{"id":120572,"date":"2020-01-23T14:00:33","date_gmt":"2020-01-23T17:00:33","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=120572"},"modified":"2020-01-23T11:08:41","modified_gmt":"2020-01-23T14:08:41","slug":"uso-racional-dos-recursos-da-amazonia-e-a-melhor-estrategia-para-sua-conservacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/uso-racional-dos-recursos-da-amazonia-e-a-melhor-estrategia-para-sua-conservacao\/","title":{"rendered":"Uso racional dos recursos da Amaz\u00f4nia \u00e9 a melhor estrat\u00e9gia para sua conserva\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cafe-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-120574 alignleft\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cafe-2.jpg\" alt=\"\" width=\"415\" height=\"265\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cafe-2.jpg 415w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cafe-2-300x192.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 415px) 100vw, 415px\" \/><\/a>Ajudar a proteger a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/588549-floresta-e-alimento-remedio-e-cosmetico\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Amaz\u00f4nia<\/a>\u00a0j\u00e1 estava nos planos do cientista e professor\u00a0<strong>Marcelino Carneiro Guedes<\/strong>\u00a0em sua gradua\u00e7\u00e3o em\u00a0<strong>Engenharia Florestal na Universidade Federal de Vi\u00e7osa<\/strong>\u00a0(<strong>MG<\/strong>). Mesmo que a\u00a0<strong>UFV<\/strong>\u00a0n\u00e3o tivesse muita liga\u00e7\u00e3o com a regi\u00e3o amaz\u00f4nica, ele direcionou sua forma\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 floresta, o que o levou a atuar como pesquisador da\u00a0<strong>Embrapa<\/strong>\u00a0(<strong>Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria<\/strong>) no\u00a0<strong>Amap\u00e1<\/strong>, inicialmente na \u00e1rea de conserva\u00e7\u00e3o e manejo de solos.<\/p>\n<p>\u201cComo meu trabalho est\u00e1 sempre voltado para as necessidades locais, eu percebi uma demanda para algo mais ligado ao\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/590611-ribeirinhos-cultivam-mesmas-especies-que-indigenas-ja-extintos-da-amazonia-antiga-mostra-estudo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">manejo florestal<\/a>\u00a0mesmo \u2013 sem deixar de lado todo o conhecimento que tenho em solos e que me permite compreender os compartimentos ecol\u00f3gicos em um ecossistema, onde est\u00e1 tudo interligado\u201d, explica.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, j\u00e1 se somam dezessete anos de trabalho e pesquisa em um contexto que, segundo enfatiza, \u00e9 diferente do associado \u00e0\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/594548-a-realidade-devastadora\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Amaz\u00f4nia<\/a>\u00a0nos grandes notici\u00e1rios. \u201c\u00c9 preciso entender que existe uma diferen\u00e7a entre a\u00a0<strong>floresta conservada<\/strong>\u00a0e a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/594457-desmatamento-da-amazonia-tem-3-maior-alta-percentual-da-historia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">floresta desmatada<\/a>. Aqui no\u00a0<strong>Amap\u00e1<\/strong>\u00a0temos a floresta conservada, com baix\u00edssimo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/595622-desmatamento-na-amazonia-cresce-85-em-2019\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">desmatamento<\/a>\u00a0e pouca demanda para o cuidado de \u00e1reas degradadas. Nosso desafio aqui \u00e9 manter o que est\u00e1 conservado\u201d, aponta.<\/p>\n<p>Hoje professor e orientador nos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em\u00a0<strong>Biodiversidade Tropical e Ci\u00eancias Ambientais\u00a0<\/strong>na<strong>\u00a0Universidade Federal do Amap\u00e1<\/strong>,\u00a0<strong>Guedes<\/strong>\u00a0d\u00e1 aulas sobre\u00a0<strong>manejo de florestas nativas da Amaz\u00f4nia<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>ecologia de ecossistemas<\/strong>, participando tamb\u00e9m das disciplinas de uso sustent\u00e1vel dos ecossistemas amaz\u00f4nicos e ecologia de campo.<\/p>\n<p>Nesta entrevista exclusiva para a\u00a0<strong>Mongabay<\/strong>, o cientista explica a import\u00e2ncia da pr\u00e1tica do manejo para o desenvolvimento de uma economia florestal forte, capaz de vencer o paradigma que coloca a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/592136-amazonia-trunfo-e-potencia-das-florestas-em-pe\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">floresta em p\u00e9<\/a>\u00a0como inimiga do desenvolvimento. Tamb\u00e9m fala sobre as dificuldades do momento atual para fazer\u00a0<strong><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/593436-como-a-ciencia-defende-a-floresta-entrevista-com-carlos-afonso-nobre\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ci\u00eancia na Amaz\u00f4nia<\/a><\/strong>\u00a0e sobre a import\u00e2ncia dos conhecimentos das popula\u00e7\u00f5es tradicionais e ind\u00edgenas para a conserva\u00e7\u00e3o da<strong>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/594854-niveis-globais-de-biodiversidade-podem-ser-mais-baixos-do-que-pensamos-alerta-novo-estudo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">biodiversidade<\/a><\/strong>.<\/p>\n<p>A entrevista \u00e9\u00a0de\u00a0<strong>D\u00e9bora<\/strong>\u00a0<strong>Pinto<\/strong>,\u00a0publicada por\u00a0<strong>Mongabay<\/strong>, 21-01-2020.<\/p>\n<h3>Eis a entrevista.<\/h3>\n<p><strong>De que modo a presen\u00e7a humana pode ser importante para a conserva\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia?<\/strong><\/p>\n<p>O conceito de preserva\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e o homem apartado da floresta. Por isso \u00e9 importante falarmos de conserva\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de preserva\u00e7\u00e3o. As pr\u00e1ticas humanas, por meio do manejo, s\u00e3o a base para a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/576917-preservacao-da-amazonia-e-fundamental-para-a-manutencao-do-seu-ciclo-hidrologico-entrevista-especial-com-thomas-lovejoy\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">conserva\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia<\/a>\u00a0\u2013 a chamada \u201c<strong>conserva\u00e7\u00e3o pelo uso<\/strong>\u201d, como j\u00e1 pregava [o extrativista e ambientalista]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/594299-se-nada-for-feito-reserva-extrativista-chico-mendes-vai-virar-pasto\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Chico Mendes<\/a>. Usar a floresta de maneira racional, manejando seus produtos madeireiros e n\u00e3o madeireiros e servi\u00e7os ecossist\u00eamicos [sequestro de carbono, conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade, solo, \u00e1gua] para tirar dela a renda e a riqueza necess\u00e1rias \u00e0 promo\u00e7\u00e3o do bem viver e desenvolvimento, \u00e9 o caminho para que possamos criar uma din\u00e2mica de conserva\u00e7\u00e3o efetiva em longo prazo diante das muitas press\u00f5es sofridas pelo territ\u00f3rio.<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2020\/01\/23-01-2020-vista-aerea-floresta-amazonica-foto-neil-palmer-ciat.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"425\" \/><\/p>\n<p>Vista a\u00e9rea da Floresta Amaz\u00f4nica pr\u00f3xima a Manaus. (Foto: Neil Palmer\/CIAT)<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>A floresta em p\u00e9 pode ser financeiramente lucrativa?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, com certeza. V\u00e1rios trabalhos t\u00eam mostrado com clareza que os ganhos obtidos pagam os custos do manejo e que a\u00a0<strong>floresta em p\u00e9<\/strong>\u00a0pode gerar lucro. A madeira, por exemplo, \u00e9 o principal ativo econ\u00f4mico da floresta e tem mercado garantido. Os\u00a0<strong>PFNM<\/strong>\u00a0(<strong>Produtos Florestais N\u00e3o Madeireiros<\/strong>) est\u00e3o sendo cada vez mais valorizados e ganham mercado atendendo diversas ind\u00fastrias como a de alimentos, fitoter\u00e1picos e cosm\u00e9ticos. Al\u00e9m disso, ainda existe a possibilidade de compensa\u00e7\u00e3o pelo servi\u00e7o ambiental que prestam as pessoas que cuidam e ajudam a manter a<strong>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/579623-a-importancia-das-florestas-em-pe-na-amazonia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">floresta em p\u00e9<\/a><\/strong>. Quando se tem uma economia florestal forte e esses guardi\u00f5es conseguem retirar da floresta a sua renda, eles passam a ser os principais interessados em mant\u00ea-la em p\u00e9, em uma pr\u00e1tica que alia desenvolvimento econ\u00f4mico, social e a conserva\u00e7\u00e3o de forma integrada.<\/p>\n<p><strong>A arqueologia brasileira, dentre outras ci\u00eancias, j\u00e1 comprova que o manejo realizado pelas popula\u00e7\u00f5es pr\u00e9-Cabralinas influenciou a floresta de maneira profunda. Qual a import\u00e2ncia do conhecimento sobre essa atua\u00e7\u00e3o humana ancestral para se pensar a conserva\u00e7\u00e3o hoje?<\/strong><\/p>\n<p>As grandes\u00a0<strong>popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias da Amaz\u00f4nia<\/strong>\u00a0viviam e praticavam\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/588260-para-inspirar-nova-geracao-povo-wai-wai-publica-cartilha-sobre-manejo-da-castanha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">manejo na floresta<\/a>, assim como do solo e do fogo h\u00e1, pelo menos, 5 mil anos. Com isso, acabou ocorrendo um enriquecimento de esp\u00e9cies \u00fateis ao ser humano como a castanheira e o a\u00e7aizeiro, aumentando a densidade dessas esp\u00e9cies na floresta \u2013 um processo de sele\u00e7\u00e3o natural e tamb\u00e9m cultural.<\/p>\n<p>Os dist\u00farbios provocados pelos ind\u00edgenas, principalmente por meio das pr\u00e1ticas da agricultura itinerante, foram importantes para criar uma paisagem diversa, resultando na abundante diversidade que conhecemos hoje. O\u00a0<strong>manejo<\/strong>\u00a0<strong>ind\u00edgena<\/strong>\u00a0<strong>dos solos<\/strong>\u00a0promoveu melhorias extraordin\u00e1rias na sua qualidade, como pode-se constatar ainda hoje nos solos antropog\u00eanicos [que tiveram a\u00e7\u00e3o humana] da\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>. A chamada \u201cterra preta de \u00edndio\u201d, por exemplo, \u00e9 de extrema fertilidade e \u00e9 um legado dos antigos ind\u00edgenas que utilizaram seus saberes para o enriquecimento do solo ao longo de mil\u00eanios.<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2020\/01\/23-01-2020-colheita-da-guarana-satere-mawe-foto-xavier-bartaburu.jpg\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"425\" \/><\/p>\n<p>Colheita do guaran\u00e1 Sater\u00e9-Maw\u00e9 Terra Ind\u00edgena Andir\u00e1-Marau (AM). (Foto: Xavier Bartaburu)<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Como voc\u00ea percebe as estrat\u00e9gias e pol\u00edticas que ignoram a import\u00e2ncia do conhecimento das popula\u00e7\u00f5es tradicionais como parte da conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o derivadas de mentes que nunca viveram na\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>\u00a0ou que desconhecem sua ecologia hist\u00f3rica, seu funcionamento e a essencialidade da floresta. Os caboclos atuais, que j\u00e1 est\u00e3o na floresta h\u00e1 bastante tempo, t\u00eam o conhecimento dos melhores usos para cada esp\u00e9cie, dos frutos que s\u00e3o ou n\u00e3o comest\u00edveis e qual a melhor \u00e9poca para sua coleta, das madeiras mais indicadas para cada utiliza\u00e7\u00e3o, e sabem tudo isso de maneira muito detalhada.<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2020\/01\/23-01-2020-guarana-satere-mawe-foto-xavier-bartaburu.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"429\" \/><\/p>\n<p>Guaran\u00e1 Sater\u00e9-Maw\u00e9, Terra Ind\u00edgena Andir\u00e1-Marau (AM). (Foto: Xavier Bartaburu)<\/p>\n<\/div>\n<p>Esse conhecimento nasce da necessidade de sobreviv\u00eancia, principalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s esp\u00e9cies \u00fateis. S\u00e3o s\u00e9culos e s\u00e9culos de conviv\u00eancia di\u00e1ria dessas popula\u00e7\u00f5es com a floresta. Esse contato com a natureza e com essas pessoas ensina muitas coisas que a gente jamais vai aprender com os livros dentro da universidade.<\/p>\n<p>Outro conhecimento importante das\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/588975-por-que-os-indigenas-sao-a-chave-para-proteger-a-biodiversidade-planetaria\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">popula\u00e7\u00f5es tradicionais e ind\u00edgenas<\/a>\u00a0diz respeito aos\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/591424-os-kumua-do-alto-rio-negro-especialistas-da-cura-indigena\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">usos medicinais<\/a>. Muitas dessas comunidades at\u00e9 hoje n\u00e3o t\u00eam acesso aos f\u00e1rmacos industrializados. Ent\u00e3o, utilizam plantas para curar a maioria das suas enfermidades, um conhecimento muito valioso. Ignorar esses saberes \u00e9 deixar de lado uma parte importante da din\u00e2mica de funcionamento da pr\u00f3pria floresta.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 a Hip\u00f3tese do Dist\u00farbio Intermedi\u00e1rio e qual a sua rela\u00e7\u00e3o com as pr\u00e1ticas de manejo?<\/strong><\/p>\n<p>A\u00a0<strong>HDI<\/strong>\u00a0nos mostra que a diversidade \u00e9 maximizada em \u00e1reas com dist\u00farbios intermedi\u00e1rios. E por \u201cdist\u00farbio\u201d podemos entender todos os fen\u00f4menos que causam altera\u00e7\u00e3o no ambiente, como, por exemplo, uma forte tempestade, a queda de um raio gerando fogo ou de uma grande \u00e1rvore abrindo uma clareira na mata. Se o dist\u00farbio for muito grande, intenso e frequente, logicamente os\u00a0danos \u00e0<strong>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/579265-qual-a-importancia-da-biodiversidade-no-brasil-e-a-sua-relacao-com-o-debate-global-das-mudancas-climaticas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">biodiversidade<\/a>\u00a0<\/strong>tamb\u00e9m ocorrer\u00e3o na mesma propor\u00e7\u00e3o. Por outro lado, se n\u00e3o houver dist\u00farbios (em uma hip\u00f3tese de preserva\u00e7\u00e3o total), a diversidade tamb\u00e9m ser\u00e1 baixa.<\/p>\n<p>Os dist\u00farbios intermedi\u00e1rios s\u00e3o fundamentais para a\u00a0<strong>entrada de luz<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>renova\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>da<\/strong>\u00a0<strong>floresta<\/strong>, e permitem a coexist\u00eancia de esp\u00e9cies com diferentes exig\u00eancias desse recurso, o que n\u00e3o acontece nos casos extremos de muito ou pouco dist\u00farbio. Quando uma \u00e1rvore cai e se abre uma clareira, por exemplo, esp\u00e9cies que necessitam de maior incid\u00eancia de calor e luminosidade tendem a ser favorecidas, bem como a sua coexist\u00eancia com outras esp\u00e9cies. \u00c9 assumindo a exist\u00eancia dessas altera\u00e7\u00f5es e sua import\u00e2ncia para a diversidade que o manejo se estabelece. O papel das pesquisas e do\u00a0<strong>conhecimento<\/strong>\u00a0<strong>cient\u00edfico<\/strong>\u00a0est\u00e1 em perceber as nuances dessa din\u00e2mica e como a interven\u00e7\u00e3o humana pode obter os produtos da floresta, incluindo os madeireiros, em uma propor\u00e7\u00e3o de dist\u00farbio que esteja de acordo com o que j\u00e1 ocorreria naturalmente e de uma maneira que favore\u00e7a os\u00a0<strong>ecossistemas<\/strong>\u00a0ao inv\u00e9s de danific\u00e1-los.<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2020\/01\/23-01-2020-castanha-do-brasil-amazonia-peru-foto-marco-simola-cifor.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"410\" \/><\/p>\n<p>Beneficiamento de castanha-do-brasil em Puerto Maldonado, na Amaz\u00f4nia peruana. (Foto: Marco Simola\/CIFOR)<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Qual \u00e9 o papel da ci\u00eancia, na sua opini\u00e3o, para a conscientiza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento de pol\u00edticas p\u00fablicas que visem manter a floresta em p\u00e9?<\/strong><\/p>\n<p>Infelizmente, um papel que deveria ser central est\u00e1 cada vez mais subjugado. A\u00a0<strong>polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ideol\u00f3gica<\/strong>\u00a0da popula\u00e7\u00e3o faz com que cada vez menos se acredite na ci\u00eancia. Cada vez mais temos argumentos cient\u00edficos para defender a floresta em p\u00e9, mas isso n\u00e3o chega \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e n\u00e3o causa impacto na sociedade. A vis\u00e3o social predominante sobre a\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>\u00a0ainda \u00e9 dual\u00edstica, dos que imaginam a floresta um para\u00edso que deve ser mantido intocado ou um inferno que deve ser queimado.<\/p>\n<p>\u00c9 em grande medida por esse desconhecimento, tamb\u00e9m, que ainda existem vozes que se levantam contra a\u00a0<strong>pr\u00e1tica do manejo<\/strong>, defendendo a preserva\u00e7\u00e3o e a aus\u00eancia de atividade humana na floresta como forma de proteg\u00ea-la mesmo com todas as evid\u00eancias, cient\u00edficas e hist\u00f3ricas, sobre a import\u00e2ncia dessa intera\u00e7\u00e3o para a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/593976-biodiversidade-nao-e-problema-e-solucao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">biodiversidade<\/a>.<\/p>\n<p>O papel da ci\u00eancia \u00e9 quebrar essa polariza\u00e7\u00e3o e trazer base t\u00e9cnica para o desenvolvimento sustent\u00e1vel a partir do uso e\u00a0<strong>conserva\u00e7\u00e3o da floresta<\/strong>. Mas para isso acontecer \u00e9 fundamental que as informa\u00e7\u00f5es cheguem \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em geral \u2013 para que argumentos e tecnologias n\u00e3o fiquem restritos apenas aos nossos pares.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea avalia o atual momento para os estudos cient\u00edficos na Amaz\u00f4nia?<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 o pior momento que j\u00e1 vivi nesses 17 anos em que, como pesquisador da\u00a0<strong>Embrapa<\/strong>, estudo a\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>. Eu realmente gostaria de acreditar que estamos passando pelo fruto de um desconhecimento, de uma vis\u00e3o antiga de que a floresta \u00e9 a grande inimiga que precisa ser derrubada para poder colonizar e integrar. Mas, com todo esse desmonte sistem\u00e1tico das institui\u00e7\u00f5es, sinto que infelizmente n\u00e3o \u00e9 isso: existe um planejamento por tr\u00e1s de todas essas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Apesar de o governo tentar fazer um discurso sobre manter a<strong>\u00a0floresta em p\u00e9<\/strong>, como agora na\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/595230-cop25-a-ducha-fria-entrevista-com-lola-vallejo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">C\u00fapula do Clima da ONU em Madri<\/a>, voc\u00ea percebe que as a\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o condizentes com o discurso. \u00c9 apenas uma forma de conseguir mais recurso sem fazer o dever de casa, sem cultivar a\u00e7\u00f5es como o manejo da floresta em p\u00e9, ou o combate ao\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/594896-desmatamento-na-amazonia-aumenta-212-em-outubro-deste-ano-aponta-imazon\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">desmatamento<\/a>. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 realmente bastante preocupante tanto se pensamos no que se est\u00e1 propondo para\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>\u00a0como um todo \u2013 nesse paradigma no qual a floresta \u00e9 inimiga do desenvolvimento, de que o caminho \u00e9 explorar os min\u00e9rio e vender mat\u00e9ria-prima para o exterior, uma vis\u00e3o totalmente superada \u2013 quanto especificamente no que se refere \u00e0 pesquisa cient\u00edfica e educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A gente que est\u00e1 trabalhando com a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/586403-os-povos-indigenas-e-a-producao-da-ciencia-na-amazonia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica na Amaz\u00f4nia<\/a>, na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, est\u00e1 sentindo a expectativa de desmonte de todo um arranjo que buscou formar massa cr\u00edtica aqui na regi\u00e3o para trabalhar com ci\u00eancia e tecnologia na floresta. Um problema que est\u00e1vamos conseguindo minimizar era a dificuldade de conseguir fixar quadros de doutores, j\u00e1 que muitas vezes estados perif\u00e9ricos s\u00e3o considerados mais como pontos de passagem na forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, o que dificulta o trabalho na floresta com uma base t\u00e9cnica e cient\u00edfica nessas regi\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando eu cheguei ao\u00a0<strong>Amap\u00e1<\/strong>, n\u00f3s t\u00ednhamos aproximadamente dez doutores atuando nessa \u00e1rea. Hoje j\u00e1 temos mais de cem, muita gente daqui mesmo, formada. N\u00f3s est\u00e1vamos conseguindo dar esse salto importante e o que vivenciamos agora \u00e9 tudo isso sendo amea\u00e7ado por uma pol\u00edtica que realmente n\u00e3o v\u00ea a\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>\u00a0como algo central para o\u00a0<strong>Brasil<\/strong>. Pensando apenas em termos territoriais, a floresta amaz\u00f4nica ocupa 60% do pa\u00eds. Mas continua sendo tratada como um tema perif\u00e9rico.<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2020\/01\/23-01-2020-plantacao-cacau-nova-maringa-foto-icaro-cooke-vieira-cifor.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"425\" \/><\/p>\n<p>Planta\u00e7\u00e3o de cacau no munic\u00edpio de Nova Maring\u00e1 (MT). (Foto: Icaro Cooke Vieira\/CIFOR)<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Existem exemplos de regi\u00f5es onde o manejo e a economia florestal sejam parte integrante das pol\u00edticas p\u00fablicas, gerando resultados positivos?<\/strong><\/p>\n<p>Nas \u00e1reas tropicais, apesar de toda a \u00f3bvia riqueza e diversidade, ainda h\u00e1 mais a avan\u00e7ar do que resultados de grandes propor\u00e7\u00f5es a comemorar. Temos alguns casos pontuais como a\u00a0<strong>Mal\u00e1sia<\/strong>\u00a0\u2013 onde na verdade houve um certo excesso. A\u00a0<strong>Costa Rica<\/strong>\u00a0tem j\u00e1 algumas pol\u00edticas p\u00fablicas, mas a maioria dos casos onde \u00e9 poss\u00edvel ver essa economia florestal virar algo realmente forte \u00e9 nos pa\u00edses de clima temperado como o\u00a0<strong>Canad\u00e1<\/strong>, onde esse setor representa aproximadamente 20% do PIB. Outros exemplos s\u00e3o a\u00a0<strong>Su\u00e9cia<\/strong>\u00a0e a\u00a0<strong>Finl\u00e2ndia<\/strong>, onde h\u00e1 iniciativas que mostram o protagonismo do tema, como a cria\u00e7\u00e3o de um Minist\u00e9rio da Floresta. Nesses pa\u00edses, mesmo com todas as dificuldades com o clima \u2013 l\u00e1 o sujeito planta uma \u00e1rvore para o neto dele colher o fruto \u2013, eles conseguiram estabelecer uma economia florestal forte, baseada exatamente em ci\u00eancia e tecnologia.<\/p>\n<p><strong>Quais as principais dificuldades para a implanta\u00e7\u00e3o de um manejo efetivamente sustent\u00e1vel na Amaz\u00f4nia e qual o papel da legisla\u00e7\u00e3o brasileira nesse processo?<\/strong><\/p>\n<p>Falta de liquidez financeira e elevados custos iniciais, falta de regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, car\u00eancia de cr\u00e9dito e assist\u00eancia t\u00e9cnica para habilita\u00e7\u00e3o da floresta, al\u00e9m da elabora\u00e7\u00e3o do plano de manejo, s\u00e3o as maiores dificuldades. Al\u00e9m disso, ainda contamos com excesso de burocracia e morosidade no processo de licenciamento. A legisla\u00e7\u00e3o precisa ser simplificada e criar incentivos para quem quer fazer manejo e ser mais exigente e ter maior controle sobre as atividades que dependem do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/594458-desmatamento-na-amazonia-e-o-maior-em-11-anos-e-alcanca-20-da-floresta\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">desmatamento<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Quais voc\u00ea considera serem os maiores desafios futuros?<\/strong><\/p>\n<p>As quest\u00f5es organizacionais, como a falta de organiza\u00e7\u00e3o social e dificuldades de gest\u00e3o das comunidades. Tamb\u00e9m a amplia\u00e7\u00e3o dos mercados, o fortalecimento da\u00a0<strong>economia florestal<\/strong>\u00a0e a constru\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica de fomento para dar escala ao\u00a0<strong>manejo<\/strong>\u00a0<strong>florestal<\/strong>\u00a0de uso m\u00faltiplo na\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>.<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2020\/01\/23-01-2020-marcelino-guedes-vale-do-javari-ap.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"694\" \/><\/p>\n<p>Marcelino Guedes aos p\u00e9s de um angelim, no Vale do Jari. (AP)<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ajudar a proteger a\u00a0Amaz\u00f4nia\u00a0j\u00e1 estava nos planos do cientista e professor\u00a0Marcelino Carneiro Guedes\u00a0em sua gradua\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":120574,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cafe-2.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cafe-2-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cafe-2-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cafe-2.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cafe-2.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cafe-2.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cafe-2.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cafe-2.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cafe-2.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cafe-2.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Ajudar a proteger a\u00a0Amaz\u00f4nia\u00a0j\u00e1 estava nos planos do cientista e professor\u00a0Marcelino Carneiro Guedes\u00a0em sua gradua\u00e7\u00e3o","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/120572"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=120572"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/120572\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/120574"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=120572"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=120572"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=120572"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}