infraestrutura desapareceu durante um conflito \u00e9tnico que come\u00e7ou em 1998, quando Manakako se lembra de se esconder na floresta enquanto a pol\u00edcia disparava suas metralhadoras em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s encostas e de um grupo de militantes que uma vez decapitou alguns homens na praia.<\/p>\n<p>Agora, existem apenas barcos simples que partem 64 quil\u00f4metros a noroeste de uma praia perto do final da estrada de Honiara nas manh\u00e3s em que o tempo est\u00e1 bom. O combust\u00edvel \u00e9 caro, ent\u00e3o as pessoas enchem os barcos at\u00e9 as bordas ficarem a cent\u00edmetros das ondas, e atravessam a arrebenta\u00e7\u00e3o, acompanhando a costa \u00edngreme com seus pontos de embarque de madeira e trechos de floresta desmatada.<\/p>\n<p>Mesmo com seu conhecimento, n\u00e3o foi f\u00e1cil para Manakako descobrir como a Gallego estava operando. Nos diversos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos que visitou, os funcion\u00e1rios que ele procurava estavam em hor\u00e1rios de almo\u00e7o intermin\u00e1veis, presos em reuni\u00f5es ou apenas se recusavam a conversar com ele. Ele ficou horas esperando ser atendido no Minist\u00e9rio dos Recursos Naturais, recusando-se a sair dali at\u00e9 que lhe entregassem os pap\u00e9is que ele queria. (O Minist\u00e9rio dos Recursos Naturais n\u00e3o respondeu a diversos pedidos de coment\u00e1rios.)<\/p>\n<p>No fim, foi constatado que a Gallego estava operando de acordo com uma licen\u00e7a concedida em 2015 para uma \u00e1rea vizinha. As consultas locais necess\u00e1rias, os relat\u00f3rios de impacto ambiental e as inspe\u00e7\u00f5es no local pareciam ter sido ignorados. A empresa tamb\u00e9m estava violando uma lei que pro\u00edbe opera\u00e7\u00f5es perto de afluentes e havia oferecido a uma aldeia apenas um tanque de \u00e1gua vazio como forma de indeniza\u00e7\u00e3o pelos danos que havia causado.<\/p>\n<p>Munido dessas informa\u00e7\u00f5es, Manakako apresentou recursos judiciais e solicitou que as opera\u00e7\u00f5es fossem interrompidas. E todo fim de semana, ele encontrava lugar em um barco com destino a Marasa. Para que seu plano funcionasse, ele precisava do apoio da comunidade, e alguns ainda ca\u00edam na tenta\u00e7\u00e3o do dinheiro pago pelas atividades de explora\u00e7\u00e3o madeireira.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_885\/public\/05-solomon-islands-deforestation-jaques.jpg\" alt=\"Moradores locais que trabalham para outra empresa madeireira que n\u00e3o a Gallego s\u00e3o levados pela montanha ...\" width=\"638\" height=\"425\" \/><figcaption>Moradores locais que trabalham para outra empresa madeireira que n\u00e3o a Gallego s\u00e3o levados pela montanha at\u00e9 o acampamento.<br \/>\nFOTO DE\u00a0<strong>MONIQUE JAQUES, NATIONAL GEOGRAPHIC<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>Ele costumava conversar com os mais velhos depois de terem rezado juntos sobre tapetes de folhas de palmeira na pequena igreja da vila. O altar da igreja \u00e9 enfeitado com flores em vasos reaproveitados de c\u00e1psulas de muni\u00e7\u00e3o da Segunda Guerra Mundial e o sino foi feito a partir de um cilindro de mergulho. Foi culturalmente dif\u00edcil para um jovem liderar dessa maneira, e principalmente contradizer aqueles que aprovavam a Gallego. Mas Manakako se sentou com eles, conversou e mastigou noz de betel at\u00e9 convenc\u00ea-los.<\/p>\n<p>Manakako teve que acalmar os \u201cmeninos\u201d, parte de uma juventude que gosta de desafiar, e tamb\u00e9m homens que lutaram durante os conflitos \u00e9tnicos e que acabaram de sair da cadeia. Alguns deles eram a favor de atacar o acampamento da Gallego para queimar as m\u00e1quinas e j\u00e1 haviam discutido com os trabalhadores e roubado algumas motosserras.<\/p>\n<p>\u201cControl\u00e1vamos as pessoas que eram ex-militantes\u201d, diz Manakako. \u201cEles entenderam que tudo deveria ser feito de forma honesta.\u201d<\/p>\n<p>Ele criou uma rede de informa\u00e7\u00f5es, de mulheres de meia idade a jovens adeptos da maconha, para descobrir o que estava acontecendo no cume. O contato mais importante foi John Selwyn, um velho amigo de uma aldeia na montanha, onde v\u00e1rias pessoas haviam sido empregadas como seguran\u00e7as da Gallego. Eles tinham interesse em manter a empresa l\u00e1, independentemente dos danos causados abaixo.<\/p>\n<p>Selwyn contou as barca\u00e7as carregadas que sa\u00edam dos pontos de embarque. Registrou os locais em que a Gallego estava cortando \u00e1rvores, quando estavam particularmente ocupados e quando seus carregamentos de combust\u00edvel chegavam, inclusive certa vez em que um deles provocou um derramamento em um dos riachos. Ele tamb\u00e9m estava l\u00e1 quando Manakako foi a uma reuni\u00e3o com representantes da empresa e disse que o que eles estavam fazendo era contra a lei e que iria impedi-los. Os funcion\u00e1rios da empresa apenas riram.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_885\/public\/13-solomon-islands-deforestation-jaques.jpg\" alt=\"Lilisiana \u00e9 um vilarejo que luta contra o aumento do n\u00edvel do mar perto da capital ...\" width=\"636\" height=\"425\" \/><figcaption>Lilisiana \u00e9 um vilarejo que luta contra o aumento do n\u00edvel do mar perto da capital municipal de Auki, na ilha de Maliata. Os moradores precisam escolher se desejam se mudar para o interior, mas \u00e9 uma decis\u00e3o dif\u00edcil.<br \/>\nFOTO DE\u00a0<strong>MONIQUE JAQUES, NATIONAL GEOGRAPHIC<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>Manakako continuou trabalhando mesmo assim, indo de vilarejo em vilarejo para conseguir uma peti\u00e7\u00e3o com 795 nomes acompanhados de assinaturas e algumas impress\u00f5es digitais.<\/p>\n<p>Em Honiara, ele escreveu um artigo pedindo que a Gallego fosse investigada. Tamb\u00e9m escreveu cartas e se reuniu com os l\u00edderes da empresa. Eles tentaram suborn\u00e1-lo, conta ele, oferecendo enormes somas para um homem sem emprego e com uma fam\u00edlia para alimentar.<\/p>\n<p>Manakako ficou \u00e0 frente deles, documentando tudo em uma vasta cole\u00e7\u00e3o de artigos, capturas de tela do Facebook e e-mails. \u201cEu tinha os meus planos maquiav\u00e9licos\u201d, ele ri. \u201cGravei todas as minhas reuni\u00f5es com eles.\u201d<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio do Meio Ambiente finalmente emitiu uma notifica\u00e7\u00e3o para interromper as atividades da empresa em agosto de 2018. Mas a Gallego continuou explorando a floresta. O governo emitiu outra algumas semanas depois, que a princ\u00edpio tamb\u00e9m foi ignorada. Mas perto do fim do ano, a press\u00e3o sobre a empresa aumentou. A Gallego finalmente interrompeu os trabalhos, e retirou suas m\u00e1quinas e seus trabalhadores para sempre. A empresa n\u00e3o respondeu aos pedidos de coment\u00e1rios sobre o motivo de sua sa\u00edda.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_885\/public\/07-solomon-islands-deforestation-jaques.jpg\" alt=\"A conservacionista Mary Osirii colhe flores. As mulheres do vilarejo de Igwa se voluntariam para monitorar ...\" width=\"638\" height=\"425\" \/><figcaption>A conservacionista Mary Osirii colhe flores. As mulheres do vilarejo de Igwa se voluntariam para monitorar a madeireira Ngu Brothers, para garantir que s\u00f3 extraia madeira de locais permitidos.<br \/>\nFOTO DE\u00a0<strong>MONIQUE JAQUES, NATIONAL GEOGRAPHIC<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<h3>Lento processo de recupera\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>No fim de setembro de 2019, Manakako faz outra viagem de fim de semana para casa, por volta das cinco e meia no barco de seus pais, juntando-se a outros barcos sob a luz do crep\u00fasculo. Quatro horas depois, ele est\u00e1 ajudando a descarregar a carga na foz de um rio que, de acordo com Philip pai, estava muito mais raso devido ao escoamento de lodo causado pela extra\u00e7\u00e3o de madeira. Alguns pequenos peixes se agrupam novamente nas \u00e1guas turvas, fugindo ao sinal de qualquer aproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Manakako cumprimenta amigos, primos e tios no vilarejo. Todos parecem felizes com o que ele conseguiu fazer.<\/p>\n<p>Contudo, assim como o rio, as terras cultiv\u00e1veis podem levar anos para se recuperar, diz Esmi Mazini, a mulher que telefonou para lhe dizer que suas plantas haviam sido destru\u00eddas ap\u00f3s as inunda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 muito triste para n\u00f3s\u201d, diz ela. \u201cCultivamos esse pomar h\u00e1 anos. E agora temos que abandon\u00e1-lo.\u201d<\/p>\n<p>Homens da regi\u00e3o que trabalharam para a Gallego dizem que a comunidade os trata de forma mais distante agora. No vilarejo de Selwyn, fala-se em tentar trazer outra empresa para a \u00e1rea. L\u00e1, os temores que os moradores de Marasa tinham sobre os impactos sociais da explora\u00e7\u00e3o madeireira se mostraram verdadeiros.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 brigas e bebedeira todos os dias\u201d, diz Selwyn. \u201cEles ganham dinheiro e gastam com bebida apenas.\u201d<\/p>\n<p>Depois da missa de domingo, Manakako e Selwyn sobem at\u00e9 as \u00e1reas desmatadas pela primeira vez desde que a Gallego saiu. Manakako esperava encontrar poucos sinais das atividades da empresa. Em terras t\u00e3o f\u00e9rteis e bem irrigadas, a mata cresce rapidamente.<\/p>\n<p>Eles caminham felizes e em ritmo constante, por um caminho cada vez mais dif\u00edcil pela floresta \u00edngreme que a Gallego teria desmatado at\u00e9 a costa. Manakako aponta para\u00a0<em>kwila<\/em>\u00a0especialmente altas e eretas e<em>\u00a0akwa<\/em>\u00a0floridas, a madeira ideal para a fabrica\u00e7\u00e3o de arcos, flechas, lan\u00e7as ou canoas. Ele fala sobre esp\u00edritos que, de acordo com ele, guiam crian\u00e7as perdidas de volta para casa.<\/p>\n<p>\u201cSempre que estou aqui\u201d, diz ele, \u201csinto que est\u00e3o comigo.\u201d<\/p>\n<p>A terra logo ganha uma colora\u00e7\u00e3o avermelhada e, de repente, a cerca de 260 metros, \u00e9 poss\u00edvel encontrar estradas abertas para escoamento da madeira e tocos das \u00e1rvores que foram derrubadas. Nessa regi\u00e3o, o solo superficial desapareceu completamente em alguns pontos, tendo sido removido at\u00e9 as camadas mais profundas de rocha branca e manchado de \u00f3leo. A regi\u00e3o ainda est\u00e1 lutando para se recuperar desse tipo de dano.<\/p>\n<p>\u201cAinda parece igual\u201d, diz Manakako, repentinamente s\u00e9rio, desvalorizando um pouco sua dif\u00edcil vit\u00f3ria. \u201cJ\u00e1 faz um ano e ainda h\u00e1 muitos danos.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ILHAS SALOM\u00c3O &#8211; Em meados de fevereiro de 2018, os moradores da comunidade de Marasa,<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":121294,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/lama.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/lama-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/lama-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/lama.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/lama.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/lama.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/lama.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/lama.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/lama.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/lama.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"ILHAS SALOM\u00c3O &#8211; Em meados de fevereiro de 2018, os moradores da comunidade de Marasa,","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/121293"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=121293"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/121293\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/121294"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=121293"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=121293"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=121293"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}