{"id":110361,"date":"2019-08-04T14:00:41","date_gmt":"2019-08-04T17:00:41","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=110361"},"modified":"2019-08-04T12:37:36","modified_gmt":"2019-08-04T15:37:36","slug":"desconhecido-e-quase-intacto-este-e-o-segundo-pulmao-verde-do-planeta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/desconhecido-e-quase-intacto-este-e-o-segundo-pulmao-verde-do-planeta\/","title":{"rendered":"Desconhecido e quase intacto: este \u00e9 o segundo pulm\u00e3o verde do planeta"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/congo.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-110362\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/congo-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/congo-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/congo.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Nas profundezas da \u00c1frica Central palpita uma das florestas mais desconhecidas e intactas do planeta, distribu\u00edda entre seis pa\u00edses. Mais de 200 milh\u00f5es de hectares que em grande medida permanecem um mist\u00e9rio para a ci\u00eancia e que, ao contr\u00e1rio da Amaz\u00f4nia ou das florestas tropicais da Indon\u00e9sia, ainda est\u00e3o ausentes dos cat\u00e1logos tur\u00edsticos e das prioridades do agroneg\u00f3cio. No entanto, a crescente demanda por alimentos, madeira e carv\u00e3o, a falta de oportunidades econ\u00f4micas e o com\u00e9rcio ilegal de esp\u00e9cies est\u00e3o come\u00e7ando a corroer os recantos mais virgens da Bacia do Congo. Uma floresta que sustenta 60 milh\u00f5es de pessoas; abriga uma em cada cinco esp\u00e9cies conhecidas, incluindo cerca de 10.000 de plantas, e regula o clima e os padr\u00f5es de chuva do mundo. N\u00e3o \u00e0 toa, \u00e9 o segundo pulm\u00e3o verde do planeta depois da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>\u201cPrecisamos urgentemente compreender como funcionam as florestas da \u00c1frica Central para criar planos de manejo sustent\u00e1vel que beneficiem as comunidades, o clima e a biodiversidade ao mesmo tempo\u201d, diz Paolo Cerutti, um dos grandes especialistas mundiais no assunto e respons\u00e1vel pelo Projeto Forma\u00e7\u00e3o, Pesquisa e Meio Ambiente em Tshopo (Forets), no norte da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo (RDC). A iniciativa, financiada pelo XI Fundo Europeu de Desenvolvimento e coordenada pelo Centro Internacional de Pesquisa Florestal (Cifor), promove o desenvolvimento sustent\u00e1vel em torno da reserva da biosfera de Yangambi, al\u00e9m de formar a primeira grande gera\u00e7\u00e3o de especialistas florestais do pa\u00eds e romper um isolamento cient\u00edfico alimentado por d\u00e9cadas de fragilidade e viol\u00eancia.<\/p>\n<p>As principais causas de degrada\u00e7\u00e3o da floresta na RDC s\u00e3o a produ\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o e a agricultura de corte e queimada, seguidas pela extra\u00e7\u00e3o de madeira e a minera\u00e7\u00e3o. \u201cNormalmente, os madeireiros artesanais cortam de forma seletiva as \u00e1rvores que interessam aos setores de marcenaria e constru\u00e7\u00e3o\u201d, explica a especialista cient\u00edfica do projeto, Silvia Ferrari. \u201cDepois a popula\u00e7\u00e3o local corta o restante das \u00e1rvores para fazer carv\u00e3o e, na \u00faltima etapa, queima toda a vegeta\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o para cultivar alimentos como a mandioca. A produtividade \u00e9 muito baixa e a terra logo se esgota, raz\u00e3o pela qual o ciclo se repete em outro lugar, devorando a floresta progressivamente\u201d.<\/p>\n<p>Esse c\u00edrculo vicioso \u00e9 um desafio consider\u00e1vel para o Forets e seus parceiros congoleses, especialmente considerando o ponto de partida: uma popula\u00e7\u00e3o que dobrou em apenas 20 anos e continua a crescer; a depend\u00eancia do carv\u00e3o e da lenha, que fornecem 80% da energia prim\u00e1ria na \u00c1frica subsaariana e n\u00e3o t\u00eam um substituto imediato; bem como a demanda por madeiras nobres no continente e em mercados estrangeiros como a China. O panorama \u00e9 complexo, mas existem sa\u00eddas, come\u00e7ando por conhecer melhor como s\u00e3o e como funcionam as florestas da \u00c1frica Central.<\/p>\n<p><strong>Viveiro de cientistas africanos<\/strong><\/p>\n<p>Passar semanas seguidas trabalhando e vivendo na floresta equatorial n\u00e3o \u00e9 algo simples, como bem sabem o doutorando congol\u00eas Nestor Luambua e sua equipe de apoio. Nos \u00faltimos meses eles inventariaram, mediram e identificaram todas as \u00e1rvores em uma \u00e1rea equivalente a 300 campos de futebol, e o fizeram abrindo passagem a golpe de fac\u00e3o, evitando ra\u00edzes a\u00e9reas e desfilando entre loda\u00e7ais e focos de formigas marabunta.<\/p>\n<p>O calor e a umidade s\u00e3o suficientes para emba\u00e7ar os \u00f3culos instantaneamente, mas Luambua e os seus companheiros sabem como entrar na floresta: \u201cO gorro enfiado at\u00e9 as orelhas nos protege das nuvens de moscas que tentam entrar nos ouvidos; o capacete de obra, das frutas e galhos poderes que se desprendem a grande altura; e as botas de borracha s\u00e3o uma linha de defesa contra animais como v\u00edboras e cobras\u201d, comenta Luambua durante uma parada ao longo do caminho. \u201cSeja como for, quando estou na floresta n\u00e3o penso nos desconfortos; estou absorto em meu trabalho de pesquisa\u201d.<\/p>\n<p>Este rapaz de 29 anos est\u00e1 ciente de que est\u00e1 abrindo caminhos que outros seguir\u00e3o, na floresta e fora dela. Em 2005 havia apenas seis pesquisadores com mestrado ou doutorado em ci\u00eancias florestais em toda a RDC, um pa\u00eds quase cinco vezes maior que a Espanha e que concentra 60% das florestas da \u00c1frica Central. Luambua \u00e9 um dos 220 estudantes de mestrado e doutorado congoleses que se formaram na \u00faltima d\u00e9cada sob o guarda-chuva do Cifor, da Uni\u00e3o Europeia e da Universidade de Kisangani (Unikis), a cerca de 90 quil\u00f3metros rio acima de Yangambi, no norte do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Luambua est\u00e1 pesquisando como as \u00e1rvores locais reagiram \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e \u00e0 presen\u00e7a humana no passado, enquanto o doutorando de 27 anos Chadrack Kafuti estuda o crescimento da Afrormosia (Pericopsis elata), a segunda esp\u00e9cie de madeira nobre mais exportada da RDC. Segundo o associado do Cifor Nils Bourland, essa esp\u00e9cie emblem\u00e1tica mal est\u00e1 se regenerando em condi\u00e7\u00f5es naturais, raz\u00e3o pela qual continuar cortando-a \u00e0s cegas poderia dar-lhe o golpe de miseric\u00f3rdia nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. Na Nig\u00e9ria, Costa do Marfim e Rep\u00fablica Centro-Africana s\u00f3 est\u00e3o de p\u00e9 os barcos, m\u00f3veis e caix\u00f5es que foram feitos com sua resistente madeira castanho-dourada.<\/p>\n<p>\u201cExistem pouqu\u00edssimos estudos sobre como as florestas da Bacia do Congo reagir\u00e3o ao aquecimento global\u201d, diz Kafuti, explicando que esse conhecimento \u00e9 essencial para prever como responder\u00e3o \u00e0 crise clim\u00e1tica e \u00e0 press\u00e3o demogr\u00e1fica no futuro, e para orientar as pol\u00edticas de conserva\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel das florestas na \u00c1frica Central.<\/p>\n<p><strong>Laborat\u00f3rio na floresta<\/strong><\/p>\n<p>O conhecimento \u00e9 urgente em muitas \u00e1reas. De acordo com Kafuti, por exemplo, 70% das exporta\u00e7\u00f5es de madeira da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo s\u00e3o de apenas 10 esp\u00e9cies, o que amea\u00e7a sua sobreviv\u00eancia. \u201c\u00c9 fundamental explorar outras esp\u00e9cies de potencial interesse econ\u00f4mico para reduzir a press\u00e3o sobre essas \u00e1rvores, mas n\u00e3o temos cientistas suficientes\u201d, explica Kafuti, que pesquisa com o apoio da Conven\u00e7\u00e3o sobre o Com\u00e9rcio Internacional das Esp\u00e9cies da Flora e Fauna Selvagens Amea\u00e7adas de Extin\u00e7\u00e3o (Cites). E quando o pessoal n\u00e3o falha, o equipamento falha.<\/p>\n<p>At\u00e9 recentemente, os cientistas que estudavam \u00e1rvores na Bacia do Congo tinham que levar suas amostras para a Europa (ou para mais longe) para analis\u00e1-las. \u201cImagine ter de carregar 30 cortes de madeira de 10 quilos cada at\u00e9 a B\u00e9lgica\u201d, diz Kafuti, que colabora com a Universidade de Ghent e o Museu Real da \u00c1frica Central (RMCA). \u201cConhe\u00e7o pesquisadores congoleses que queriam realizar estudos muito interessantes sobre a anatomia da madeira, mas tiveram que jogar a toalha porque n\u00e3o havia equipamento adequado na regi\u00e3o\u201d. Em outros casos, o dinheiro acabou e as amostras terminaram empilhadas \u00e0s margens do rio Congo, estragando ao lado de carregamentos de borracha e carv\u00e3o vegetal.<\/p>\n<p>Para sorte de Kafuti e seus colegas, a Esta\u00e7\u00e3o de Pesquisa de Yangambi acaba de inaugurar o primeiro laborat\u00f3rio de biologia da madeira na \u00c1frica subsaariana. Uma instala\u00e7\u00e3o de ponta junto \u00e0 floresta que permitir\u00e1 que pesquisadores nacionais e estrangeiros compreendam como as \u00e1rvores funcionam na Bacia do Congo. \u201cA madeira representa 98% da biomassa da floresta tropical, ent\u00e3o dificilmente podemos compreender a floresta sem conhecer esse componente\u201d, explica Hans Beeckman, chefe do Servi\u00e7o de Biologia da Madeira do RMCA e um dos promotores da instala\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO laborat\u00f3rio pretende se tornar um viveiro de cientistas congoleses e um centro de interc\u00e2mbio com especialistas de pa\u00edses da Bacia do Congo e de outros continentes\u201d, resume M\u00e9lissa Rousseau, colaboradora cient\u00edfica do RMCA e respons\u00e1vel pela instala\u00e7\u00e3o. Os equipamentos, que no futuro ser\u00e3o totalmente operados por pessoal local, tamb\u00e9m poder\u00e3o ser usados para a identifica\u00e7\u00e3o forense da madeira. Ou seja, para determinar a quais esp\u00e9cies pertencem lotes de madeira que levantaram suspeitas entre as autoridades locais ou da Cites.<\/p>\n<p><strong>Das palavras aos atos<\/strong><\/p>\n<p>Deixando para tr\u00e1s a tecnologia de altos voos, o jovem Luambua entra na floresta tropical seguido por Beeckman, Bourland e uma alta funcion\u00e1ria da administra\u00e7\u00e3o florestal congolesa. O ar cheira a alho e jasmim, um odor t\u00e3o poderoso que \u00e9 percebido mesmo navegando pela vastid\u00e3o do rio Congo.<\/p>\n<p>Nos pr\u00f3ximos dias andar\u00e3o por riachos, dormir\u00e3o em catres feitos com galhos e lona e compartilhar\u00e3o peixe seco junto \u00e0 fogueira de um acampamento cient\u00edfico. De manh\u00e3 vestir\u00e3o as roupas encharcadas do dia anterior e continuar\u00e3o andando na penumbra da copa das \u00e1rvores, ouvindo as explica\u00e7\u00f5es de Luambua sobre sua pesquisa e trocando ideias sobre os passos a seguir. O \u00faltimo peda\u00e7o de mandioca que comerem antes de retornar a Yangambi ser\u00e1 oferecido por um jovem que, com o fac\u00e3o na m\u00e3o, descansa entre as brasas t\u00edpicas da agricultura de queimada, uma esp\u00e9cie de [como diz o refr\u00e3o espanhol] p\u00e3o para hoje e fome para amanh\u00e3.<\/p>\n<p>As florestas da Bacia do Congo concentram 70% da cobertura florestal do continente e funcionam como um termostato natural para a regi\u00e3o e para o mundo. O termo sustentabilidade, que se generalizou nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, j\u00e1 era usado na Alemanha do s\u00e9culo XVIII para se referir ao manejo racional dos maci\u00e7os florestais. Para Beeckman, isso mostra que \u201ca ideia de extrair recursos de uma floresta sem degrad\u00e1-la n\u00e3o \u00e9 nada de novo\u201d. Luambua, Kafuti e os especialistas que eles mesmos est\u00e3o ajudando a formar j\u00e1 come\u00e7aram a trabalhar para que o manejo sustent\u00e1vel das florestas, al\u00e9m de ser uma ideia antiga, seja uma pr\u00e1tica real.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas profundezas da \u00c1frica Central palpita uma das florestas mais desconhecidas e intactas do planeta,<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":110362,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/congo.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/congo-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/congo-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/congo.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/congo.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/congo.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/congo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/congo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/congo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/congo.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Nas profundezas da \u00c1frica Central palpita uma das florestas mais desconhecidas e intactas do planeta,","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/110361"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=110361"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/110361\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/110362"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=110361"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=110361"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=110361"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}