{"id":110778,"date":"2019-08-11T09:00:49","date_gmt":"2019-08-11T12:00:49","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=110778"},"modified":"2019-08-11T09:06:14","modified_gmt":"2019-08-11T12:06:14","slug":"a-culpa-pela-mudanca-climatica-nao-e-das-vacas-e-das-pessoas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/a-culpa-pela-mudanca-climatica-nao-e-das-vacas-e-das-pessoas\/","title":{"rendered":"\u201cA culpa pela mudan\u00e7a clim\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 das vacas, \u00e9 das pessoas\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/HguEVTKRzSlHeGnphTzvm-R40VU=\/1500x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/KW32MOKWFHJPCGNAZWPXJOHYWQ.jpg\" alt=\"Marta G. Rivera Ferre nesta quinta-feira em Foz do Igua\u00c3\u00a7u (PR).\" width=\"640\" height=\"825\" \/><\/p>\n<p class=\"\">Marta G. Rivera Ferre (C\u00f3rdoba, Espanha, 1974) \u00e9 a diretora da C\u00e1tedra de Agroecologia e Sistemas Alimentares da Universidade de Vic. Ela \u00e9 uma dos 107 cientistas de 52 pa\u00edses que participaram do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/08\/07\/internacional\/1565193502_273906.html\" data-link-track-dtm=\"\">relat\u00f3rio sobre o uso da terra e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas do IPCC, o painel internacional que assessora a ONU<\/a>no assunto. Rivera Ferre atende EL PA\u00cdS por telefone, de Foz do Igua\u00e7u (PR), onde participa de uma confer\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>Pergunta.<\/strong>\u00a0As vacas s\u00e3o culpadas pelas\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/cambio_climatico\" data-link-track-dtm=\"\">mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/a>?<\/p>\n<p class=\"\"><strong>Resposta.<\/strong>\u00a0As vacas n\u00e3o s\u00e3o culpadas, a culpa \u00e9 das pessoas.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/11\/15\/ciencia\/1510746923_664876.html\" data-link-track-dtm=\"\">Nos \u00faltimos 30 anos aumentou muito o consumo de carne<\/a>\u00a0e tamb\u00e9m da prote\u00edna animal de carne bovina, mas o que cresceu mais \u00e9 o consumo de frango e de carne su\u00edna. De fato, hoje 77% dos animais criados para a alimenta\u00e7\u00e3o no mundo s\u00e3o frango e porco; e 22%, carne bovina. Os porcos est\u00e3o ligados fundamentalmente a um sistema de produ\u00e7\u00e3o intensiva, enquanto na carne bovina isso depende do contexto e da regi\u00e3o. E cada esp\u00e9cie contribui para as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas de maneira diferente. Os ruminantes, com a emiss\u00e3o de g\u00e1s metano; os monog\u00e1stricos, com a de \u00f3xido nitroso e CO2. O metano tem um potencial de aquecimento 28 vezes maior que o CO2 e dura dez anos na atmosfera. Mas o CO2 e o \u00f3xido nitroso duram mais de 100 anos. Portanto, as vacas n\u00e3o s\u00e3o as culpadas pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, mas temos de repensar o fato de nossa sociedade consumir muita prote\u00edna animal e que esse consumo precisa ser reduzido.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>P.<\/strong>\u00a0O que a senhora destaca do relat\u00f3rio?<\/p>\n<p class=\"\"><strong>R.<\/strong>\u00a0O relat\u00f3rio tem um enfoque abrangente, tenta abordar todo o sistema alimentar e n\u00e3o apenas o relacionado com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, que s\u00e3o o foco central. Tamb\u00e9m aborda, por exemplo, a sa\u00fade. E faz um v\u00ednculo entre termos uma dieta com alto conte\u00fado animal e muito desequilibrada (rica em a\u00e7\u00facar e pobre em vitaminas e micronutrientes) e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Se reduzirmos a prote\u00edna animal, teremos uma redu\u00e7\u00e3o no uso da terra e nas emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, e uma melhoria na nossa sa\u00fade.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Pode-se concluir no relat\u00f3rio que dever\u00edamos deixar de comer carne ou prote\u00ednas animais?<\/p>\n<p class=\"\"><strong>R.<\/strong>\u00a0N\u00e3o, o relat\u00f3rio,\u00a0<a href=\"https:\/\/elpais.com\/sociedad\/2019\/01\/16\/actualidad\/1547667687_190434.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">como um outro publicado no\u00a0<em>The Lancet<\/em><\/a>, diz que em algumas partes do mundo \u00e9 imperativo reduzir o consumo de prote\u00edna animal. Sabemos que se o reduzirmos, n\u00e3o s\u00f3 o da carne, tamb\u00e9m de leite e ovos, poderemos reduzir as emiss\u00f5es de gases do efeito de estufa e ter um impacto ben\u00e9fico na sa\u00fade. Mas, cuidado, h\u00e1 partes do planeta onde as pessoas precisam aumentar o consumo de carne porque t\u00eam uma dieta baixa em prote\u00ednas.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Portanto, nos pa\u00edses desenvolvidos tem que ser reduzido e nos pa\u00edses em desenvolvimento, n\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Isso porque \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o importante para eles. O relat\u00f3rio analisa diferentes dietas: as baseadas em peixes, a flexitariana (com baixo consumo de prote\u00edna animal), as\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/cocina_vegetariana\" data-link-track-dtm=\"\">vegetarianas<\/a>, a mediterr\u00e2nea &#8230; E conclui que, em termos de emiss\u00f5es, a mais eficiente \u00e9 a flexitariana. Mas, se for acrescido o fator sa\u00fade, a mediterr\u00e2nea tem impactos muito bons na redu\u00e7\u00e3o de CO2 e na sa\u00fade. \u00c9 complexo. O relat\u00f3rio tenta escapar da mensagem simplista.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Qual o papel do desperd\u00edcio nas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas?<\/p>\n<p class=\"\"><strong>R.<\/strong>\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/11\/11\/internacional\/1447271984_076230.html\" data-link-track-dtm=\"\">Os desperd\u00edcios alimentares<\/a>\u00a0representam agora entre 8% e 10% das emiss\u00f5es. Mas h\u00e1 dois n\u00edveis: um \u00e9 o das perdas que ocorrem da produ\u00e7\u00e3o \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o no ponto de venda do alimento. Vemos isso na Espanha quando a laranja ou a melancia n\u00e3o s\u00e3o colhidas porque os pre\u00e7os est\u00e3o muito baixos e os produtores n\u00e3o s\u00e3o compensados. Mas, na nossa parte do mundo, o que mais ocorre \u00e9 o desperd\u00edcio de comida dom\u00e9stica. Aqui h\u00e1 um problema de rotulagem: o per\u00edodo de consumo preferencial definido na rotulagem \u00e9 confuso. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m a quest\u00e3o do planejamento da compra e de por\u00e7\u00f5es que s\u00e3o muito grandes, e a comida acaba sendo jogada fora. E isso que \u00e9 jogado emitiu gases. Alguns estudos tamb\u00e9m chamam de desperd\u00edcio o consumo excessivo. Por exemplo, na Austr\u00e1lia, 30% das emiss\u00f5es da ind\u00fastria de alimentos t\u00eam a ver com consumo excessivo, ou seja, as pessoas comem mais do que precisam.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>P.<\/strong>\u00a0O setor dos alimentos \u00e9 aquele em que o cidad\u00e3o pode fazer mais contra as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas?<\/p>\n<p class=\"\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Diria que sim, porque s\u00e3o decis\u00f5es que tomamos quase todos os dias. Mudar minha dieta e o modo como fa\u00e7o a compra, ou como cozinho, \u00e9 algo que posso fazer hoje mesmo no jantar. H\u00e1 uma margem de capacidade para a\u00e7\u00e3o imediata da popula\u00e7\u00e3o que \u00e9 muito interessante. Embora tamb\u00e9m exista o que nas ci\u00eancias sociais se chama de &#8220;ambiente obesog\u00eanico&#8221;. Por exemplo, h\u00e1 \u00e1reas nos Estados Unidos que s\u00e3o conhecidas como desertos alimentares: s\u00e3o \u00e1reas pobres nas quais, em quil\u00f4metros e quil\u00f4metros, n\u00e3o h\u00e1 estabelecimentos onde se possam comprar frutas e verduras, e h\u00e1 apenas McDonald&#8217;s e outros\u00a0<em>fast foods<\/em>. Ou seja, contribui\u00e7\u00f5es de calorias vazias e gorduras. Essa popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode comprar frutas e legumes. Primeiro, porque n\u00e3o tem acesso, n\u00e3o as t\u00eam ao alcance; em segundo lugar, por uma quest\u00e3o de pre\u00e7o. \u00c9 verdade que o nosso contexto, o da Espanha, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o exagerado como o dos EUA, mas o acesso tamb\u00e9m \u00e9 dif\u00edcil. Em suma, n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o pessoal, as decis\u00f5es devem ser tomadas na pol\u00edtica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marta G. Rivera Ferre (C\u00f3rdoba, Espanha, 1974) \u00e9 a diretora da C\u00e1tedra de Agroecologia e<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Marta G. 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