{"id":11703,"date":"2014-12-05T15:00:44","date_gmt":"2014-12-05T15:00:44","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=11703"},"modified":"2014-12-05T11:25:58","modified_gmt":"2014-12-05T11:25:58","slug":"e-preciso-pensar-alternativas-para-evitar-a-escassez-dos-recursos-hidricos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/e-preciso-pensar-alternativas-para-evitar-a-escassez-dos-recursos-hidricos\/","title":{"rendered":"\u00c9 preciso pensar alternativas para evitar a escassez dos recursos h\u00eddricos"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/escassez_recursos_hidricos.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-11704\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/escassez_recursos_hidricos.jpg\" alt=\"\" width=\"415\" height=\"265\" \/><\/a>\u201cO problema do d\u00e9ficit h\u00eddrico acaba surgindo, porque naturalmente existe uma situa\u00e7\u00e3o de defici\u00eancia h\u00eddrica e, somado a isso, h\u00e1 um evento clim\u00e1tico extremo, o que faz com que esses problemas de certa forma se precipitem\u201d, afirma o engenheiro Javier Tomasella.<\/p>\n<p>\u201cA lei de \u00e1gua estabelece que o abastecimento humano \u00e9 priorit\u00e1rio\u201d, lembra Javier Tomasella ao comentar o acordo assinado entre os estados de S\u00e3o Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro para fazer a transposi\u00e7\u00e3o do Rio Para\u00edba do Sul, localizado nos tr\u00eas estados, a fim de resolver a crise de abastecimento h\u00eddrico na regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O engenheiro civil explica que, tecnicamente, se \u201cpegarmos a regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo e dividirmos pelo n\u00famero de habitantes, vamos notar que o d\u00e9ficit h\u00eddrico por habitante \u00e9 superior inclusive ao semi\u00e1rido brasileiro. Embora essa regi\u00e3o tenha certa oferta de recursos h\u00eddricos, o fato de a popula\u00e7\u00e3o estar concentrada na regi\u00e3o metropolitana faz com que a disponibilidade efetiva de \u00e1gua por habitante seja muito baixa. Ent\u00e3o, tem uma situa\u00e7\u00e3o de d\u00e9ficit h\u00eddrico que obriga importar \u00e1gua de outras bacias\u201d.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o dele, a transposi\u00e7\u00e3o do Rio Para\u00edba do Sul ter\u00e1 impactos, porque toda obra hidr\u00e1ulica gera implica\u00e7\u00f5es ambientais. Contudo, n\u00e3o se pode comparar essa transposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00eamica transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco. \u201cO que est\u00e1 projetado \u00e9 uma pequena fra\u00e7\u00e3o. \u00c9 bom dizer que moro no munic\u00edpio de Cachoeira Paulista, na Bacia do Para\u00edba do Sul, h\u00e1 mais de 20 anos; de certa forma sou parte do ecossistema. O que tem de ser pensado \u00e9 quanto cinco metros c\u00fabicos de \u00e1gua significam em termos de vaz\u00e3o do Rio Para\u00edba. O governo est\u00e1 falando em extrair ou desviar uma fra\u00e7\u00e3o relativamente pequena de \u00e1gua. S\u00e3o apenas cinco metros sobre duzentos\u201d, pontua, na entrevista a seguir, concedida \u00e0 IHU On-Line por telefone.<\/p>\n<p>Independente de a transposi\u00e7\u00e3o ser feita, Tomasella sugere que um conjunto de medidas seja realizado. Uma das medidas diz respeito ao uso e re\u00faso da \u00e1gua. \u201cMuito se fala, na esfera acad\u00eamica, sobre a necessidade de re\u00faso, mas na pr\u00e1tica n\u00f3s vemos que os munic\u00edpios utilizam muito pouco esse tipo de t\u00e9cnica. Logo, essa quest\u00e3o de uso e re\u00faso n\u00e3o tem sido muito explorada, embora na Europa e nos Estados Unidos seja frequentemente comum. Al\u00e9m disso, a cultura brasileira \u00e9 de que a \u00e1gua \u00e9 um recurso infinito e abundante, mas essa vis\u00e3o precisa ser revista\u201d, frisa. Outro ponto que deve ser analisado \u00e9 a infraestrutura, por conta da perda de \u00e1gua. \u201cCalcula-se que as perdas variam de 30 a 50% da \u00e1gua tratada, e essa \u00e9 uma quest\u00e3o que precisa ser corrigida\u201d. E acrescenta: \u201cO tratamento do esgoto \u00e9 o primeiro passo para garantir a qualidade da \u00e1gua. N\u00e3o adianta dizer \u2018vai faltar \u00e1gua\u2019, mas n\u00e3o cuidar do pouco que se tem\u201d.<\/p>\n<p>Javier Tomasella \u00e9 graduado em Engenharia de Recursos H\u00eddricos pela Universidad Nacional Del Litoral, na Argentina, mestre e doutor em Engenharia Civil pelo Instituto de Pesquisas Hidr\u00e1ulicas. Atualmente \u00e9 tecnologista do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, onde realiza atividades de pesquisa e desenvolvimento.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como o senhor recebeu a not\u00edcia de que os governos de S\u00e3o Paulo, Rio e Minas firmam acordo sobre transposi\u00e7\u00e3o da bacia do Para\u00edba do Sul? Do ponto de vista da engenharia civil hidr\u00e1ulica, qual \u00e9 a viabilidade desta obra?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Javier Tomasella \u2013<\/strong> De fato, n\u00e3o foi surpresa, uma vez que a lei de \u00e1gua estabelece que o abastecimento humano \u00e9 priorit\u00e1rio. De uma maneira t\u00e9cnica, se pegarmos a regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo e dividirmos pelo n\u00famero de habitantes, vamos notar que o d\u00e9ficit h\u00eddrico por habitante \u00e9 superior inclusive ao semi\u00e1rido brasileiro. Embora essa regi\u00e3o tenha certa oferta de recursos h\u00eddricos, o fato de a popula\u00e7\u00e3o estar concentrada na regi\u00e3o metropolitana faz com que a disponibilidade efetiva de \u00e1gua por habitante seja muito baixa. Ent\u00e3o, tem uma situa\u00e7\u00e3o de d\u00e9ficit h\u00eddrico que obriga importar \u00e1gua de outras bacias.<\/p>\n<p>O que precipita esse problema \u00e9 o fato de o Sudeste ter passado por uma seca hist\u00f3rica \u2014 h\u00e1 registros que falam na pior seca dos \u00faltimos 80 anos \u2014 e \u00e9 evidente que diante dessa situa\u00e7\u00e3o o problema do d\u00e9ficit h\u00eddrico acaba surgindo, porque naturalmente existe uma situa\u00e7\u00e3o de defici\u00eancia h\u00eddrica e, somado a isso, h\u00e1 um evento clim\u00e1tico extremo, o que faz com que esses problemas de certa forma se precipitem.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 A transposi\u00e7\u00e3o resolver\u00e1 o d\u00e9ficit h\u00eddrico? Essa \u00e9 a melhor alternativa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Javier Tomasella \u2013<\/strong> V\u00e1rias medidas t\u00e9cnicas podem ser atacadas conjuntamente. Uma delas \u00e9 o uso e re\u00faso da \u00e1gua, que no Brasil ainda \u00e9 pouco feito. Basicamente se trata o esgoto e se reutiliza o recurso h\u00eddrico. Muito se fala, na esfera acad\u00eamica, sobre a necessidade de re\u00faso, mas na pr\u00e1tica n\u00f3s vemos que os munic\u00edpios utilizam muito pouco esse tipo de t\u00e9cnica. Logo, essa quest\u00e3o de uso e re\u00faso n\u00e3o tem sido muito explorada, embora na Europa e nos Estados Unidos seja comum. Al\u00e9m disso, a cultura brasileira \u00e9 de que a \u00e1gua \u00e9 um recurso infinito e abundante, mas essa vis\u00e3o precisa ser revista. At\u00e9 tenho uma ideia de como realmente fazer um processo educativo para as pessoas entenderem a necessidade de usar racionalmente a \u00e1gua. Tamb\u00e9m temos quest\u00f5es de infraestrutura, basicamente perdas na pr\u00f3pria rede de condu\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, na rede de abastecimento. Calcula-se que as perdas variam de 30 a 50% da \u00e1gua tratada, e essa \u00e9 uma quest\u00e3o que precisa ser corrigida; n\u00e3o adianta ficar s\u00f3 atacando. E, claro que, finalmente, a quest\u00e3o da transposi\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m uma solu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, mas uma quest\u00e3o t\u00e9cnica que deve ser utilizada, uma vez que n\u00e3o pode faltar \u00e1gua na regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo. Essa para mim \u00e9 uma premissa b\u00e1sica.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Quais s\u00e3o as implica\u00e7\u00f5es da transposi\u00e7\u00e3o especificamente para a bacia do Para\u00edba do Sul?<\/p>\n<p>Javier Tomasella \u2013 O que est\u00e1 projetado \u00e9 uma pequena fra\u00e7\u00e3o. \u00c9 bom dizer que moro no munic\u00edpio de Cachoeira Paulista, na Bacia do Para\u00edba do Sul, h\u00e1 mais de 20 anos; de certa forma sou parte do ecossistema. O que tem de ser pensado \u00e9 quanto cinco metros c\u00fabicos de \u00e1gua significam em termos de vaz\u00e3o do Rio Para\u00edba. O governo est\u00e1 falando em extrair ou desviar uma fra\u00e7\u00e3o relativamente pequena de \u00e1gua. S\u00e3o apenas cinco metros sobre duzentos.<\/p>\n<p>A transposi\u00e7\u00e3o feita no Rio de Janeiro com o desvio para o sistema Guandu foi algo em torno de 100 ou 150 metros c\u00fabicos por segundo. Nesse sentido, se \u00e9 para colocar em perspectiva uma transposi\u00e7\u00e3o e outra, a do Guandu \u00e9 realmente muito mais impactante sobre o Rio Para\u00edba. S\u00f3 que essa transposi\u00e7\u00e3o foi feita em outra \u00e9poca, quando as quest\u00f5es ambientais n\u00e3o eram motivo de preocupa\u00e7\u00e3o como s\u00e3o hoje em dia.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que como a bacia tem usos m\u00faltiplos, a transposi\u00e7\u00e3o ter\u00e1 algum impacto, inclusive em uma pequena queda na gera\u00e7\u00e3o de energia, e essa \u00e9 uma quest\u00e3o que ainda n\u00e3o foi analisada.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/9934_regiao.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-126084\" title=\"\u00c9 preciso pensar alternativas para evitar a escassez dos recursos h\u00eddricos\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/9934_regiao.jpg\" alt=\"9934 regiao \u00c9 preciso pensar alternativas para evitar a escassez dos recursos h\u00eddricos\" width=\"580\" height=\"379\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 J\u00e1 existem estudos ambientais sobre como fazer a transposi\u00e7\u00e3o? Que estudos deveriam ser feitos antes da transposi\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Javier Tomasella \u2013<\/strong> N\u00e3o conhe\u00e7o em detalhe o projeto para saber como a quest\u00e3o ambiental foi tratada; desconhe\u00e7o esse estudo, se \u00e9 que ele existe. Mas imagino que a lei ambiental j\u00e1 estabelece uma s\u00e9rie de requisitos e o governo do estado de S\u00e3o Paulo tem de atender a esses requisitos para realmente fazer esse tipo de obra. Mas, de um modo geral, existem outras medidas que temos de pensar, como, por exemplo, se h\u00e1 outro uso priorit\u00e1rio na regi\u00e3o da bacia do Para\u00edba. Ou seja, nessa bacia se planta arroz irrigado, porque \u00e9 uma cultura que tem a ver com a tradi\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m observamos uma grande expans\u00e3o do plantio de eucalipto. Ent\u00e3o, se a \u00e1gua se tornou uma quest\u00e3o estrat\u00e9gica por causa do Rio de Janeiro, por causa da regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo, uma coisa que poderia se pensar \u00e9 como n\u00f3s tratamos o uso do solo dentro da Bacia do Para\u00edba.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou dizendo que deve ser feito isso ou aquilo, mas que pelo menos devem ser discutidos os poss\u00edveis impactos de determinados usos, j\u00e1 que a regi\u00e3o \u00e9 altamente industrializada. Cito o exemplo do arroz porque, se colocarmos no contexto do Mato Grosso e do Rio Grande do Sul, por exemplo, que s\u00e3o grandes produtores de arroz, a quantidade de arroz que se produz na regi\u00e3o do Para\u00edba \u00e9 muito pouco significativa e n\u00e3o tem nenhum impacto sobre a produ\u00e7\u00e3o nacional. Ent\u00e3o, \u00e9 o caso de rever como deve ser utilizada a bacia do Para\u00edba.<\/p>\n<p>O projeto de transposi\u00e7\u00e3o est\u00e1 discutindo cinco metros c\u00fabicos por segundo, mas de repente uma mudan\u00e7a na terra dentro da bacia faz com que os cinco metros c\u00fabicos que ser\u00e3o desviados sejam facilmente recuperados. Ent\u00e3o, sempre existem pr\u00f3s e contras e \u00e9 preciso pensar como \u00e9 poss\u00edvel compensar certa quantidade de \u00e1gua que se perde.<\/p>\n<p>Voltando para a quest\u00e3o do uso, que para mim \u00e9 muito importante, tem de se pensar na tarifa d\u2019\u00e1gua. O problema \u00e9 que sempre h\u00e1 aquele aspecto pol\u00edtico toda vez que vem essa quest\u00e3o do uso racional da \u00e1gua \u2014 para evitar a palavra racionamento, que virou um palavr\u00e3o nas ultimas elei\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o, se n\u00f3s percebemos que daqui para frente haver\u00e1 com mais frequ\u00eancia eventos extremos \u2014 cheias, estiagens \u2014, temos de pensar em estrat\u00e9gias futuras, como, por exemplo, a implanta\u00e7\u00e3o da bandeira tarif\u00e1ria. O que isso significa? No per\u00edodo em que falta \u00e1gua, a gera\u00e7\u00e3o de energia hidrel\u00e9trica diminui por conta da menor disponibilidade de \u00e1gua nos reservat\u00f3rios, e para compensar isso \u00e9 necess\u00e1rio aumentar a participa\u00e7\u00e3o das t\u00e9rmicas na gera\u00e7\u00e3o total de energia. Ent\u00e3o, o que est\u00e1 sendo implantado \u00e9 uma esp\u00e9cie de bandeira tarif\u00e1ria.<\/p>\n<p>Esse princ\u00edpio de bandeira tarif\u00e1ria poderia ser aplicado automaticamente tamb\u00e9m para o consumo de \u00e1gua. Agora, se tiv\u00e9ssemos uma lei federal sobre isso, dizendo que se a disponibilidade de \u00e1gua cair \u201cx\u201d \u00e9 poss\u00edvel aplicar uma bandeira tarif\u00e1ria, de certa forma tratar\u00edamos a quest\u00e3o da falta d\u2019\u00e1gua tecnicamente e a bandeira tarif\u00e1ria se aplicaria quase que automaticamente. Essa seria uma forma de evitar esse enorme desgaste em torno do aumento da tarifa por diversas raz\u00f5es. Se esse tipo de situa\u00e7\u00e3o de estiagem estivesse previsto por lei, seria muito mais f\u00e1cil resolver a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Calif\u00f3rnia, que \u00e9 uma regi\u00e3o que episodicamente sofre estiagem, esse mecanismo j\u00e1 existe; por isso \u00e9 uma sugest\u00e3o para o Brasil. N\u00e3o \u00e9 uma proposta popular, mas n\u00f3s temos de propor tecnicamente o que poderia ser uma solu\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, de certa forma, esse tipo de mecanismo tarif\u00e1rio aumentaria a conscientiza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o sobre a necessidade de se poupar \u00e1gua em per\u00edodos extremamente cr\u00edticos que podem se apresentar e podem se repetir no futuro.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 A transposi\u00e7\u00e3o poder\u00e1 causar algum impacto nos demais estados por onde passa o rio Para\u00edba, como S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Javier Tomasella \u2013<\/strong> Eu n\u00e3o tenho os c\u00e1lculos exatos, mas a quantidade que est\u00e1 sendo desviada \u00e9 pouco significativa para justificar impactos. O impacto maior seria no Rio de Janeiro, n\u00e3o em Minas Gerais, porque Minas de certa forma \u00e9 cabeceira da bacia do Para\u00edba, por isso o efeito da transposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o teria impacto significativo. E no Rio de Janeiro o impacto seria muito pequeno. Por outro lado, o Rio tamb\u00e9m precisa fazer seu dever de casa. O desvio de \u00e1gua que se faz no Guandu est\u00e1 relacionado, em parte, \u00e0 falta de tratamento de esgoto nos munic\u00edpios que ficam no sistema Guandu, e por isso \u00e9 necess\u00e1rio, de certa forma, ajudar a diluir e reduzir o custo do tratamento.<\/p>\n<p>Se olharmos a quest\u00e3o de tratamento de esgoto em todos os estados do pa\u00eds, vemos que ainda h\u00e1 uma defici\u00eancia muito grande neste aspecto. Nesse sentido, a melhor forma de preservar os recursos h\u00eddricos \u00e9 preservar a qualidade deles. E, nesse aspecto, a maioria dos munic\u00edpios n\u00e3o faz o dever de casa.<\/p>\n<p>No Vale do Para\u00edba Paulista, que acompanho, houve um avan\u00e7o muito significativo no tratamento de \u00e1gua. V\u00e1rios munic\u00edpios j\u00e1 est\u00e3o com 100% de esgoto tratado, e h\u00e1 outros munic\u00edpios que ainda est\u00e3o com 70-80% de esgoto tratado, mas o tratamento do esgoto \u00e9 o primeiro passo para garantir a qualidade da \u00e1gua. N\u00e3o adianta dizer \u201cvai faltar \u00e1gua\u201d, mas n\u00e3o cuidar do pouco que se tem.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Ou fazer a transposi\u00e7\u00e3o e depois n\u00e3o aplicar outras medidas.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Javier Tomasella \u2013<\/strong> Exatamente. Tem de haver o resgate da bacia como um todo, e pensar alternativas para ver como a bacia pode ser recuperada. Esse \u00e9 um tipo de discuss\u00e3o que tamb\u00e9m existe na bacia do S\u00e3o Francisco. A priori n\u00e3o se cuida como a bacia est\u00e1 sendo utilizada e, no caso do Rio Para\u00edba, n\u00e3o est\u00e1 se dando toda aten\u00e7\u00e3o que merece, j\u00e1 que uma parcela significativa do PIB nacional se localiza nessa regi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 A transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco est\u00e1 sendo realizada desde 2008. \u00c9 poss\u00edvel estimar qual ser\u00e1 o tempo estimado para realizar a transposi\u00e7\u00e3o do Rio Para\u00edba Sul?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Javier Tomasella \u2013<\/strong> Falou-se que a transposi\u00e7\u00e3o seria realizada em dois anos, com um custo de 500 milh\u00f5es de reais. \u00c9 preciso entender que essa obra \u00e9 muito menor e menos complexa do que a obra de transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco e relativamente muito mais simples, at\u00e9 porque a separa\u00e7\u00e3o dos reservat\u00f3rios \u00e9 em torno de 15 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Ent\u00e3o, as propor\u00e7\u00f5es entre uma obra e outra s\u00e3o muito diferentes, s\u00e3o obras de uma dimens\u00e3o completamente contrastante.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Em que consiste seu projeto de pesquisa de desenvolver um sistema de previs\u00e3o de enxurradas, inunda\u00e7\u00f5es e movimentos de massa em encostas a fim de prevenir desastres naturais? J\u00e1 existem projetos desse tipo em desenvolvimento e em atua\u00e7\u00e3o no Brasil? \u00c9 poss\u00edvel comprovar a efic\u00e1cia deles?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Javier Tomasella \u2013<\/strong> Quando n\u00f3s olhamos o n\u00famero de mortes no pa\u00eds em decorr\u00eancia de desastres naturais, vemos que \u00e9 um n\u00famero muito significativo. Claro que h\u00e1 epis\u00f3dios como o que aconteceu na regi\u00e3o serrana do Rio de Janeiro, ou mesmo no Nordeste, em que realmente a destrui\u00e7\u00e3o e o n\u00famero de fatalidades s\u00e3o muito significativos. Portanto, a ideia que se tinha com essa iniciativa era tentar utilizar ferramentas de previs\u00e3o que, de alguma forma, alertassem a ocorr\u00eancia de determinado fen\u00f4meno, porque tanto deslizamento quanto enxurradas est\u00e3o mais associados ao n\u00famero de fatalidades. As cheias que s\u00e3o graduais, aquelas que ocorrem quando o rio sobe e desce mais suavemente, produzem um n\u00famero maior de perdas materiais e afetam, percentualmente, uma popula\u00e7\u00e3o maior, mas normalmente n\u00e3o est\u00e3o associadas a um n\u00famero grande de mortes, por causa da caracter\u00edstica e da din\u00e2mica do fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a ideia era tentar estudar de que forma e que ferramentas podem ser utilizadas para antecipar esse tipo de evento. N\u00f3s estamos com duas linhas b\u00e1sicas. Uma linha tem como objetivo tentar apoiar a instrumenta\u00e7\u00e3o de uma rede de monitoramento com o foco em bacias de pequeno porte, porque normalmente as enxurradas est\u00e3o associadas a bacias de menor \u00e1rea de drenagem e com maior declividade. Esse tipo de bacia \u00e9 que tem as cheias mais abruptas, que s\u00e3o as enxurradas. A ideia era estabelecer uma rede de monitoramento, j\u00e1 que esse tipo de bacia normalmente n\u00e3o \u00e9 monitorado, porque a l\u00f3gica da pr\u00f3pria rede era monitorar bacias de grande porte por conta do potencial hidrel\u00e9trico. Ent\u00e3o, as bacias de pequeno porte no pa\u00eds ainda s\u00e3o mal monitoradas. Assim, por um lado, tentamos estabelecer essa rede para come\u00e7armos a entender como esses fen\u00f4menos ocorrem para que tiv\u00e9ssemos informa\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas que nos permitam testar certo tipo de ferramenta para conseguir maior ou menor antecipa\u00e7\u00e3o na emiss\u00e3o de alertas para esse tipo de evento.<\/p>\n<p>N\u00f3s estamos criando uma rede de 115 esta\u00e7\u00f5es em v\u00e1rios estados do pa\u00eds, especialmente concentradas na faixa leste do Brasil, onde est\u00e3o as regi\u00f5es mais vulner\u00e1veis. Tamb\u00e9m estamos explorando ferramentas de previs\u00e3o usando modelos matem\u00e1ticos. Criamos uma \u00e1rea piloto em Campos do Jord\u00e3o, e a ideia era, com diferentes sensores, ver qual o mais adequado para monitorar encostas e com isso permitir que, posteriormente, sejam realizadas a\u00e7\u00f5es de evacua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Deseja acrescentar algo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Javier Tomasella \u2013<\/strong> Parece que houve uma discuss\u00e3o muito mais apaixonada sobre essas quest\u00f5es da transposi\u00e7\u00e3o, mas sem pensar muito tecnicamente o que poderia ter sido feito. Essas quest\u00f5es de \u00e1gua sempre trazem \u2013 do mesmo jeito que a transposi\u00e7\u00e3o do S\u00e3o Francisco \u2013 paix\u00f5es muito fortes, e \u00e0s vezes as solu\u00e7\u00f5es precisam ser melhor estudadas tecnicamente para evitar que haja uma confus\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o a esse tipo de informa\u00e7\u00e3o. Se eventos extremos se tornarem mais frequentes no pa\u00eds, \u00e9 importante dizer que esse tipo de solu\u00e7\u00e3o da engenharia pode se tornar mais frequente do que esperamos. Ent\u00e3o \u00e9 melhor desmistificar: qualquer obra de engenharia, qualquer barragem, tem um impacto. N\u00e3o adianta imaginar que qualquer obra de engenharia s\u00f3 traz benef\u00edcios; trata-se sempre de um compromisso entre as vantagens e desvantagens em qualquer obra de interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO problema do d\u00e9ficit h\u00eddrico acaba surgindo, porque naturalmente existe uma situa\u00e7\u00e3o de defici\u00eancia h\u00eddrica<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11704,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/escassez_recursos_hidricos.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/escassez_recursos_hidricos.jpg",150,96,false],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/escassez_recursos_hidricos.jpg",300,192,false],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/escassez_recursos_hidricos.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/escassez_recursos_hidricos.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/escassez_recursos_hidricos.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/escassez_recursos_hidricos.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/escassez_recursos_hidricos.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/escassez_recursos_hidricos.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/escassez_recursos_hidricos.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"\u201cO problema do d\u00e9ficit h\u00eddrico acaba surgindo, porque naturalmente existe uma situa\u00e7\u00e3o de defici\u00eancia h\u00eddrica","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11703"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11703"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11703\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11704"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11703"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11703"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11703"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}