{"id":118352,"date":"2019-12-16T13:30:30","date_gmt":"2019-12-16T16:30:30","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=118352"},"modified":"2019-12-15T20:58:08","modified_gmt":"2019-12-15T23:58:08","slug":"revelada-a-origem-dos-caes-que-conquistaram-o-artico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/revelada-a-origem-dos-caes-que-conquistaram-o-artico\/","title":{"rendered":"Revelada a origem dos c\u00e3es que conquistaram o \u00c1rtico"},"content":{"rendered":"<p class=\"\"><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/caes.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-118353\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/caes-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/caes-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/caes.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>No\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/alaska\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Alasca<\/a>\u00a0existe um s\u00edtio arqueol\u00f3gico chamado Nunalleq que \u00e9 como uma c\u00e1psula do tempo. Aqui, a terra permaneceu congelada durante s\u00e9culos e o que sai dela est\u00e1 surpreendentemente preservado. O arque\u00f3logo Rick Knecht encontrou entalhes de \u00e2mbar, m\u00e1scaras de madeira e, principalmente, cordas feitas com erva seca cortada h\u00e1 mais de 400 anos, ou, como ele diz, quando\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/william_shakespeare\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Shakespeare<\/a> ainda andava pela Terra.<\/p>\n<p class=\"\">Essas cordas falam sobre um dos cap\u00edtulos mais dif\u00edceis e desconhecidos da expans\u00e3o dos seres humanos pelo planeta. H\u00e1 cerca de 2.000 anos, os esquim\u00f3s \u2013um grupo de ca\u00e7adores\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/05\/01\/actualidad\/1556725733_037033.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">n\u00f4mades da Sib\u00e9ria<\/a>\u2013 se lan\u00e7aram \u00e0 conquista do \u00c1rtico chegando primeiro ao Alasca e depois se deslocando pela costa leste do Canad\u00e1 at\u00e9 a Groenl\u00e2ndia, onde chegaram h\u00e1 cerca de 800 anos.<\/p>\n<p class=\"\">O mais surpreendente \u00e9 que conseguiram sobreviver gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje, o \u00fanico grupo humano que conseguiu isso. Nada disso seria poss\u00edvel sem os\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/perros\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">c\u00e3es<\/a>\u00a0que puxavam seus tren\u00f3s. As cordas encontradas em Nunalleq eram, na verdade, arreios de tren\u00f3 e tinham at\u00e9 piolhos de cachorro preservados. Em Nunalleq havia inclusive ossos de um filhote de cachorro que morreu esmagado quando o teto da cabana caiu antes que o colocassem para puxar a carga.<\/p>\n<p class=\"\">Agora, uma equipe de arque\u00f3logos e geneticistas analisou os cr\u00e2nios de 391 c\u00e3es encontrados em assentamentos humanos de at\u00e9 4.500 anos at\u00e9 hoje para tentar esclarecer a origem desses c\u00e3es de tren\u00f3 que, juntamente com duas embarca\u00e7\u00f5es, caiaque e umiaque, permitiram que os esquim\u00f3s, ou inu\u00edtes,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/12\/12\/ciencia\/1513105468_374523.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">sobrevivessem em um dos lugares mais hostis do planeta.<\/a><\/p>\n<p class=\"\">\u201cEstamos possivelmente diante da maior hist\u00f3ria de coopera\u00e7\u00e3o entre c\u00e3es e seres humanos\u201d, ressalta Tatiana Feuerborn, pesquisadora do Centro de Paleogen\u00e9tica da Universidade de Estocolmo e do Museu de Hist\u00f3ria Natural da Su\u00e9cia e coautora do estudo, publicado recentemente pela Royal Society. \u201cOs primeiros povoadores da Am\u00e9rica chegaram cruzando o \u00c1rtico h\u00e1 mais de 15.000 anos, mas n\u00e3o se estabeleceram l\u00e1\u201d, explica. \u201cDepois vieram os povos paleoinu\u00edtes, cerca de 4.000 anos atr\u00e1s. Essa gente ficou durante centenas de anos, mas n\u00e3o usava tren\u00f3s ou barcos e acabou desaparecendo da regi\u00e3o. A primeira evid\u00eancia do uso de tren\u00f3s veio com os inu\u00edtes. At\u00e9 o momento n\u00e3o foi poss\u00edvel saber se chegaram ao \u00c1rtico e amestraram os c\u00e3es que j\u00e1 estavam nessa regi\u00e3o ou se trouxeram seus pr\u00f3prios c\u00e3es\u201d, explica a pesquisadora.<\/p>\n<p class=\"\">O estudo mostra que os esquim\u00f3s desenvolveram sua pr\u00f3pria ra\u00e7a de c\u00e3es especializados e com eles chegaram ao \u00c1rtico. Mais do que melhores amigos eram \u201cferramentas vivas\u201d, diz Feuerborn. N\u00e3o apenas puxavam a carga, mas tamb\u00e9m ca\u00e7avam, vigiavam e at\u00e9 serviam de alimento quando a ca\u00e7a escasseava ou mesmo por puro capricho gastron\u00f4mico, segundo o estudo. A morfologia deles era diferente da dos c\u00e3es trazidos pelos paleoinu\u00edtes. Eram c\u00e3es maiores, com cabe\u00e7as mais estreitas.<\/p>\n<p class=\"\">A equipe tamb\u00e9m analisou o genoma mitocondrial, que passa da m\u00e3e para os filhos, de quase 1.000 c\u00e3es e lobos. Os resultados confirmam que a origem dos c\u00e3es inu\u00edtes est\u00e1 na Sib\u00e9ria. O trabalho tamb\u00e9m mostra que o DNA dessa ra\u00e7a de c\u00e3es ainda est\u00e1 presente nos c\u00e3es de tren\u00f3 da Groenl\u00e2ndia, que s\u00e3o o que existe de mais parecido hoje com os antigos c\u00e3es inu\u00edtes. Esses c\u00e3es podem estar com seus dias contados. Seu n\u00famero foi drasticamente reduzido pela fragmenta\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio por causa da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, pela crescente prefer\u00eancia dos ca\u00e7adores de esquim\u00f3s pelas motos de neve e pelos estragos causados pela cinomose e pelo parvov\u00edrus, de acordo com um estudo recente. Restam apenas 15.000.<\/p>\n<p class=\"\">Quando os europeus chegaram ao \u00c1rtico no s\u00e9culo XIX contaram que os esquim\u00f3s cruzavam seus c\u00e3es com lobos para lhes dar for\u00e7a. Os antrop\u00f3logos que come\u00e7aram a estudar essas culturas um s\u00e9culo depois contaram as mesmas hist\u00f3rias. Em teoria, os esquim\u00f3s preferiam que seus c\u00e3es emprenhassem uma loba e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Mas a an\u00e1lise de DNA n\u00e3o encontrou rastros de que os c\u00e3es inu\u00edtes tivessem DNA de lobo. Isso n\u00e3o significa que n\u00e3o existisse, mas provavelmente n\u00e3o era uma pr\u00e1tica comum, talvez de prop\u00f3sito. \u201cAs hist\u00f3rias de hibrida\u00e7\u00e3o entre lobos e c\u00e3es s\u00e3o muito frequentes na Groenl\u00e2ndia de hoje, mas essas mesmas fontes dizem que os h\u00edbridos geralmente s\u00e3o c\u00e3es de tren\u00f3 ruins e que os criadores tentam evitar o aspecto de lobo\u201d, escrevem os autores. Al\u00e9m disso, o n\u00famero de cruzamentos entre lobos e c\u00e3es foi limitado ao longo de milhares de anos, a julgar pelo fluxo gen\u00e9tico entre as duas esp\u00e9cies, o que \u201ctorna pouco prov\u00e1vel que qualquer semelhan\u00e7a entre os c\u00e3es inu\u00edtes e os lobos do \u00c1rtico seja resultado de cruzamentos\u201d, acrescentam. A \u00faltima palavra ser\u00e1 da an\u00e1lise do DNA nuclear de c\u00e3es e lobos, uma tarefa na qual a equipe Feuerborn j\u00e1 est\u00e1 trabalhando.<\/p>\n<p class=\"\">\u201cEste \u00e9 um estudo de enorme interesse e muito bem feito\u201d, diz Pat Shipman, paleoantrop\u00f3loga aposentada da Universidade Estadual da Pensilv\u00e2nia. \u201cAtualmente, os criadores de c\u00e3es que s\u00e3o usados em corridas de tren\u00f3 no Alasca mant\u00eam duas linhagens, uma muito veloz e outra muito resistente. \u00c9 poss\u00edvel que os inu\u00edtes tenham feito exatamente o mesmo\u201d, afirma.<\/p>\n<p class=\"\">Shipman acredita que \u201ctalvez seja um exagero\u201d considerar este cap\u00edtulo como a coopera\u00e7\u00e3o mais importante entre c\u00e3es e seres humanos. \u201cEu mantenho a teoria de que a invas\u00e3o bem-sucedida da Europa pelos humanos modernos e sua perman\u00eancia durante a idade do gelo em detrimento dos neandertais, que se extinguiram, foi facilitada pela domestica\u00e7\u00e3o do c\u00e3o, que ocorreu h\u00e1 cerca de 40.000 anos\u201d, cogita Shipman.<\/p>\n<p class=\"\">\u201c<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/08\/30\/ciencia\/1472548512_509383.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">A domestica\u00e7\u00e3o do c\u00e3o<\/a>\u00a0\u00e9 um dos eventos mais fascinantes e desconhecidos da hist\u00f3ria da humanidade\u201d, reconhece Elisabetta Cilli, especialista em DNA antigo da Universidade de Bolonha (It\u00e1lia). Nos \u00faltimos anos foram publicados estudos contradit\u00f3rios; alguns deles sustentam que houve uma \u00fanica domestica\u00e7\u00e3o h\u00e1 cerca de 40.000 anos, outros apontam pelo menos duas em lugares diferentes da Eur\u00e1sia,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/06\/02\/ciencia\/1464878004_240677.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">h\u00e1 pelo menos 12.000 anos<\/a>. \u201cAtualmente, temos muito poucas certezas. Acredito que aconteceu em v\u00e1rios lugares ao mesmo tempo, mas \u00e9 um problema muito complexo que iremos esclarecendo em parte gra\u00e7as a an\u00e1lises paleogen\u00e9ticas como esta\u201d, ressalta Cilli.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No\u00a0Alasca\u00a0existe um s\u00edtio arqueol\u00f3gico chamado Nunalleq que \u00e9 como uma c\u00e1psula do tempo. 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