{"id":121008,"date":"2020-01-31T12:30:00","date_gmt":"2020-01-31T15:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=121008"},"modified":"2020-01-31T18:15:16","modified_gmt":"2020-01-31T21:15:16","slug":"combinacao-de-febre-e-hipotermia-pode-ajudar-a-combater-a-sepse","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/combinacao-de-febre-e-hipotermia-pode-ajudar-a-combater-a-sepse\/","title":{"rendered":"Combina\u00e7\u00e3o de febre e hipotermia pode ajudar a combater a sepse"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/termometro.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-121009\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/termometro.jpg\" alt=\"\" width=\"415\" height=\"265\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/termometro.jpg 415w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/termometro-300x192.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 415px) 100vw, 415px\" \/><\/a>O sistema imunol\u00f3gico humano disp\u00f5e de duas estrat\u00e9gias pr\u00e9-programadas para lidar com infec\u00e7\u00f5es. Uma \u00e9 a febre, mecanismo de resist\u00eancia cujo objetivo \u00e9 eliminar o pat\u00f3geno pelo aumento da temperatura corporal. A outra vai na dire\u00e7\u00e3o oposta: promover o resfriamento controlado do corpo para permitir a conviv\u00eancia tempor\u00e1ria com o invasor, preservando \u00f3rg\u00e3os e sistemas. Os mecanismos se alternam de acordo com a for\u00e7a do ataque e o estado geral de sa\u00fade do paciente.<\/p>\n<p>Este conceito inovador foi apresentado recentemente por dois pesquisadores na revista\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S1043276019301791\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Trends in Endocrinology and Metabolism<\/em><\/a><\/strong>, da\u00a0<em>Cell Press<\/em>. No artigo, prop\u00f5e-se tamb\u00e9m combinar essas duas estrat\u00e9gias naturais de defesa para estudar e tratar a sepse \u2013 inflama\u00e7\u00e3o sist\u00eamica geralmente desencadeada por uma infec\u00e7\u00e3o localizada que saiu de controle\u00a0e principal causa de morte nas unidades de terapia intensiva (UTIs) brasileiras.<\/p>\n<p>O trabalho, apoiado pela FAPESP, \u00e9 assinado por\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/49456\/alexandre-alarcon-steiner\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Alexandre Steiner<\/a><\/strong>, do Departamento de Imunologia do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas da Universidade de S\u00e3o Paulo (ICB-USP), e Andrej Romanovsky, do Laborat\u00f3rio de Termorregula\u00e7\u00e3o e Inflama\u00e7\u00e3o Sist\u00eamica (FeverLab) do St. Joseph\u2019s Hospital and Medical Center, de Phoenix (Estados Unidos).<\/p>\n<p>\u201cEstamos propondo um modelo em que n\u00e3o se observa apenas o sistema imune na estrat\u00e9gia de\u00a0<em>host defense<\/em>\u00a0[defesa do hospedeiro], mas tamb\u00e9m aspectos da fisiologia humana. Est\u00e1 claro que temos duas estrat\u00e9gias de defesa e que precisamos olhar os sistemas imune e fisiol\u00f3gico de forma integrada ao analisar os processos de infec\u00e7\u00e3o\u201d, disse Steiner \u00e0\u00a0<strong>Ag\u00eancia FAPESP<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Evolu\u00e7\u00e3o de conceitos<\/strong><\/p>\n<p>Nos anos 1970, pesquisas da \u00e1rea da fisiologia desenvolveram a Teoria da Febre, que apontava a eleva\u00e7\u00e3o da temperatura corporal como um fator essencial da estrat\u00e9gia de defesa do hospedeiro. \u201cPassamos a enxergar a febre n\u00e3o mais como parte da doen\u00e7a, mas como componente da defesa\u201d, explicou Steiner.<\/p>\n<p>J\u00e1 nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas, estudos com ratos apontaram que, quando a infec\u00e7\u00e3o se tornava mais grave, os hospedeiros desenvolviam hipotermia em vez de febre. \u201cObservamos esse mesmo tipo de ocorr\u00eancia em pacientes com sepse internados em UTIs, por exemplo\u201d, disse.<\/p>\n<p>Inicialmente, a hipotermia era vista como um processo de desregula\u00e7\u00e3o: o organismo estaria morrendo e, com os sistemas falhando, j\u00e1 n\u00e3o conseguia manter a temperatura corporal. Apenas na d\u00e9cada de 1990 os cientistas conseguiram analisar o perfil metab\u00f3lico e termorregulat\u00f3rio durante quadros de hipotermia para levantar a hip\u00f3tese de que o fen\u00f4meno n\u00e3o era causado por desregula\u00e7\u00e3o e sim um comportamento proposital do organismo, um mecanismo controlado de defesa.<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 2000, Steiner fez experimentos com ratos para estudar a prefer\u00eancia t\u00e9rmica, ou seja, para entender se o organismo dos animais procurava de forma ativa o frio ou o calor e em quais circunst\u00e2ncias o fazia, tentando, ent\u00e3o, entender melhor a hipotermia. \u201cNessa pesquisa percebemos que, em quadros menos graves, os animais estudados procuravam um ambiente quente e desenvolviam febre. Por\u00e9m, com o agravamento do quadro inflamat\u00f3rio, passavam a procurar um ambiente mais frio, onde seria mais f\u00e1cil desenvolver hipotermia\u201d, contou.<\/p>\n<p>A procura por um ambiente frio indica que o animal est\u00e1 em processo de desenvolvimento ativo de hipotermia. Segundo Steiner, tal fen\u00f4meno envolve centros do sistema nervoso central que coordenam uma inibi\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica que, em ambiente mais frio, leva a uma redu\u00e7\u00e3o regulada da temperatura corporal.<\/p>\n<p>A febre, por outro lado, exige um gasto consider\u00e1vel de energia para manter a temperatura alta. Al\u00e9m disso, pode exacerbar o estresse oxidativo \u2013 desequil\u00edbrio entre a gera\u00e7\u00e3o de compostos oxidantes e a atua\u00e7\u00e3o de sistemas de defesa antioxidante \u2013, que atrapalha a homeostase dos tecidos.<\/p>\n<p>\u201cLevantou-se a hip\u00f3tese de que a hipotermia ocorre quando os custos metab\u00f3licos da febre excedem os benef\u00edcios: o desafio imune \u00e9 muito forte ou h\u00e1 debilidade f\u00edsica. A resposta hipot\u00e9rmica regulada daria suporte para um quadro de toler\u00e2ncia imunol\u00f3gica, no qual o organismo passa a conviver com o pat\u00f3geno &#8216;desligando&#8217;\u00a0sistemas n\u00e3o vitais e defendendo aqueles sem os quais n\u00e3o consegue sobreviver\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Nos experimentos realizados entre 2008 e 2012, Steiner detectou menor mortandade em animais que recorriam \u00e0 estrat\u00e9gia da hipotermia frente a infec\u00e7\u00f5es bacterianas graves do que naqueles em que a hipotermia era bloqueada por interven\u00e7\u00f5es laboratoriais. \u201cCom isso, constatamos que na fisiologia animal a hipotermia tinha um papel ben\u00e9fico\u201d, disse.<\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de uma d\u00e9cada, tamb\u00e9m come\u00e7ou a mudar o paradigma da \u00e1rea de imunologia de que o sistema imune tem como objetivo principal matar o pat\u00f3geno. Pesquisadores da \u00e1rea descobriram que alguns animais desenvolvem outra estrat\u00e9gia: ativam o mecanismo de defesa que permite a conviv\u00eancia tempor\u00e1ria com o invasor.<\/p>\n<p><strong>Conhecimento combinado<\/strong><\/p>\n<p>No artigo publicado na\u00a0<em>Trends in Endocrinology and Metabolism<\/em>, Steiner e Romanovsky defendem que o sistema de defesa do organismo humano seja abordado a partir da perspectiva das dicotomias febre\/hipotermia \u2013 mecanismos estudados pela fisiologia \u2013 e resist\u00eancia\/ toler\u00e2ncia \u2013 pesquisados pela imunologia. Ou seja, sugerem que se combine os dois campos do conhecimento e se olhe para al\u00e9m do sistema imune ao lidar com infec\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cTrata-se de um sistema din\u00e2mico, em que o organismo transita entre uma e outra estrat\u00e9gia. Os sistemas imune e fisiol\u00f3gico n\u00e3o adotam apenas uma linha de defesa e se mant\u00eam nela, principalmente em quadros graves como a sepse\u201d, disse Steiner.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos estudos em ratos, Steiner e sua equipe acompanharam um grupo de 50 pacientes s\u00e9pticos tratados no Hospital Universit\u00e1rio (HU) da USP. \u201cProcuramos um subgrupo de pacientes que tinha apresentado hipotermia semelhante \u00e0 associada ao mecanismo da toler\u00e2ncia, cujas caracter\u00edsticas s\u00e3o ser transit\u00f3ria e autolimitante. Para nossa surpresa, 97% dos 50 pacientes estudados se encaixaram nesse perfil\u201d, contou. Segundo o pesquisador, nesses casos, a temperatura corporal cai de 2\u00ba C a 2,5 \u00ba C no m\u00e1ximo.<\/p>\n<p>O quadro desses pacientes transitou naturalmente entre os estados de resist\u00eancia com febre e de hipotermia, possivelmente associada a toler\u00e2ncia. As varia\u00e7\u00f5es ocorriam como resposta do organismo, sem indu\u00e7\u00e3o por uso de medicamentos ou promo\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnica de resfriamento e aquecimento dos pacientes.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, a maior evid\u00eancia de que o processo n\u00e3o \u00e9 uma simples desregula\u00e7\u00e3o do corpo \u00e9 que, dos 25 casos em que houve \u00f3bito, a maioria apresentou febre nas 12 horas que antecederam a morte. \u201cSe a hipotermia fosse resultado de disfun\u00e7\u00e3o, de fal\u00eancia de \u00f3rg\u00e3os, seria nessas 12 horas pr\u00e9-morte que observar\u00edamos mais hipotermia\u201d, avaliou.<\/p>\n<p>Os estudos realizados por Steiner receberam apoio da FAPESP por meio de um\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/55144\/elo-entre-balanco-energetico-e-inflamacao-sistemica-papel-da-leptina\/?q=12\/03831-8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Aux\u00edlio \u00e0 Pesquisa \u2013 Jovens Pesquisadores<\/a><\/strong>; um\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/94480\/tonus-arterial-no-choque-septico-uma-nova-vertente-para-um-velho-problema\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Aux\u00edlio \u00e0 Pesquisa \u2013 Regular<\/a><\/strong>; e um\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/101616\/hipotermia-na-sepse-causas-e-consequencias\/?q=18\/03418-0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Aux\u00edlio \u00e0 Pesquisa Tem\u00e1tico<\/a><\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Pr\u00f3ximos passos<\/strong><\/p>\n<p>A implica\u00e7\u00e3o mais imediata dos resultados obtidos at\u00e9 o momento est\u00e1 em promover uma reavalia\u00e7\u00e3o da forma de lidar com a sepse. \u201cHoje em dia, as infec\u00e7\u00f5es graves s\u00e3o vistas de forma unidimensional: o sistema imune est\u00e1 l\u00e1 para matar o pat\u00f3geno e, se n\u00e3o o faz ou o faz exacerbadamente, causa problemas ao paciente. Com base nos novos achados, podemos pensar em poss\u00edveis terapias e em uma linha de tratamento mais personalizada, em que se analisa se o paciente poder\u00e1 se beneficiar mais de uma estrat\u00e9gia de febre\/resist\u00eancia ou de hipotermia\/toler\u00e2ncia\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Atualmente, o grupo de Steiner busca testar a aplica\u00e7\u00e3o da teoria geral proposta no artigo em situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, como infec\u00e7\u00f5es por fungos, v\u00edrus e bact\u00e9rias. Outra linha de pesquisa \u00e9 avaliar a influ\u00eancia da obesidade nas estrat\u00e9gias de defesa contra infec\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0<em>Energy Trade-offs in Host Defense: Immunology Meets Physiology<\/em>\u00a0pode ser lido em\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S1043276019301791\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S1043276019301791<\/a><\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sistema imunol\u00f3gico humano disp\u00f5e de duas estrat\u00e9gias pr\u00e9-programadas para lidar com infec\u00e7\u00f5es. 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