{"id":11233,"date":"2014-11-27T10:51:03","date_gmt":"2014-11-27T10:51:03","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=11233"},"modified":"2014-11-27T10:56:49","modified_gmt":"2014-11-27T10:56:49","slug":"desmatamento-na-amazonia-e-as-secas-da-regiao-sudeste-nao-tem-ligacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/desmatamento-na-amazonia-e-as-secas-da-regiao-sudeste-nao-tem-ligacao\/","title":{"rendered":"Desmatamento na Amaz\u00f4nia e as secas da Regi\u00e3o Sudeste n\u00e3o tem liga\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/seca_sp1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-11234\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/seca_sp1.jpg\" alt=\"\" width=\"415\" height=\"265\" \/><\/a>A afirma\u00e7\u00e3o de que as secas da Regi\u00e3o Sudeste est\u00e3o sendo causadas pelo desmatamento da Amaz\u00f4nia \u00e9 leviana, n\u00e3o tem base cient\u00edfica, pois n\u00e3o sobrevive a uma an\u00e1lise de dados clim\u00e1ticos, al\u00e9m de ser contr\u00e1ria ao bom senso. A anomalia clim\u00e1tica pela qual S\u00e3o Paulo est\u00e1 passando \u00e9 decorrente da variabilidade natural do clima e j\u00e1 ocorreu, at\u00e9 com intensidade maior, no passado. O gr\u00e1fico abaixo representa a varia\u00e7\u00e3o dos desvios de precipita\u00e7\u00e3o padronizados para a Esta\u00e7\u00e3o da Luz, no centro da capital paulista, que tem dados observados de chuva desde 1888. Nesse gr\u00e1fico, notam-se desvios fortemente negativos em anos como 1933 e 1936, e na d\u00e9cada dos anos 1960, como 1963, 1968 e 1969. S\u00e9ries de precipita\u00e7\u00e3o mais curtas, a partir dos anos 1950, tamb\u00e9m registram as secas da d\u00e9cada de 1960 que afetou a Regi\u00e3o Sudeste. Ou seja, a Regi\u00e3o j\u00e1 esteve submetida a secas severas no passado quando o desmatamento da Amaz\u00f4nia era incipiente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-1041\" src=\"https:\/\/agfdag.files.wordpress.com\/2014\/11\/molion-f6.png?w=480&amp;h=299\" alt=\"Chuvas - Esta\u00e7\u00e3o da Luz\" width=\"640\" height=\"499\" \/><\/p>\n<p>Chuvas &#8211; Esta\u00e7\u00e3o da Luz<\/p>\n<p>A floresta est\u00e1 l\u00e1 porque as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas globais, notadamente o transporte de umidade vindo do Oceano Atl\u00e2ntico Norte, criam as condi\u00e7\u00f5es prop\u00edcias para que ela exista. \u00c9 claro que, ap\u00f3s a instala\u00e7\u00e3o da floresta, h\u00e1 complexos mecanismos de intera\u00e7\u00e3o floresta-atmosfera que tornam o clima local mais \u00famido. Antes do soerguimento dos Andes a 70 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, a floresta n\u00e3o existia como ela \u00e9 vista hoje. E no pico da \u00faltima era glacial, h\u00e1 15 mil anos, h\u00e1 evid\u00eancias que tamb\u00e9m n\u00e3o existia uma floresta extensa e cont\u00ednua, mas apenas algumas \u201cilhas de vegeta\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201cref\u00fagios\u201d na denomina\u00e7\u00e3o de Aziz Ab\u2019Saber e Paulo Vanzolini. Portanto, \u00e9 o clima global atual que permite a exist\u00eancia da floresta extensa e cont\u00ednua, como observada modernamente, e n\u00e3o o contr\u00e1rio!<\/p>\n<p>A umidade para as chuvas do Sudeste n\u00e3o \u00e9 produzida na Amaz\u00f4nia. Ela vem do Oceano Atl\u00e2ntico Norte e, notem, apenas passa sobre a Amaz\u00f4nia e interage com a floresta. Como essa floresta produz atrito ao escoamento do ar que sai do oceano [como um carrinho el\u00e9trico que passa da cer\u00e2mica (superf\u00edcie lisa) para cima de um tapete (superf\u00edcie rugoso)], essa rugosidade cria intensa turbul\u00eancia vertical e nuvens convectivas que convertem mais eficientemente parte da umidade transportada pelos ventos em chuva. O restante do fluxo de umidade oce\u00e2nica segue seu caminho para fora da Regi\u00e3o. Afirma\u00e7\u00e3o que \u201cuma \u00e1rvore cuja copa tenha 10 metros de raio, fornece mil litros de \u00e1gua por dia para a atmosfera\u201d, tem o objetivo de sensibilizar o p\u00fablico leigo e usa, de forma inadvertida, resultados, por exemplo, obtidos no Experimento Micrometeorol\u00f3gico na Amaz\u00f4nia (ARME), organizado e dirigido por n\u00f3s na d\u00e9cada dos anos 1980 na Amaz\u00f4nia Central pr\u00f3ximo a Manaus.<\/p>\n<p>No ARME, conclu\u00edmos que a evapotranspira\u00e7\u00e3o [evapora\u00e7\u00e3o + transpira\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o] injetava na atmosfera 3,4 mm por dia, ou 3,4 litros de \u00e1gua por metro quadrado por dia [l\/m2\/d], um n\u00famero bem inferior ao que era tido como verdadeiro na \u00e9poca. Ora, um c\u00edrculo de 10 metros de raio possui uma \u00e1rea de cerca de 300 metros quadrados que, multiplicada pela taxa de evapotranspira\u00e7\u00e3o acima, de 3,4 l\/m2\/d, resulta em 1000 litros por dia. A pergunta que cabe aqui \u00e9 de onde essa tal \u00e1rvore retirou a umidade que est\u00e1 transferindo para a atmosfera? E a resposta \u00f3bvia \u00e9 \u201ca umidade foi retirada da chuva que se infiltrou no solo\u201d.<\/p>\n<p>Sabe-se que 98% a 99% da umidade que a vegeta\u00e7\u00e3o retira do solo s\u00e3o utilizados apenas para manter baixa a temperatura de sua folhagem por meio do processo f\u00edsico de vaporiza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, que consome grandes quantidades de energia solar e refrigera a folhagem. Se a evapora\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorresse, a temperatura da folhagem poderia atingir valores superiores a 34-35 \u00b0C e danificaria os tecidos da folhagem severamente, ou seja, a floreta n\u00e3o sobreviveria. Portanto, apenas 1% a 2% da \u00e1gua retirada do solo ficam incorporados nas \u00e1rvores.<\/p>\n<p>A floresta n\u00e3o \u00e9 fonte de umidade, ela \u00e9 apenas um transdutor da \u00e1gua da chuva, que \u00e9 derivada do fluxo de umidade oce\u00e2nica transportado pelos ventos para dentro do continente. A floresta recicla 98% a 99% da \u00e1gua da chuva, devolvendo-a para o escoamento atmosf\u00e9rico que a transporta para outras regi\u00f5es do pa\u00eds. Na eventual hip\u00f3tese absurda de se desmatar completamente a Amaz\u00f4nia, a rugosidade da floresta deixaria de existir, choveria menos na Amaz\u00f4nia e, pode se dizer, um fluxo de umidade um pouquinho maior do que o atual seria transportado para o Sudeste, possivelmente aumentando suas chuvas.<\/p>\n<p>\u00c9 fato observado e incontest\u00e1vel que \u00e1reas dentro da pr\u00f3pria Amaz\u00f4nia e ao sul da mesma apresentam uma esta\u00e7\u00e3o seca bem definida ao longo do ano. No Centro Oeste e Sudeste, por exemplo, a esta\u00e7\u00e3o seca chega a ser de seis meses, notadamente entre abril e setembro. Por que n\u00e3o chove nessas regi\u00f5es se a floresta est\u00e1 em pleno funcionamento e transferindo umidade para o ar? \u00c9 porque o clima global n\u00e3o permite a umidade existente na superf\u00edcie seja convertida em chuva regionalmente. Durante a esta\u00e7\u00e3o seca, e em anos de seca, essas regi\u00f5es est\u00e3o sobre o dom\u00ednio de um sistema de alta press\u00e3o atmosf\u00e9rica de milhares de quil\u00f4metros de extens\u00e3o e a invers\u00e3o t\u00e9rmica associada a ele e existente a cerca de 2 km de altura, inibe a forma\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento de nuvens de chuva.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do ciclo anual, o clima do Brasil apresenta variabilidade interanual decorrente de fen\u00f4menos de escala global como os eventos El Ni\u00f1o que, afirma-se, produzem secas severas sobre a Amaz\u00f4nia, mesmo com toda umidade que, em princ\u00edpio, seria fornecida pela floresta. Em adi\u00e7\u00e3o, existe uma variabilidade clim\u00e1tica na escala decadal resultante da variabilidade da temperatura da superf\u00edcie (TSM) dos Oceanos Pac\u00edfico e Atl\u00e2ntico que, juntos, ocupam 54% da superf\u00edcie do planeta. Durante o per\u00edodo que o Pac\u00edfico Tropical ficou, em m\u00e9dia, ligeiramente mais frio, entre 1946 e 1976, chovia 10% a 20% a menos no pa\u00eds de maneira geral. Isso porque a atmosfera [e, como consequ\u00eancia, o clima] \u00e9 aquecida por baixo, o ar se aquece em contato com a superf\u00edcie.<\/p>\n<p>Se as TSM ficam mais frias, o clima tamb\u00e9m se resfria, a evapora\u00e7\u00e3o dos oceanos se reduz, o transporte do fluxo de umidade para cima dos continentes \u00e9 diminu\u00eddo e uma atmosfera mais fria e mais seca produz menos chuva na regi\u00e3o tropical. A partir de 1999, o Pac\u00edfico come\u00e7ou a se resfriar e o estado energ\u00e9tico do clima parece estar semelhante ao do per\u00edodo 1946-1976 quando o Pac\u00edfico se resfriou e, portanto, mais baixo que o do per\u00edodo 1976-1998 rec\u00e9m-passado, em que o pac\u00edfico estava mais aquecido e o estado energ\u00e9tico do clima era mais elevado e chovia mais. Admitindo que o ciclo de resfriamento\/aquecimento do Pac\u00edfico seja de 50-60 anos, conforme publicado na literatura especializada, o Pac\u00edfico deve permanecer, em m\u00e9dia, ligeiramente mais frio at\u00e9 os anos 2025-2030.<\/p>\n<p>Sob considera\u00e7\u00f5es meramente baseadas na din\u00e2mica do clima global observada ao longo dos \u00faltimos 100 anos, se este se assemelhar ao per\u00edodo frio passado [1946-1976], as chuvas devem se reduzir em todo pa\u00eds, notadamente no Sudeste e Centro Oeste, independentemente de se acabar com o desmatamento e recuperar as \u00e1reas degradadas na Amaz\u00f4nia. N\u00e3o queremos dizer, com isso, que somos favor\u00e1veis ao desmatamento na Amaz\u00f4nia. Muito pelo contr\u00e1rio, somos contra o desmatamento da Amaz\u00f4nia, em fun\u00e7\u00e3o da fant\u00e1stica biodiversidade nela existente e dos servi\u00e7os ambientais por ela prestados \u00e0 sociedade. E os produtores rurais da Amaz\u00f4nia tem plena consci\u00eancia disso.<\/p>\n<p>Luiz Carlos Baldicero Molion, PhD<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A afirma\u00e7\u00e3o de que as secas da Regi\u00e3o Sudeste est\u00e3o sendo causadas pelo desmatamento da<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11234,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/seca_sp1.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/seca_sp1.jpg",150,96,false],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/seca_sp1.jpg",300,192,false],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/seca_sp1.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/seca_sp1.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/seca_sp1.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/seca_sp1.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/seca_sp1.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/seca_sp1.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/seca_sp1.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"A afirma\u00e7\u00e3o de que as secas da Regi\u00e3o Sudeste est\u00e3o sendo causadas pelo desmatamento da","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11233"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11233"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11233\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11234"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11233"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11233"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11233"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}