{"id":110315,"date":"2019-08-03T20:49:00","date_gmt":"2019-08-03T23:49:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=110315"},"modified":"2019-08-03T20:49:00","modified_gmt":"2019-08-03T23:49:00","slug":"redes-sociais-espalham-epidemia-de-mal-estar-pela-humanidade-diz-psicanalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/redes-sociais-espalham-epidemia-de-mal-estar-pela-humanidade-diz-psicanalista\/","title":{"rendered":"Redes sociais espalham &#8216;epidemia de mal-estar&#8217; pela humanidade, diz psicanalista"},"content":{"rendered":"<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/C4FC\/production\/_108182405_celular.jpg\" alt=\"Jovens com o celular na frente do rosto\" width=\"639\" height=\"359\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">GETTY IMAGES<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">&#8216;A hiperexposi\u00e7\u00e3o nos distancia muito da realidade do que somos: mostramos apenas o melhor de n\u00f3s mesmos, em uma exig\u00eancia de felicidade permanente que deixa muito pouco espa\u00e7o para o sofrimento subjetivo&#8217;, diz o autor de &#8216;Selfie, Logo Existo&#8217;.<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Exposi\u00e7\u00e3o da intimidade, amores descart\u00e1veis, depress\u00e3o, silenciamento, loucura, suic\u00eddio. As rela\u00e7\u00f5es humanas e seus conflitos d\u00e3o o tom de como a sa\u00fade mental \u00e9 percebida hoje em dia: muito mais por sua aus\u00eancia ou pelo adoecimento do que pelo cuidado com ela.<\/p>\n<p>Por mais que a preocupa\u00e7\u00e3o com o bem-estar ps\u00edquico esteja em voga, o sofrimento subjetivo, que \u00e9 inerente \u00e0 vida de cada pessoa, n\u00e3o tem o espa\u00e7o necess\u00e1rio. As conex\u00f5es de nossa \u00e9poca n\u00e3o estimulam a intimidade, e as consequ\u00eancias disso apontam para uma sociedade cada vez mais insegura e voltada a solu\u00e7\u00f5es superficiais.<\/p>\n<p>Dedicado \u00e0 escuta do sofrimento individual, o psicanalista e psiquiatra Marcelo Veras, autor do livro\u00a0<i>Selfie, Logo Existo<\/i>\u00a0(Corrupio) e membro da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise e da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, conversou com a BBC News Brasil sobre nosso mal-estar atual.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/35DE\/production\/_108109731_marceloveras4-arquivopessoal.jpg\" alt=\"Marcelo Veras\" width=\"640\" height=\"640\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">ARQUIVO PESSOAL<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">O psicanalista e psiquiatra Marcelo Veras \u00e9 membro da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise e da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Qual a vis\u00e3o de nossa sociedade sobre sa\u00fade mental?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcelo Veras &#8211;\u00a0<\/strong>De um certo modo, acredito que as pessoas estejam cada vez mais preocupadas com o bem-estar e a sa\u00fade mental, mas isso ocorre precisamente por uma percep\u00e7\u00e3o de sua perda. Houve um profundo remanejamento de conceitos cl\u00e1ssicos como narcisismo e intimidade.<\/p>\n<p>A hiperexposi\u00e7\u00e3o das redes (sociais) nos distancia muito da realidade do que somos: mostramos apenas o melhor de n\u00f3s mesmos, em uma exig\u00eancia de felicidade permanente que deixa muito pouco espa\u00e7o para o sofrimento subjetivo. No s\u00e9culo 21, estamos permanentemente sob os olhares de c\u00e2meras que implodiram o conceito de intimidade. Isso gera uma sociedade mais insegura narcisicamente e tamb\u00e9m com a falsa ilus\u00e3o de que o olhar do outro \u00e9 necess\u00e1rio para garantir sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Surgem ent\u00e3o uma s\u00e9rie de terapias e pr\u00e1ticas para adequar o sujeito moderno ao seu ideal de apar\u00eancia, e cala-se profundamente as ra\u00edzes, sempre complexas, do sofrimento individual que n\u00e3o fica bem na foto.<\/p>\n<p>Temos nessa esteira a dissemina\u00e7\u00e3o de coachings, programas de lifestyle, est\u00e9tica, al\u00e9m, evidentemente, do recurso \u00e0 medica\u00e7\u00e3o. Preocupa-me quando a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) coloca a depress\u00e3o como a doen\u00e7a do s\u00e9culo. O modo como foi posto pode gerar uma eleva\u00e7\u00e3o a n\u00edveis ainda maiores de antidepressivos e calmantes pela popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Prefiro pensar como Freud que estamos fazendo face a uma epidemia de mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o, replicado por todos os cantos do planeta pelas m\u00eddias instant\u00e2neas.<\/p>\n<p>Hoje em dia, n\u00e3o sofremos apenas pela morte do filho do vizinho, sofremos pelas perdas que ocorrem em qualquer lugar do mundo, gerando uma esp\u00e9cie de empatia global que nos lan\u00e7a sobre os ombros a sensa\u00e7\u00e3o de que temos que salvar o mundo a qualquer pre\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Os modos de consumo e de relacionamento contempor\u00e2neos t\u00eam alguma associa\u00e7\u00e3o com o adoecimento ps\u00edquico da popula\u00e7\u00e3o, uma vez que as taxas de depress\u00e3o e ansiedade s\u00e3o crescentes?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veras &#8211;\u00a0<\/strong>Sem d\u00favida. Consumimos objetos assim como consumimos rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nunca estamos satisfeitos e precisamos de um iPhone mais moderno, de um novo carro. Um fator que observo nas rela\u00e7\u00f5es feitas atrav\u00e9s das redes sociais, e que era novo para mim, \u00e9 a express\u00e3o &#8220;v\u00e1cuo&#8221;.<\/p>\n<p>As pessoas come\u00e7am a se relacionar pelos aplicativos, come\u00e7am a se entregar afetiva e tamb\u00e9m sexualmente, j\u00e1 que muitas vezes trocam nudes, e, de repente, um dos dois desaparece na rede e deixa o outro no v\u00e1cuo. N\u00e3o h\u00e1 t\u00e9rmino, desculpa, nada: um dos dois apenas deleta o outro e desaparece.<\/p>\n<p>Isso gera uma inseguran\u00e7a narc\u00edsica muito grande. Em m\u00eddias como Instagram e Facebook, igualmente nos tornamos ref\u00e9ns de &#8220;likes&#8221; de pessoas que nos s\u00e3o totalmente desconhecidas, diferente de buscar apoio e mesmo de se mostrar am\u00e1vel apenas para um grupo de amigos.<\/p>\n<p>Tudo isso leva a um modo de ser que vai al\u00e9m do que (Zygmunt) Bauman definiu como modernidade l\u00edquida. Nela, t\u00ednhamos a ideia de que a libido flu\u00eda por diversos objetos; vejo muito mais uma modernidade descart\u00e1vel, onde \u00e9 poss\u00edvel &#8220;deletar&#8221; o outro sem restos.<\/p>\n<p>Um modo como vejo a psican\u00e1lise no mundo atual \u00e9 precisamente se ocupando dos restos afetivos, para entender que h\u00e1 um tempo para o luto e a frustra\u00e7\u00e3o que n\u00e3o deve ser confundido com depress\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/83FE\/production\/_108109733_0f2718af-919d-4567-88e5-aa3c2827591a.jpg\" alt=\"Homem sentado na cama com semblante triste\" width=\"639\" height=\"347\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">GETTY IMAGES<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Hoje em dia n\u00e3o sofremos apenas pela morte do filho do vizinho, sofremos pelas perdas que ocorrem em qualquer lugar do mundo<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; No seu livro\u00a0<\/strong><strong><i>Selfie, Logo Existo<\/i><\/strong><strong>, voc\u00ea identifica este &#8220;deletar&#8221; e tamb\u00e9m o &#8220;v\u00e1cuo&#8221; como alguns dos novos significantes que t\u00eam aparecido. Poderia apontar o que a cl\u00ednica tem trazido, por meio dos pacientes, a respeito das mudan\u00e7as que estamos vivendo na contemporaneidade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veras &#8211;\u00a0<\/strong>O sujeito n\u00e3o mais encontra sua representa\u00e7\u00e3o nos grandes discursos, como o religioso, por exemplo.<\/p>\n<p>Se, por um lado, esse fen\u00f4meno abriu espa\u00e7os para uma paleta muito maior de modos de se representar na sociedade &#8211; a discuss\u00e3o sobre os g\u00eaneros \u00e9 um \u00f3timo exemplo &#8211; por outro lado, muitos n\u00e3o mais encontram representa\u00e7\u00e3o de si em mundo poss\u00edvel algum, ficando \u00e0 deriva, sem modelos, sem guias, perdidos e capturados apenas pelos instrumentos que o transformam em um grande gozador ou masturbador.<\/p>\n<p>Cria-se assim uma massa de adictos e consumidores.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Diz-se do suic\u00eddio que ele \u00e9 a demonstra\u00e7\u00e3o mais radical do sofrimento, e sua incid\u00eancia \u00e9 cada vez maior. Por que, ainda assim, a sa\u00fade mental n\u00e3o \u00e9 priorizada pelas pol\u00edticas p\u00fablicas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veras &#8211;\u00a0<\/strong>O suicida n\u00e3o se mata, ele mata a imagem de si. No trabalho, nas universidades, na com\u00e9dia amorosa, nos dramas familiares, no tribunal permanente da opini\u00e3o p\u00fablica, \u00e9 sempre nossa imagem, ou ego, que marca presen\u00e7a. \u00c9 ela que sai de cena.<\/p>\n<p>Quando desejamos nossa morte, continuamos a pensar nossa aus\u00eancia como uma presen\u00e7a para al\u00e9m da morte. Ser humano \u00e9 igualmente ter que se haver com o corpo que se tem, e n\u00e3o apenas com o corpo que se &#8220;\u00e9&#8221;.<\/p>\n<p>Nossa condi\u00e7\u00e3o de fala nos desnaturaliza, j\u00e1 que a puls\u00e3o de morte, t\u00e3o humana, se sobrep\u00f5e ao instinto animal de sobreviv\u00eancia. Justamente por termos um corpo, podemos nos desfazer dele. \u00c9 na vertigem entre ser e ter um corpo que surge a ang\u00fastia heideggeriana que nos determina como um ser para a morte.<\/p>\n<p>Na Antiguidade, o romano que quisesse encerrar sua vida passava por uma esp\u00e9cie de comit\u00ea de \u00e9tica que ponderava as raz\u00f5es e podia autoriz\u00e1-la. Apenas os soldados, os condenados e os escravos n\u00e3o podiam fazer essa demanda, pois seus corpos pertenciam ao Estado.<\/p>\n<p>A condena\u00e7\u00e3o &#8220;\u00e0 morte&#8221; do suicida, com seus grandes tribunais\u00a0<i>post-mortem<\/i>, ocorre precisamente quando o corpo passa a ser propriedade de Deus. Dito por Santo Agostinho: n\u00e3o te matar\u00e1s.<\/p>\n<p>George Minois, que escreveu a\u00a0<i>Hist\u00f3ria do Suic\u00eddio<\/i>, refer\u00eancia incontorn\u00e1vel sobre o tema, chama aten\u00e7\u00e3o de que foi preciso o teatro ingl\u00eas do s\u00e9culo 16 para que o suic\u00eddio passasse a ser visto como quest\u00e3o subjetiva.<\/p>\n<p>Em seu livro\u00a0<i>Da faca \u00e0 pena: o suic\u00eddio na literatura inglesa no renascimento<\/i>, (Bernard) Paulin relata que, em apenas 40 anos, cerca de 200 suic\u00eddios foram encenados em mais de cem pe\u00e7as teatrais na Inglaterra. Sem d\u00favidas, o caso mais famoso \u00e9 o de Hamlet, em que a quest\u00e3o do ser ou n\u00e3o ser \u00e9 posta como uma interroga\u00e7\u00e3o que exige uma resposta sempre \u00fanica para cada personagem da com\u00e9dia humana.<\/p>\n<p>Contudo, seguindo o destino de todo sentimento humano, o suic\u00eddio no mundo atual tornou-se patologia e passou aos cuidados da psiquiatria. Ou seja, corpo e mente do suicida pertencem no s\u00e9culo 21 \u00e0 Ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Esse pensamento atinge propor\u00e7\u00f5es globais: \u00e9 a pr\u00f3pria OMS que diz que 90% dos suic\u00eddios est\u00e3o associados \u00e0 dist\u00farbios mentais e poderiam ser evitados se as causas fossem tratadas corretamente.<\/p>\n<p>Essa estat\u00edstica tornou-se\u00a0<i>argumentum ad nauseam<\/i>\u00a0de toda exposi\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica sobre o suic\u00eddio nos dias de hoje. Eis o ponto inquietante: o suic\u00eddio como doen\u00e7a desresponsabiliza tanto o sujeito quanto o outro social, torna-se uma aberra\u00e7\u00e3o comportamental, um enquistamento maligno, cujo caminho \u00e9, na maioria esmagadora dos casos, a medicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa constata\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nada confort\u00e1vel, sobretudo quando in\u00fameros trabalhos apontam para o aumento de mortes ligadas \u00e0 associa\u00e7\u00e3o entre pensamentos suicidas e uso de subst\u00e2ncias qu\u00edmicas, antidepressivos principalmente.<\/p>\n<p>Para mim, o suic\u00eddio atualmente \u00e9 muito mais por conta da incomunicabilidade e a solid\u00e3o da gera\u00e7\u00e3o dos hiperconectados do que propriamente uma doen\u00e7a do corpo. \u00c9 preciso compreender uma sa\u00fade mental para o suic\u00eddio mais desconectada apenas da doen\u00e7a mental e pensar mais na doen\u00e7a da pr\u00f3pria sociedade do consumo.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1203E\/production\/_108109737_84920c03-e96d-494d-b790-a1bbcbc4c449.jpg\" alt=\"Homem for\u00e7ando sorriso\" width=\"640\" height=\"359\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">GETTY IMAGES<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">&#8216;Um modo como vejo a psican\u00e1lise no mundo atual \u00e9 precisamente se ocupando dos restos afetivos, para entender que h\u00e1 um tempo para o luto e a frustra\u00e7\u00e3o que n\u00e3o deve ser confundido com depress\u00e3o&#8217;, diz psicanalista<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; O suic\u00eddio de jovens tem despertado a aten\u00e7\u00e3o da sociedade, sobretudo ap\u00f3s registros de mortes em escolas de S\u00e3o Paulo e o sucesso de fic\u00e7\u00f5es como (a s\u00e9rie)\u00a0<\/strong><strong><i>13 Reasons Why<\/i><\/strong><strong>. Estamos diante de uma gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem perspectiva de futuro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veras &#8211;\u00a0<\/strong>Tenho lidado cotidianamente com a quest\u00e3o do suic\u00eddio entre os jovens universit\u00e1rios por coordenar o programa de sa\u00fade mental da Universidade Federal da Bahia, com mais de 40 mil estudantes. A quest\u00e3o \u00e9: por que uma universidade, que implica a no\u00e7\u00e3o de futuro, de repente perde essa fun\u00e7\u00e3o, chegando mesmo ao suic\u00eddio?<\/p>\n<p>Muitos desses jovens se colam nos papeis imagin\u00e1rios ofertados nas telas, vivendo uma esp\u00e9cie de transitivismo que Freud chamou de identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quanto mais perdemos nossa autonomia intelectual, mais nos colamos a uma imagem do outro, passamos a falar e agir &#8220;como&#8221; o outro. O fato de que a gera\u00e7\u00e3o atual vive em um ambiente de velocidade sem precedentes na humanidade traz como consequ\u00eancia uma esp\u00e9cie de fobia do tempo lento, um limiar muito baixo para esperar e para suportar frustra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As respostas t\u00eam que ser imediatas, sem investimento a longo prazo.<\/p>\n<p>Se pensamos em termos psicanal\u00edticos, podemos dizer que \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o que busca o gozo permanentemente, mas n\u00e3o sabe como lidar com o desejo. Qual a diferen\u00e7a entre gozo e desejo? O gozo \u00e9 sempre uma presen\u00e7a que pede mais e mais, ele \u00e9 voraz. J\u00e1 o desejo \u00e9 saber lidar com a falta, afinal, s\u00f3 podemos desejar o que n\u00e3o temos.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; O que define a loucura hoje e por que ela \u00e9 um instrumento de poder?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veras &#8211;\u00a0<\/strong>N\u00e3o diria que a loucura \u00e9 um instrumento de poder no momento atual.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, ap\u00f3s duas d\u00e9cadas em que presenciamos um avan\u00e7o para a consolida\u00e7\u00e3o da reforma psiqui\u00e1trica, observamos um retrocesso inquietante nas pol\u00edticas de sa\u00fade mental no Brasil.<\/p>\n<p>O fato, por exemplo, de que o conselho que define a Pol\u00edtica Nacional sobre Drogas ter sido completamente esvaziado dos representantes da sociedade civil, incluindo m\u00e9dicos e psic\u00f3logos, me parece grav\u00edssimo. Vemos o ressurgimento de pr\u00e1ticas focadas em hospitais onde o peso maior \u00e9 na medicaliza\u00e7\u00e3o e interna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Qual papel os profissionais da psicologia e da psican\u00e1lise podem desempenhar nestas pol\u00edticas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veras &#8211;\u00a0<\/strong>A psican\u00e1lise ocupa sempre uma posi\u00e7\u00e3o de exterioridade com rela\u00e7\u00e3o aos discursos institucionais, j\u00e1 que ela visa a express\u00e3o do sujeito naquilo que ele tem de mais singular, e n\u00e3o naquilo que ele tem em comum com os outros.<\/p>\n<p>Contudo, isso n\u00e3o quer dizer que o psicanalista deva se abster do debate da vida p\u00fablica. Ao contr\u00e1rio, o psicanalista tem muito a dizer sobre os grandes movimentos de massa.<\/p>\n<p>Cada vez mais os psicanalistas est\u00e3o em lugares como favelas, pres\u00eddios, comunidades muito distintas da Viena de Freud. Acho particularmente crucial a presen\u00e7a dos psicanalistas nos debates sobre viol\u00eancia, racismo e quest\u00f5es de g\u00eanero.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Qual \u00e9 a import\u00e2ncia dos instrumentos e conselhos de fiscaliza\u00e7\u00e3o no tratamento dado aos internos em hospitais psiqui\u00e1tricos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veras &#8211;\u00a0<\/strong>Fui presidente da Comiss\u00e3o T\u00e9cnica de Reforma Psiqui\u00e1trica do Estado da Bahia em plena efervesc\u00eancia da promulga\u00e7\u00e3o da lei federal 10.216, em 1981, que preconizava uma reorienta\u00e7\u00e3o do modelo assistencial em sa\u00fade mental.<\/p>\n<p>Era uma comiss\u00e3o que avan\u00e7ava com dificuldades precisamente por n\u00e3o ser autorit\u00e1ria, pois havia espa\u00e7o tanto para a representa\u00e7\u00e3o da luta antimanicomial e dos pr\u00f3prios usu\u00e1rios da rede, quanto para os donos dos hospitais privados.<\/p>\n<p>N\u00e3o digo que eram reuni\u00f5es pac\u00edficas, muitas vezes eram bem explosivas, mas havia a garantia de um debate incluindo as diversas posi\u00e7\u00f5es, um debate democr\u00e1tico onde minha fun\u00e7\u00e3o como presidente era fazer acontecer o encontro.<\/p>\n<p>A loucura sempre foi segregada. A loucura nas ruas perturba, e novas pr\u00e1ticas insistem em manter a velha estrutura cl\u00ednica que visa calar o del\u00edrio, sem entender que o del\u00edrio em si j\u00e1 \u00e9 uma tentativa de cura; \u00e9 preciso escut\u00e1-lo, e n\u00e3o simplesmente silenci\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Outra grande quest\u00e3o \u00e9 achar que a loucura \u00e9 uma quest\u00e3o do corpo, e que o cortejo de profissionais que lidam com a sa\u00fade mental no cotidiano (psic\u00f3logos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros) \u00e9 coadjuvante do ato m\u00e9dico, esse sim o ato definitivo na abordagem da loucura. Acontece que nossa mente n\u00e3o se encontra no corpo.<\/p>\n<p>As tentativas de localizar nos genes, por exemplo, a origem de doen\u00e7as como o autismo e a esquizofrenia ser\u00e3o, al\u00e9m de infrut\u00edferas, um desvio sobre a verdadeira quest\u00e3o em jogo: o fato de que, por sermos seres de linguagem, deixamos de ser apenas seres regidos pelo que se passa no corpo.<\/p>\n<p>Somos o produto da intera\u00e7\u00e3o da carne com o verbo.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/16E5E\/production\/_108109739_e0a405ab-2465-452d-8402-3f9ef054a16b.jpg\" alt=\"Homem comendo e olhando o celular\" width=\"640\" height=\"359\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">GETTY IMAGES<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">&#8216;Oferecemos nossa transpar\u00eancia nas redes e nos convertemos em um enorme parque de consumidores virtuais&#8217;<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Temos observado manipula\u00e7\u00f5es e distor\u00e7\u00f5es de palavras e narrativas por figuras de poder e lideran\u00e7as. Qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre a palavra e o sofrimento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veras &#8211;\u00a0<\/strong>Somos seres que nos distinguimos dos outros animais na natureza precisamente por sermos seres falantes.<\/p>\n<p>A palavra \u00e9 nossa casa, pois ela determina nosso ser, nosso corpo e o modo como vivemos. Mas a palavra exige interpreta\u00e7\u00e3o, exige saber falar e escutar, \u00e9 um movimento dial\u00e9tico.<\/p>\n<p>Quando a conversa\u00e7\u00e3o fracassa, quando, por exemplo, o debate democr\u00e1tico, que implica em ouvir e respeitar o pensamento contr\u00e1rio, n\u00e3o tem espa\u00e7o, a palavra que resta \u00e9 a do poder autorit\u00e1rio, que n\u00e3o admite a alteridade.<\/p>\n<p>O maior sofrimento para uma comunidade ou popula\u00e7\u00e3o espec\u00edfica \u00e9 precisamente quando ela \u00e9 silenciada, quando ca\u00e7amos a palavra, quando lhe censuramos a express\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Qual \u00e9 o lugar do ressentimento na sociedade brasileira atual?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veras &#8211;\u00a0<\/strong>Sa\u00edmos de um processo eleitoral no ano passado que escancarou uma divis\u00e3o profunda na popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>O espa\u00e7o p\u00fablico ficou polarizado, impedindo a escuta do outro. Por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel avan\u00e7ar alguma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se n\u00e3o houver algum perd\u00e3o poss\u00edvel. Nas d\u00e9cadas passadas, os fil\u00f3sofos (Jacques) Derrida e Vladimir Jankelevitch colocaram no centro de seus debates o perd\u00e3o e o ressentimento.<\/p>\n<p>Suas obras passavam pela quest\u00e3o do nazismo e da Sho\u00e1: o que \u00e9 perdo\u00e1vel e o que \u00e9 imperdo\u00e1vel. Essa quest\u00e3o, como demonstrou Jankelevitch, \u00e9 complexa, pois somente se pode perdoar o imperdo\u00e1vel, j\u00e1 que o perdo\u00e1vel j\u00e1 \u00e9 perdo\u00e1vel.<\/p>\n<p>Trazemos essa quest\u00e3o para o cora\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica atual no Brasil: \u00e9 poss\u00edvel perdoar a tortura e morte na \u00e9poca da ditadura? \u00c9 poss\u00edvel perdoar sem julgar? Mais uma vez o que observamos \u00e9 que caminhamos por um momento pol\u00edtico em que o sil\u00eancio autorit\u00e1rio vai se sobrepor ao debate s\u00e9rio sobre os acontecimentos mais cru\u00e9is de nossa hist\u00f3ria recente.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Especialistas em tecnologia t\u00eam apontado para a coleta de dados privados dos usu\u00e1rios por meio de aplicativos e outros programas para celulares e computadores. H\u00e1 tamb\u00e9m situa\u00e7\u00f5es de exposi\u00e7\u00e3o criminosa de nudes e de conte\u00fados que at\u00e9 ent\u00e3o eram privados. Como a sociedade tem lidado com a pr\u00f3pria intimidade, com a privacidade e com a exibi\u00e7\u00e3o de si?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veras &#8211;\u00a0<\/strong>O Gafam, grupo formado por Google, Appel, Facebook, Amazon e Microsoft, est\u00e1 longe de ser composto por vestais impolutas.<\/p>\n<p>Chamo sempre aten\u00e7\u00e3o: quando o almo\u00e7o \u00e9 gr\u00e1tis \u00e9 porque voc\u00ea \u00e9 a sobremesa. Oferecemos nossos dados em troca da gratuidade de uma s\u00e9rie de servi\u00e7os que aos poucos tornaram-se cruciais para que o mundo em comunidade caminhe. Basta ver os transtornos s\u00e9rios que aconteceram quando o WhasApp ficou parado.<\/p>\n<p>Contudo, ao entregarmos nossos dados, nos tornamos ref\u00e9ns. Oferecemos nossa transpar\u00eancia nas redes e nos convertemos em um enorme parque de consumidores virtuais. &#8220;Se voc\u00ea gostou disso, vai gostar disso&#8221;, nos convidam os novos rob\u00f4s mentores.<\/p>\n<p>Temos ainda a grande quest\u00e3o do decl\u00ednio da intimidade. Ele come\u00e7ou quando passamos a nos interessar mais pelos nossos artistas na banheira ou na ilha de Caras do que no cinema e televis\u00e3o. Em seguida, a intimidade passou a ser o espet\u00e1culo em si, com a explos\u00e3o de reality shows do tipo BBB e demais. Por fim, com a chegada dos smartphones, cada um passou a ser protagonista do seu pr\u00f3prio show da intimidade. Ocorreu uma ruptura entre o sujeito que olha e o olhar.<\/p>\n<p>Hoje, se voc\u00ea precisar de um olhar para alimentar o seu narcisismo, voc\u00ea o encontrar\u00e1 no final de seus bra\u00e7os. Essa falsa exposi\u00e7\u00e3o da intimidade, em que nunca nos mostramos realmente, nos torna adictos da imagem de si. Na contracorrente, uma psican\u00e1lise \u00e9 uma experi\u00eancia de total intimidade, duas pessoas presencialmente, sob confidencialidade. Isso \u00e9 o avesso do mundo atual.<\/p>\n<p>Por fim chamo aten\u00e7\u00e3o que expor a intimidade \u00e9 completamente diferente de expor as ideias, e a internet tem sido um formid\u00e1vel espa\u00e7o democr\u00e1tico para que pessoas que jamais puderam se expressar conseguissem ter um canal de reconhecimento de suas palavras.<\/p>\n<p>Acho importante que essa entrevista termine com esse toque otimista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption&#8216;A hiperexposi\u00e7\u00e3o nos distancia muito da realidade do que somos: mostramos<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption&#8216;A hiperexposi\u00e7\u00e3o nos distancia muito da realidade do que somos: mostramos","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/110315"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=110315"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/110315\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=110315"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=110315"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=110315"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}