{"id":120910,"date":"2020-01-29T12:28:06","date_gmt":"2020-01-29T15:28:06","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=120910"},"modified":"2020-01-29T12:28:47","modified_gmt":"2020-01-29T15:28:47","slug":"na-terra-dos-grandes-predadores-viver-em-grupo-faz-muita-diferenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/na-terra-dos-grandes-predadores-viver-em-grupo-faz-muita-diferenca\/","title":{"rendered":"Na terra dos grandes predadores, viver em grupo faz muita diferen\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/oncas.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-120911\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/oncas.jpg\" alt=\"\" width=\"415\" height=\"265\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/oncas.jpg 415w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/oncas-300x192.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 415px) 100vw, 415px\" \/><\/a>No \u00faltimo dia 19 de setembro, como ocorre diariamente na regi\u00e3o do Porto Jofre, no Pantanal Norte, turistas observavam uma das on\u00e7as-pintadas conhecidas na regi\u00e3o (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/jaguaridproject\/\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">@jaguaridproject<\/a>). Tratava-se de uma f\u00eamea, denominada \u201c\u00c3gue\u201d, a qual vinha sendo observada h\u00e1 algumas semanas pr\u00f3xima a um grupo de ariranhas, formado por tr\u00eas adultos e dois filhotes de aproximadamente 3 meses. Como pesquisadoras do Projeto Ariranhas (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/projetoariranhas\/\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">@projetosariranhas<\/a>), v\u00ednhamos monitorando a toca do grupo com armadilha fotogr\u00e1fica e, na semana anterior, \u201c\u00c3gue\u201d foi registrada vistoriando a abertura da toca, enquanto o grupo estava no seu interior (<em>Veja o v\u00eddeo abaixo<\/em>).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/FRTSA37FOVw\" width=\"100%\" height=\"478\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Outras intera\u00e7\u00f5es entre \u201c\u00c3gue\u201d e as ariranhas j\u00e1 haviam sido reportadas por turistas e, por isso, o grupo foi identificado como \u201cjaguar group\u201d ou \u201cgrupo on\u00e7a\u201d. No entanto, no dia 19 a intera\u00e7\u00e3o foi diferente. \u201c\u00c3gue\u201d, que estava no barranco sobre a toca do grupo de ariranhas, esperou o momento exato em que um dos filhotes saiu da \u00e1gua e\u2026 deu um bote certeiro. Ela abocanhou o filhote e subiu rapidamente o barranco, fugindo de um dos adultos que instantaneamente a perseguiu. No entanto, ao subir o barranco, o filhote caiu de sua boca. Depois de alguns segundos de intera\u00e7\u00f5es agressivas entre \u201c\u00c3gue\u201d e as ariranhas, um dos adultos conseguiu resgatar o filhote, j\u00e1 sem vida (<em>Veja o v\u00eddeo abaixo<\/em>).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/CDLXqqeNy5g\" width=\"100%\" height=\"478\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Apesar de on\u00e7as-pintadas serem consideradas um potencial predador para ariranhas, este foi o primeiro registro de ataque presenciado por um observador, no caso, por v\u00e1rios observadores. O primeiro e \u00fanico registro oficial de preda\u00e7\u00e3o de on\u00e7a-pintada a uma ariranha ocorreu na Amaz\u00f4nia em 2012 [<a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/273131102_First_record_of_jaguar_predation_on_giant_otter_Pteronura_brasiliensis\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">dos Santos Ramalheira et al., 2015<\/a>]. Na ocasi\u00e3o, parece que a on\u00e7a-pintada surpreendeu uma f\u00eamea de ariranha que vivia solit\u00e1ria e se refugiava dentro de um tronco de \u00e1rvore em uma ilha no reservat\u00f3rio de Balbina, Amazonas. Essa f\u00eamea era monitorada por telemetria, e a preda\u00e7\u00e3o s\u00f3 foi constatada dias ap\u00f3s o evento, atrav\u00e9s do sinal de mortalidade do transmissor. No local da preda\u00e7\u00e3o, os pesquisadores encontraram a carca\u00e7a do animal abatido junto a in\u00fameros rastros de on\u00e7a.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio dos adultos, filhotes de ariranhas s\u00e3o muito mais suscet\u00edveis \u00e0 preda\u00e7\u00e3o, em especial nos primeiros meses de vida, quando ainda n\u00e3o s\u00e3o \u00e1geis o suficiente para acompanhar o grupo em suas excurs\u00f5es aqu\u00e1ticas. No Pantanal, h\u00e1 registros de preda\u00e7\u00e3o de filhotes de ariranhas por jacar\u00e9s [Schweizer, 1992]. No entanto, o contr\u00e1rio tamb\u00e9m pode ocorrer, e jacar\u00e9s adultos podem ser predados por ariranhas [Ribas et al., 2012].<\/p>\n<p>Intera\u00e7\u00f5es\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Comportamento_agon%C3%ADstico\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">agon\u00edsticas<\/a>\u00a0entre on\u00e7as-pintadas e grupos de ariranhas, denominadas tecnicamente como \u201cmobbing\u201d, s\u00e3o comuns e bem caracter\u00edsticas [Leuchtenberger et al., 2016].<\/p>\n<p>Em geral, a on\u00e7a, que est\u00e1 no barranco, \u00e9 recha\u00e7ada pelas ariranhas, que est\u00e3o na \u00e1gua. Durante o\u00a0<em>mobbing<\/em>, o grupo de ariranhas utiliza vocaliza\u00e7\u00f5es e posturas intimidadoras, que geralmente espantam o predador. Diferente de outros carn\u00edvoros, ariranhas n\u00e3o pescam cooperativamente e n\u00e3o compartilham alimento. Eventualmente, adultos compartilham peixes com filhotes que est\u00e3o aprendendo a pescar. Assim, a coes\u00e3o do grupo durante eventos de\u00a0<em>mobbing<\/em>, bem como o empenho do \u201cjaguar group\u201d em resgatar o filhote do predador, demonstram a import\u00e2ncia da vida social em ariranhas para se defender de predadores. Al\u00e9m disso, viver em grupo parece ter uma vantagem importante para defender territ\u00f3rios de grupos intrusos de ariranhas. Encontros agon\u00edsticos entre grupos de ariranhas s\u00e3o comuns e podem levar a ferimentos graves e at\u00e9 \u00e0 morte de indiv\u00edduos ou desintegra\u00e7\u00e3o de grupos. Al\u00e9m disso, grupos maiores parecem ter acesso a territ\u00f3rios melhores e t\u00eam maior sucesso reprodutivo, ou seja, garantem uma maior sobreviv\u00eancia dos filhotes.<\/p>\n<figure id=\"attachment_75110\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 639px;\" aria-describedby=\"caption-attachment-75110\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-75110\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cham-on%C3%A7a-1.jpg\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cham-on\u00e7a-1.jpg 500w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cham-on\u00e7a-1-240x300.jpg 240w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"799\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-75110\" class=\"wp-caption-text\">\u00c3gue com o filhote de ariranha na boca. Cr\u00e9dito: Tuomas Kirjavainen.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Aliado a isso, o h\u00e1bito fossorial, ou seja, o comportamento de se refugiar em tocas, tamb\u00e9m aumenta a prote\u00e7\u00e3o contra predadores. A preda\u00e7\u00e3o da f\u00eamea de ariranha por on\u00e7a-pintada em Balbina provavelmente n\u00e3o teria ocorrido se essa f\u00eamea vivesse em um grupo ou ainda se ela tivesse se refugiado em uma toca. Da mesma forma, as ariranhas parecem confiar na seguran\u00e7a conferida pelas tocas, pois \u00e9 muito comum os adultos deixarem os filhotes sozinhos nas tocas durante as atividades de pesca e patrulhamento de territ\u00f3rio. Se a seguran\u00e7a conferida pelas tocas n\u00e3o fosse verdadeira, provavelmente \u201c\u00c3gue\u201d j\u00e1 teria predado algum dos filhotes em suas investidas na toca do \u201cjaguar group\u201d.<\/p>\n<p>Mas apesar de toda a for\u00e7a e intelig\u00eancia que grupos de ariranhas det\u00eam em se proteger de predadores e de grupos rivais, ariranhas ainda s\u00e3o uma das esp\u00e9cies de lontras mais amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o do mundo. A esp\u00e9cie que, historicamente, foi quase extinta pela ca\u00e7a comercial por causa do valor de suas peles, hoje \u00e9 amea\u00e7ada pela perda e degrada\u00e7\u00e3o do seu habitat, que s\u00e3o rios e corpos d\u2019\u00e1gua que ainda mant\u00e9m excelentes condi\u00e7\u00f5es de conserva\u00e7\u00e3o e recursos alimentares, no caso, peixes. Al\u00e9m disso, popula\u00e7\u00f5es isoladas sofrem com o abate indiscriminado, tr\u00e1fico ilegal de filhotes e conflitos com humanos. Pescadores, em especial, percebem a esp\u00e9cie como um potencial competidor ou ainda acreditam que a esp\u00e9cie interfere no sucesso da pesca.<\/p>\n<p>Grande, social, diurna e extremamente carism\u00e1tica, ariranhas s\u00e3o um potencial atrativo para atividades tur\u00edsticas, as quais, quando conduzidas de forma irregular, tamb\u00e9m podem amea\u00e7ar a esp\u00e9cie. Durante os primeiros meses de vida dos filhotes, o tr\u00e1fego e a proximidade de embarca\u00e7\u00f5es \u00e0s \u00e1reas de ref\u00fagio podem afetar a sobreviv\u00eancia dos filhotes, ou ainda, levar alguns grupos a abandonar seus territ\u00f3rios. \u00c1reas como o Pantanal, que permitem a observa\u00e7\u00e3o de intera\u00e7\u00f5es raras e intensas como entre \u201c\u00c3gue\u201d e o \u201cjaguar group\u201d, demonstram o potencial do turismo de contempla\u00e7\u00e3o da vida silvestre para aliar desenvolvimento econ\u00f4mico e conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade. No entanto, temos um caminho ainda longo para que o Brasil seja refer\u00eancia na condu\u00e7\u00e3o de um turismo de vida selvagem bem manejado e sustent\u00e1vel.<\/p>\n<figure id=\"attachment_75107\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 639px;\" aria-describedby=\"caption-attachment-75107\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-75107\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Fig-1A.jpg\" sizes=\"(max-width: 1152px) 100vw, 1152px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Fig-1A.jpg 1152w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Fig-1A-300x222.jpg 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Fig-1A-1024x756.jpg 1024w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Fig-1A-600x443.jpg 600w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Fig-1A-640x473.jpg 640w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"472\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-75107\" class=\"wp-caption-text\">Filhotes s\u00e3o alvos f\u00e1ceis para predadores. Cr\u00e9dito: Tuomas Kirjavainen.<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No \u00faltimo dia 19 de setembro, como ocorre diariamente na regi\u00e3o do Porto Jofre, no<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":120911,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/oncas.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/oncas-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/oncas-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/oncas.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/oncas.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/oncas.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/oncas.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/oncas.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/oncas.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/oncas.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"No \u00faltimo dia 19 de setembro, como ocorre diariamente na regi\u00e3o do Porto Jofre, no","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/120910"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=120910"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/120910\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/120911"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=120910"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=120910"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=120910"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}