{"id":118170,"date":"2019-12-08T21:14:12","date_gmt":"2019-12-09T00:14:12","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=118170"},"modified":"2019-12-08T21:15:40","modified_gmt":"2019-12-09T00:15:40","slug":"entrevista-as-mudancas-climaticas-no-centro-da-pauta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/entrevista-as-mudancas-climaticas-no-centro-da-pauta\/","title":{"rendered":"Entrevista: As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no centro da pauta"},"content":{"rendered":"<p><strong><em><img class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/0-48.jpg\" \/>Por Sucena Shkrada Resk, para o 350.org<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Um roteiro que trata dos dez anos da Pol\u00edtica Nacional sobre a Mudan\u00e7a do Clima \u00e0 Confer\u00eancia do Clima (COP-25) da ONU, em dezembro, com Carlos Rittl, do Observat\u00f3rio do Clima<\/p>\n<p>As quest\u00f5es clim\u00e1ticas ganham cada vez mais espa\u00e7o na agenda mundial e se ampliam nas vozes nas ruas e nas m\u00eddias sociais. Muitas quest\u00f5es surgem neste espa\u00e7o de democracia. No Brasil, a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2007-2010\/2009\/lei\/l12187.htm\">Pol\u00edtica Nacional sobre a Mudan\u00e7a do Clima<\/a>\u00a0completou uma d\u00e9cada, e qual \u00e9 o balan\u00e7o sobre sua implementa\u00e7\u00e3o e desafios pela frente? No cen\u00e1rio mundial, a humanidade enfrenta o desafio do avan\u00e7o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e do aquecimento global e das migra\u00e7\u00f5es que crescem em decorr\u00eancia do aumento dos eventos extremos. Tudo isto ser\u00e1 colocado na mesa de negocia\u00e7\u00f5es entre cerca de 200 pa\u00edses, incluindo o Brasil, na Confer\u00eancia das Partes da Conven\u00e7\u00e3o-Quadro das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre a Mudan\u00e7a do Clima (COP-25), de 2 a 13 de dezembro, em Madri, na Espanha. O que est\u00e1 sendo cobrado \u00e9 o \u201cmaior n\u00edvel de ambi\u00e7\u00e3o\u201d por parte das na\u00e7\u00f5es para o encaminhamento a economias de baixo carbono, conforme metas do Acordo de Paris, em 2015.\u00a0 Sobre este tema atual e futuro, o Doutor em Biologia e Recursos Naturais, Carlos Rittl, secret\u00e1rio-executivo do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.observatoriodoclima.eco.br\/\">Observat\u00f3rio do Clima (OC),<\/a>\u00a0concedeu a entrevista especial, desta semana, \u00e0 jornalista Sucena Shkrada Resk, da 350.org, no Brasil, que \u00e9 ONG observadora do OC.<\/p>\n<figure id=\"attachment_239064\" class=\"wp-caption alignleft\" aria-describedby=\"caption-attachment-239064\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-239064\" src=\"https:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/carlosrittl.jpg\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" srcset=\"https:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/carlosrittl.jpg 300w, https:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/carlosrittl-100x75.jpg 100w, https:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/carlosrittl-235x175.jpg 235w\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-239064\" class=\"wp-caption-text\">Carlos Rittl<\/figcaption><\/figure>\n<p>Confira a entrevista na \u00edntegra:<\/p>\n<p><b>350.org Brasil \u2013 A Pol\u00edtica Nacional sobre Mudan\u00e7a do Clima (Lei 12.187\/2009) completou uma d\u00e9cada. Qual a sua avalia\u00e7\u00e3o sobre a implementa\u00e7\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p><b>Carlos Rittl (Observat\u00f3rio do Clima)<\/b>\u00a0\u2013 Antes da institui\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica Nacional sobre Mudan\u00e7a do Clima havia sido criado o Plano Nacional das Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas. A pr\u00f3pria Pol\u00edtica j\u00e1 previa o plano e que haveria os planos setoriais econ\u00f4micos, como o plano ABC (Agricultura de Baixa Emiss\u00e3o de Carbono), da ind\u00fastria, da minera\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade, dos transportes de carga e log\u00edstica para mobilidade urbana. Em tese, todos estes planos setoriais deveriam ser incorporados, para que a gente tivesse um conjunto de a\u00e7\u00f5es coerentes com a proposta da pol\u00edtica. Na \u00e1rea de energia, ningu\u00e9m mexeu praticamente nos Planos Decenais de Energia (PDEs), porque gira muito recurso e infelizmente h\u00e1 muitos interesses pol\u00edticos e econ\u00f4micos, e tamb\u00e9m casos de corrup\u00e7\u00e3o. Em 2013, houve uma atualiza\u00e7\u00e3o do Plano Nacional sobre Mudan\u00e7a do Clima, mas de forma prec\u00e1ria. Foi realizada consulta p\u00fablica na internet, em um link com dif\u00edcil acesso, no site do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, com baix\u00edssimo n\u00edvel de participa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Governo fez a avalia\u00e7\u00e3o e n\u00e3o publicou a atualiza\u00e7\u00e3o, por isso, \u00e9 dif\u00edcil analisar a contento. Os planos setoriais foram implementados de formas diferentes pelos minist\u00e9rios, como o do Cerrado, que avan\u00e7ou um pouco at\u00e9 o ano passado. No geral, ficaram num desenho muito t\u00edmido, como alguns avan\u00e7os na \u00e1rea de transporte, com propostas de avalia\u00e7\u00e3o sobre as emiss\u00f5es das grandes obras de transporte e log\u00edstica at\u00e9 por volta de 2013, e em alguns setores industriais houve a discuss\u00e3o sobre mitiga\u00e7\u00e3o (redu\u00e7\u00e3o de danos). O ideal \u00e9 que avan\u00e7assem no sentido, por exemplo, de substitui\u00e7\u00e3o de modais. No caso da sa\u00fade p\u00fablica, seria muito importante haver empenho, porque as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas trazem um cen\u00e1rio de epidemias crescentes, doen\u00e7as gastro-int\u00e9ricas e aumento de custo no setor.<\/p>\n<p>Na minha avalia\u00e7\u00e3o, al\u00e9m do Cerrado, o \u00fanico plano que avan\u00e7ou um pouco foi o ABC. Deveria resultar em aumento de cr\u00e9dito agr\u00edcola para agricultura de baixo carbono. O que a gente viu de 2010 para c\u00e1, foi a diminui\u00e7\u00e3o cont\u00ednua do percentual de aplica\u00e7\u00e3o de recursos no Plano Safra, que neste ano tem a previs\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria mais baixa, de 0,9%.\u00a0 Fica dif\u00edcil avaliar na pr\u00e1tica o que houve de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es de GEEs e na produ\u00e7\u00e3o do setor.<\/p>\n<p><b>350.org Brasil \u2013 Neste contexto, de uma \u201cimplementa\u00e7\u00e3o t\u00edmida\u201d da Pol\u00edtica e do Plano sobre Mudan\u00e7as do Clima, qual o seu parecer sobre a quest\u00e3o do desmatamento, especialmente na Amaz\u00f4nia, e de legisla\u00e7\u00f5es como o C\u00f3digo Florestal (12.651\/2012), que se tornou mais permissivo. Quais s\u00e3o as perspectivas?<\/b><\/p>\n<p><b>Carlos Rittl \u2013<\/b>\u00a0Ao longo do tempo, se estabeleceu o Plano de Preven\u00e7\u00e3o contra o Desmatamento da Amaz\u00f4nia, entre 2004 e 2012 houve uma redu\u00e7\u00e3o significativa dos \u00edndices de desmatamento, e depois disso, uma flutua\u00e7\u00e3o. Havia algum tipo de empenho nas diferentes gest\u00f5es do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, mesmo com problemas existentes nos governos. Agora, vimos a explos\u00e3o em 2019 e tudo indica que nos leva a uma situa\u00e7\u00e3o pior no ano que vem. S\u00f3 no sistema de alerta do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.inpe.br\/\">Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)<\/a>,\u00a0a taxa oficial de desmate relativa ao per\u00edodo de agosto de 2018 a julho de 2019, foi de 9.762 km 2 na Amaz\u00f4nia, uma aumento de 29,5% em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo anterior. Entre setembro e outubro, que ser\u00e1 contabilizado no ano que vem, j\u00e1 soma mais de 4 mil km 2 desmatados.\u00a0A tend\u00eancia daqui para frente infelizmente \u00e9 conviver com taxas acima de 10 mil km 2. O sistema\u00a0<a href=\"https:\/\/www.obt.inpe.br\/OBT\/assuntos\/programas\/amazonia\/prodes\">Prodes<\/a>\/INPE de monitoramento do desmatamento da floresta amaz\u00f4nica por sat\u00e9lite detecta muito mais do que isso. O C\u00f3digo Florestal existe, mas na pr\u00e1tica est\u00e1 sendo completamente desrespeitado.<\/p>\n<p>Um total de 95% dos alertas de desmatamento indica que ocorrem de forma ilegal ou por falta de autoriza\u00e7\u00e3o, ou ocorrem em terra p\u00fablicas (unidades de conserva\u00e7\u00e3o e terra ind\u00edgenas), que n\u00e3o deveriam ser desmatadas. Diminuiu a fiscaliza\u00e7\u00e3o pelo Ibama, a aplica\u00e7\u00e3o de multas caiu 30% em 2019, o engavetamento de plano de preven\u00e7\u00e3o do desmatamento da Amaz\u00f4nia e do Cerrado e quase fim do Fundo Amaz\u00f4nia por tentativa de inger\u00eancia do ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, tudo isso coloca o C\u00f3digo Florestal \u00e0 margem.<\/p>\n<p>Produtores rurais que desmataram al\u00e9m dos limites t\u00eam que recompor florestas em reserva legal e \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o permanente. Muitos n\u00e3o est\u00e3o fazendo isso, na expectativa de mudan\u00e7as legais menos restritivas. Existe um projeto de lei do governo para acabar com a Reserva Legal, como outras iniciativas de prorroga\u00e7\u00e3o do prazo do Cadastro Ambiental Rural. O\u00a0Plano Nacional de Recupera\u00e7\u00e3o da Vegeta\u00e7\u00e3o Nativa (Planaveg), do MMA, que tem o objetivo de restaura\u00e7\u00e3o florestal, com o oferecimento de mudas, n\u00e3o est\u00e1 acontecendo. O Plano de Adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas tamb\u00e9m est\u00e1 parado na pasta.<\/p>\n<p><b>350.org Brasil \u2013 Com rela\u00e7\u00e3o aos combust\u00edveis f\u00f3sseis, qual \u00e9 a sua avalia\u00e7\u00e3o sobre o posicionamento do Brasil estar investindo no avan\u00e7o da explora\u00e7\u00e3o de g\u00e1s e petr\u00f3leo do Pr\u00e9-sal, nas licita\u00e7\u00f5es destes \u00faltimos anos, que ter\u00e3o continuidade em 2020?<\/b><\/p>\n<p><b>Carlos Rittl \u2013<\/b>\u00a0Alguns anos atr\u00e1s, a gente criticava as proje\u00e7\u00f5es nos PDEs. Desde a descoberta do Pr\u00e9-Sal, havia um discurso governamental de que iria ser a t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o para a educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade, como um passaporte ao primeiro mundo. N\u00f3s critic\u00e1vamos desde l\u00e1 esta proje\u00e7\u00e3o de investimentos em f\u00f3sseis, que foi aumentando. Agora, j\u00e1 s\u00e3o 77,6% na proje\u00e7\u00e3o para os pr\u00f3ximos 10 anos, percentual que avan\u00e7ou. Grande parte deste \u00f3leo e g\u00e1s deve ser destinada para exporta\u00e7\u00e3o e a gente parte do pressuposto de que o clima vai ter de comportar as emiss\u00f5es associadas \u00e0s produ\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo do Brasil, do Oriente M\u00e9dio, dos EUA e da \u00c1sia (com carv\u00e3o), e h\u00e1 a vis\u00e3o equivocada de achar que a atmosfera \u00e9 infinita, e n\u00e3o h\u00e1 comprometimentos nestas emiss\u00f5es de Gases de Efeito Estufa (GEEs). N\u00f3s j\u00e1 estamos passando por uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, com as energias renov\u00e1veis, em especial a energia fotovoltaica, entre outras, mas o processo \u00e9 lento.<\/p>\n<p>Aqui no Brasil, as principais fontes de emiss\u00f5es na \u00e1rea de energia v\u00eam do setor de transportes, devido ao consumo de gasolina e diesel. A gente n\u00e3o v\u00ea o mesmo esfor\u00e7o de investimento de substitui\u00e7\u00e3o de modais de rodovi\u00e1rios por ferrovi\u00e1rios, por exemplo. Hoje as ferrovias s\u00e3o mais destinadas ao transporte de cargas e n\u00e3o, para passageiros. Isso tende a crescer por causa do avan\u00e7o da explora\u00e7\u00e3o de min\u00e9rios.<\/p>\n<p>Num prazo m\u00e9dio de cinco a oito ano anos, a energia solar deve ser mais barata. Os pain\u00e9is solares ainda n\u00e3o s\u00e3o acess\u00edveis \u00e0s classes mais desfavorecidas.<\/p>\n<p>O investimento em \u00f3leo, g\u00e1s e carv\u00e3o mineral, este \u00faltimo acaba atendendo a um lobby principalmente no sul do Brasil, deve sofrer um desest\u00edmulo at\u00e9 2050. A demanda tende a ficar mais ociosa em f\u00f3sseis, e estes investimentos v\u00e3o acabar se transformando em grandes elefantes brancos. Estamos nos encaminhando para impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas de grande porte, que tamb\u00e9m ocasionar\u00e3o crises econ\u00f4micas e isto pressionar\u00e1 o encaminhamento para fontes mais limpas.<\/p>\n<p><b>Blog 350.org Brasil \u2013 Recentemente a Aneel colocou em consulta p\u00fablica uma proposta de\u00a0<\/b><b>ajuste regulat\u00f3rio para mini e micro gera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda de energia solar, o que infere maior taxa\u00e7\u00e3o? O que tem a dizer a respeito?<\/b><\/p>\n<p><b><\/b><b>Carlos Rittl<\/b>\u00a0\u2013 A e\u00f3lica se tornou competitiva com incentivos. A partir de 2009, come\u00e7aram a ser realizados leil\u00f5es competitivos e o setor tem gerado milhares de empregos, mesmo com a recess\u00e3o econ\u00f4mica. Quanto \u00e0 solar, as distribuidoras de energia tamb\u00e9m fazem lobby para que o consumidor n\u00e3o seja produtor de energia. Em anos recentes, alguns estados concederam isen\u00e7\u00e3o de ICMS. Esta eventual mudan\u00e7a que pode ocorrer nos incentivos, deixar\u00e1 o Brasil mais marginalizado. A Alemanha, EUA e China, estes dois \u00faltimos, que ainda s\u00e3o os maiores poluidores mundiais, t\u00eam um grande aporte de incentivos a renov\u00e1veis. Na \u00cdndia, por exemplo, h\u00e1 incentivo por microcr\u00e9dito a milhares de pessoas.<\/p>\n<p><b>350.org Brasil \u2013 No atual governo, houve a extin\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o de conselhos, com participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil, em todas as \u00e1reas, incluindo a de meio ambiente e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Um dos exemplos \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o significativa dos participantes no Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama). Como esta mudan\u00e7a na gest\u00e3o participativa pode influenciar as pol\u00edticas clim\u00e1ticas?<\/b><\/p>\n<p>Carlos Rittl \u2013 Sim. A Pol\u00edtica Nacional sobre a Mudan\u00e7a do Clima e os planos setoriais t\u00eam de ir muito al\u00e9m das inst\u00e2ncias de governo, incorporando academia e sociedade civil, entre outros segmentos. Trata-se de uma agenda de pa\u00eds, de Estado. A redu\u00e7\u00e3o destes espa\u00e7os de participa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma postura que afeta a democracia. O Conama foi praticamente extinto. Existia um processo democr\u00e1tico na sua forma\u00e7\u00e3o, com a participa\u00e7\u00e3o de diferentes organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, al\u00e9m da representa\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o p\u00fablica. Essas medidas diminuem a capacidade de incid\u00eancia da sociedade civil de forma organizada. Hoje a representatividade \u00e9 menor e o di\u00e1logo \u00e9 consequentemente menor. Para a atualiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e plano nacional sobre Mudan\u00e7a do clima, deveria continuar a haver tamb\u00e9m di\u00e1logo por diferentes setores, incluindo a Ci\u00eancia e Academia.<\/p>\n<p>Agora o F\u00f3rum Brasileiro de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas deveria continuar a ser este espa\u00e7o de interlocu\u00e7\u00e3o e hoje praticamente inexiste. Hoje a coordena\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem qualquer suporte do governo federal. Outro ponto cr\u00edtico \u00e9 que a governan\u00e7a clim\u00e1tica tamb\u00e9m foi dizimada neste ano, dentro da estrutura do governo federal. O objetivo desde comit\u00ea \u00e9 que a pol\u00edtica de clima fosse uma pol\u00edtica de desenvolvimento. Na estrutura do estado, a secretaria de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, no Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, por exemplo, foi extinta. Nada a substituiu. A agenda de clima no governo federal inexiste.<\/p>\n<p><b>350.org Brasil \u2013 Quais as constru\u00e7\u00f5es de cen\u00e1rios com as hip\u00f3teses cada vez mais presentes da savaniza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia do comprometimento dos demais biomas?<\/b><\/p>\n<p><b>Carlos Rittl<\/b>\u00a0\u2013 A tend\u00eancia \u00e9 de que a situa\u00e7\u00e3o seja cada vez mais desoladora, n\u00e3o s\u00f3 na Amaz\u00f4nia. A transforma\u00e7\u00e3o do Cerrado, com o plantio de soja, maci\u00e7amente\u00a0 na Matopiba. Tudo isso \u00e9 extremamente cr\u00edtico e foi acentuado com a revoga\u00e7\u00e3o no dia 6, do decreto\u00a06.961\/2009, que extingue o zoneamento ambiental da cana-de-a\u00e7\u00facar para a Amaz\u00f4nia e Pantanal.\u00a0Novos vetores est\u00e3o fazendo press\u00e3o, como a prorroga\u00e7\u00e3o do Zoneamento Agroecol\u00f3gico para o cultivo da cana-de-a\u00e7\u00facar na Amaz\u00f4nia, que se abre de forma indiscriminada. No Pantanal, \u00e1reas em que n\u00e3o h\u00e1 permiss\u00e3o, tendem a sofrer press\u00f5es. Outros processos s\u00e3o relacionados a projetos de lei que tramitam na \u00e1rea legislativa, como o novo c\u00f3digo de minera\u00e7\u00e3o, propostas de abertura de terras ind\u00edgenas para agropecu\u00e1ria. Tudo isso favorece o est\u00edmulo ao desmatamento. Os cen\u00e1rios tendem a ser os piores.<\/p>\n<p><b>350.org Brasil \u2013 E quanto \u00e0s proje\u00e7\u00f5es do aumento dos chamados refugiados clim\u00e1ticos ou migrantes em decorr\u00eancia no clima, um alerta dos estudos feitos pelo Painel Intergovernamental de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU)?<\/b><\/p>\n<p><b>Carlos Rittl<\/b>\u00a0\u2013 Existem historicamente no Brasil migra\u00e7\u00f5es do semi\u00e1rido para capitais do Nordeste ou ao sudeste e ao sul do Brasil, devido \u00e0s quest\u00f5es clim\u00e1ticas. J\u00e1 ocorrem migra\u00e7\u00f5es mais ao norte do Nordeste para estados da Amaz\u00f4nia e mais ao Sul do Nordeste tendem tamb\u00e9m a migrar mais. Estes ambientes devem se tornar \u00e1ridos e as pessoas n\u00e3o conseguir\u00e3o sobreviver sem \u00e1gua. No caso do Sudeste, isso vai levar \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o de ondas de migra\u00e7\u00f5es, do norte de Minas Gerais e parte do Esp\u00edrito Santo, por exemplo, a outras regi\u00f5es.<\/p>\n<p>Na costa brasileira, o problema \u00e9 de aumento do n\u00edvel do mar. Desde o arquip\u00e9lago do Maraj\u00f3 h\u00e1 um exemplo de vulnerabilidade. Em 2017, mais de 48% dos munic\u00edpios brasileiros, quase 2,7 mil sofreram com secas severas. E outras 1,7 mil sofreram com enchentes e alagamentos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). Riscos de estresse h\u00eddrico e alagamento aumentam nestes cen\u00e1rios.<\/p>\n<p>J\u00e1 recebemos migrantes de outros pa\u00edses, com instabilidades econ\u00f4micas, sociais e ambientais, fugindo da pobreza extrema. H\u00e1 a tend\u00eancia destes processos migrat\u00f3rios aumentarem. Com as nossas pol\u00edticas atuais, n\u00e3o h\u00e1 preparo para gerenciar estes riscos. O Plano Nacional de Adapta\u00e7\u00e3o est\u00e1 bem desenhado no papel, mas n\u00e3o implementado, pois est\u00e1 engavetado. A cidade do Recife, por exemplo, chegou a decretar emerg\u00eancia clim\u00e1tica. Isto demonstra a possibilidade de mudan\u00e7as de postura vindas das governan\u00e7as clim\u00e1ticas locais, algo importante a se destacar tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>350.org Brasil<\/strong>\u00a0<strong>\u2013 Nesta conjuntura, o Brasil ter\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de cumprir os compromissos firmados no Acordo de Paris, de 2015, que ser\u00e1 discutido em dezembro na COP-25, em Madri?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carlos Rittl<\/strong>\u00a0\u2013 Com\u00a0base nos dados do SEEG (Sistema de Estimativas de Emiss\u00f5es de Gases de Efeito Estufa), o\u00a0pa\u00eds n\u00e3o dever\u00e1 cumprir as metas para 2020, diante dos cen\u00e1rios atuais principalmente em rela\u00e7\u00e3o ao combate ao desmatamento da Amaz\u00f4nia e do Cerrado. Isso significa que\u00a0terminaria o ano que vem, com emiss\u00f5es de carbono 2,3% maiores do que o compromisso menos ambicioso da pol\u00edtica nacional, e 7% superiores ao compromisso mais ambicioso. Esses dados com base em dados de 2017, sem computar o desmatamento em 2018 e 2019.\u00a0O compromisso volunt\u00e1rio estabelecido, que foi ratificado aqui, foi\u00a0de chegar a 2020 com uma redu\u00e7\u00e3o suas emiss\u00f5es em 36,1% a 38,9% em rela\u00e7\u00e3o ao que emitiria se nada fosse feito.\u00a0Como n\u00e3o h\u00e1 estrat\u00e9gias em curso para esse combate, n\u00e3o deveremos atingir tamb\u00e9m as metas em 2025.<\/p>\n<blockquote><p><em><a href=\"https:\/\/www.mma.gov.br\/clima\/convencao-das-nacoes-unidas\/acordo-de-paris\">Compromisso firmado pelo Brasil no Acordo de Paris<br \/>\n<\/a>Reduzir as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa em 37% abaixo dos n\u00edveis de 2005, em 2025, com uma contribui\u00e7\u00e3o indicativa subsequente de reduzir as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa em 43% abaixo dos n\u00edveis de 2005, em 2030. Para isso, o pa\u00eds se comprometeu a aumentar a participa\u00e7\u00e3o de bioenergia sustent\u00e1vel na sua matriz energ\u00e9tica para aproximadamente 18% at\u00e9 2030, restaurar e reflorestar 12 milh\u00f5es de hectares de florestas, bem como alcan\u00e7ar uma participa\u00e7\u00e3o estimada de 45% de energias renov\u00e1veis na composi\u00e7\u00e3o da matriz energ\u00e9tica em 2030.<\/em><\/p>\n<p><em>Fonte: MMA<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>350.org Brasil \u2013 No contexto geopol\u00edtico, o Acordo de Paris tem chance de ser bem- sucedido?<br \/>\n<\/strong><br \/>\n<strong>Carlos Rittl<\/strong>\u00a0\u2013 O cen\u00e1rio \u00e9 dif\u00edcil. H\u00e1 muitos governos atrelados a lobbies fort\u00edssimos, como da ind\u00fastria f\u00f3ssil, que lidam com trilh\u00f5es de d\u00f3lares. Ao mesmo tempo o tema das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tem sido dominante como uma preocupa\u00e7\u00e3o que envolve a sociedade. Neste \u00faltimo ano, o movimento na rua crescente com os jovens como a Greta Thunberg, com o\u00a0<em>Fridays for Future,<\/em>\u00a0entre outros. Esta press\u00e3o tende a crescer, o que \u00e9 algo positivo. H\u00e1 lideran\u00e7as principalmente de pa\u00edses mais vulner\u00e1veis com metas mais ambiciosas. Em pa\u00edses desenvolvidos, movimentos de prefeitos e governadores com contraponto de retrocessos em algumas administra\u00e7\u00f5es, como a atual dos EUA. Temos de fazer com que os alertas cont\u00ednuos da Ci\u00eancia quanto ao perigo de as gera\u00e7\u00f5es futuras terem uma longevidade menor, no contexto do aumento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, sejam ampliados. Isto mexe com mudan\u00e7as abruptas nos padr\u00f5es da rela\u00e7\u00e3o e consumo.<\/p>\n<blockquote><p>Embora neste momento n\u00e3o sejamos t\u00e3o otimistas, devido ao retrocesso em diversos governos, vai chegar um momento em que os cientistas e jovens v\u00e3o dizer aos tomadores de decis\u00e3o \u2013 \u2018N\u00f3s avisamos. Se n\u00e3o agirem com mais rapidez, muitas pessoas perder\u00e3o suas vidas, os impactos econ\u00f4micos e no ecossistema, dos corais a florestas, ser\u00e3o catastr\u00f3ficos\u201d. Os temas ambientais, clim\u00e1ticos tendem a ter maior espa\u00e7o nos per\u00edodos de elei\u00e7\u00f5es. Isto \u00e9 um elemento positivo colocado \u00e0 mesa. O pior que pode acontecer \u00e9 chegar l\u00e1 na frente e dizer \u2013 \u2018teria dado tempo\u2019. Se n\u00e3o for por esses chamados dos cientistas e jovens, ent\u00e3o, ser\u00e1 por meio dos impactos dos eventos extremos.<\/p><\/blockquote>\n<h3>Sobre a 350.org e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/h3>\n<p>A 350.org \u00e9 um movimento global de pessoas que trabalham para acabar com a era dos combust\u00edveis f\u00f3sseis e construir um mundo de energias renov\u00e1veis e livres, lideradas pela comunidade e acess\u00edveis a todos. Nossas a\u00e7\u00f5es v\u00eam ao encontro de medidas que visem inibir a acelera\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas pela a\u00e7\u00e3o humana, que incluem a manuten\u00e7\u00e3o das florestas.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio, trabalha quest\u00f5es de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e luta contra os f\u00f3sseis junto \u00e0s comunidades ind\u00edgenas e outras comunidades tradicionais por meio do Programa 350 Ind\u00edgenas e vem refor\u00e7ando seu posicionamento em defesa das comunidades afetadas por meio da campanha\u00a0<a href=\"https:\/\/350.org\/pt\/defensores-do-clima\/\"><b>Defensores do Clima.<\/b><\/a>\u00a0Mais uma vertente das iniciativas apoiadas pela 350.org \u00e9 da conjuga\u00e7\u00e3o entre F\u00e9, Paz e Clima.<\/p>\n<p><strong><em>Sucena Shkrada Resk \u2013 jornalista ambiental, especialista em pol\u00edtica internacional, e meio ambiente e sociedade, \u00e9 digital organizer da 350.org Brasil<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Sucena Shkrada Resk, para o 350.org Um roteiro que trata dos dez anos da<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Por Sucena Shkrada Resk, para o 350.org Um roteiro que trata dos dez anos da","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/118170"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=118170"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/118170\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=118170"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=118170"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=118170"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}