{"id":110075,"date":"2019-07-29T07:00:18","date_gmt":"2019-07-29T10:00:18","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=110075"},"modified":"2019-07-28T21:42:11","modified_gmt":"2019-07-29T00:42:11","slug":"quando-o-sofrimento-pela-timidez-e-tanto-que-a-saida-e-se-esconder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/quando-o-sofrimento-pela-timidez-e-tanto-que-a-saida-e-se-esconder\/","title":{"rendered":"Quando o sofrimento pela timidez \u00e9 tanto que a sa\u00edda \u00e9 se esconder"},"content":{"rendered":"<p class=\"story-body__introduction\"><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/timidez.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-110076\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/timidez-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/timidez-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/timidez.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>&#8220;No segundo dia de aula, um professor fez uma brincadeira e, como eu estava sentada na frente (&#8230;), ele apontou pra mim. No momento que viu meu rosto se ruborizar, parou a brincadeira na mesma hora e mudou o foco. Escutei pessoas falando: &#8216;Nossa, coitada dela&#8217;. Minha vontade foi sair da sala na mesma hora e ir para um canto qualquer, sem que ningu\u00e9m me visse. Quando deu o sinal para o intervalo, eu peguei o meu material, fui para o banheiro. Chorei bastante e sa\u00ed do campus. Nunca mais voltei. Isso \u00e9 pra voc\u00ea ver o quanto a fobia social pode acabar com os nossos sonhos, o nosso futuro, com a nossa esperan\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>Depois daquele segundo dia de aula, Lili* nunca mais voltou para aquele curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o na universidade e abandonou o sonho de uma carreira na \u00e1rea de biol\u00f3gicas. Hoje, aos 40 anos, ela produz o blog\u00a0<i>Sou F\u00f3bica Social\u00a0<\/i>e criou um grupo para pessoas com fobia social no WhatsApp, do qual participa Jo\u00e3o Augusto*, 33 anos. Ele descreve o tipo de rea\u00e7\u00e3o que o contato social pode despertar nele.<\/p>\n<p>&#8220;Fico angustiado, achando que algo ruim vai acontecer, que algu\u00e9m vai me maltratar, me individualizar. Que vou ser hostilizado, de forma que eu me sinta ridicularizado perante os demais.&#8221;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o descreve um epis\u00f3dio em que o terror foi grande.<\/p>\n<p>&#8220;Era um trabalho pelo telefone, eu atendia supervisores. Estava preocupado com um relat\u00f3rio que teria de entregar, e que eu nunca tinha feito antes. Fiquei t\u00e3o preocupado que algu\u00e9m viesse me cobrar que, durante o atendimento, senti tontura, comecei a suar. Guardei o telefone, fui pro banheiro. Chorava, falava: &#8216;Tenho de ir emora daqui, eu vou morrer&#8217;.&#8221;<\/p>\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-parrot wsoj-component\" data-variation=\"default-0\">\n<aside class=\"parrot\" role=\"region\" aria-label=\"Talvez tamb\u00e9m te interesse\">A maioria das pessoas j\u00e1 se deparou com gente t\u00edmida. Mas o que poucos sabem \u00e9 que, \u00e0s vezes, essa timidez diante do contato social gera sofrimento t\u00e3o profundo e paralisante que a pessoa se retira do conv\u00edvio e torna-se reclusa, sem conseguir trabalhar ou ter relacionamentos \u00edntimos.<\/aside>\n<\/div>\n<p>Por n\u00e3o conseguirem comunicar seu sofrimento silencioso, s\u00e3o tidas como infantis, caprichosas, bobas ou desinteressantes.<\/p>\n<p>Lili e Jo\u00e3o, dois t\u00edmidos que, com dificuldade, compartilharam suas experi\u00eancias com a BBC News Brasil &#8211; ela, por e-mail, ele, ao longo de tr\u00eas conversas por telefone-, dizem ter aceito o pedido de entrevista por acreditarem que a sociedade precisa saber a diferen\u00e7a entre um pouco de timidez e o que eles &#8211; e muitos especialistas &#8211; chamam de fobia social.<\/p>\n<p>A seguir, entenda o que \u00e9 esse problema e por que sentimos vergonha, e conhe\u00e7a as hist\u00f3rias de Lili e Jo\u00e3o e os tratamentos dispon\u00edveis.<\/p>\n<p>*Os<i>\u00a0nomes reais foram omitidos a pedido dos entrevistados<\/i><\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/100B3\/production\/_107651756_gettyimages-904296876.jpg\" alt=\"Pessoa sozinha\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">GETTY IMAGES<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Pessoas com fobias sociais tendem a se tornar reclusas<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O que \u00e9 a fobia social<\/h2>\n<p>A pessoa com fobia social tem uma sensa\u00e7\u00e3o de que existe um holofote sobre sua cabe\u00e7a aonde quer que ela v\u00e1. Essa \u00e9 uma entre v\u00e1rias analogias utilizadas por psiquiatras para explicar o problema.<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) define a fobia social (tamb\u00e9m conhecida como transtorno de ansiedade social e timidez patol\u00f3gica, entre outros termos) como um &#8220;medo de ser observado por outros, levando (a pessoa) a evitar situa\u00e7\u00f5es sociais. Em casos mais extremos, ela est\u00e1 associada \u00e0 baixa autoestima e ao medo de ser criticado(a). Fisicamente, a fobia social pode se manifestar por meio de rubor na face, n\u00e1usea e tremores nas m\u00e3os, por exemplo. Estes sintomas podem progredir e gerar ataques de p\u00e2nico.<\/p>\n<p>Segundo o Royal College of Psychiatrists, entidade brit\u00e2nica que treina profissionais e regula a atividade psiqui\u00e1trica no Reino Unido, cerca de 5% da popula\u00e7\u00e3o t\u00eam fobia social em maior ou menor grau. N\u00e3o se sabe se o problema est\u00e1 aumentando ou se apenas ficou mais evidente. Mulheres t\u00eam entre duas e tr\u00eas vezes mais probabilidade de apresentar o problema.<\/p>\n<p>Profissionais de sa\u00fade mental ouvidos pela BBC News Brasil alertam, no entanto, para uma tend\u00eancia cada vez maior da psiquiatria atual de &#8220;medicalizar&#8221; o sofrimento que \u00e9 natural \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana. E argumentam que a chamada fobia social precisa ser entendida no contexto de uma sociedade que, cada vez mais, exige que o indiv\u00edduo se exponha para ter sucesso.<\/p>\n<p>O espa\u00e7o p\u00fablico tornou-se um espa\u00e7o de exibicionismo, dizem. E ele \u00e9 implac\u00e1vel com aqueles que resistem em fazer isso.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">A hist\u00f3ria de Lili<\/h2>\n<p><i>&#8220;Eu criei o blog justamente para encontrar pessoas que, assim como eu, sofrem com o transtorno para trocarmos experi\u00eancias e informa\u00e7\u00f5es. No nosso grupo no WhatsApp a gente conversa sobre tudo e um consola o outro quando precisa. Se um dia um acorda mal, com pensamentos ruins, outros entram e come\u00e7am a escrever palavras de esperan\u00e7a.<\/i><\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/165BB\/production\/_107797519_gettyimages-1054920540.jpg\" alt=\"Pessoa solit\u00e1ria ao lado de pessoas conversando\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">GETTY IMAGES<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">\u00c0s vezes, essa timidez diante do contato social gera sofrimento t\u00e3o profundo e paralisante que a pessoa se retira do conv\u00edvio<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p><i>\u00c9 algo que nos incentiva porque percebemos que n\u00e3o estamos sozinhos nessa luta di\u00e1ria.<\/i><\/p>\n<p><i>Sempre digo que j\u00e1 nasci t\u00edmida.<\/i><\/p>\n<p><i>Eu j\u00e1 sentia medo de alguns familiares, meu tio e um primo. Quando os via, come\u00e7ava a chorar. As psic\u00f3logas (da escola) escreviam em meu di\u00e1rio de classe que eu era uma crian\u00e7a que prestava bastante aten\u00e7\u00e3o \u00e0s aulas, por\u00e9m nunca perguntava nada. S\u00f3 tinha uma amiguinha, que ia no banheiro comigo, abria o meu refrigerante.<\/i><\/p>\n<p><i>No ginasio, tudo foi piorando. Os meninos, como viam que eu era muito t\u00edmida, gostavam de brincar comigo para verem eu ficar com o rosto ruborizado (esse \u00e9 o meu principal e mais tem\u00edvel sintoma).<\/i><\/p>\n<p><i>J\u00e1 no colegial, sofri &#8220;bullying&#8221; at\u00e9 dizer chega. At\u00e9 de um professor de matem\u00e1tica, que apontou pra mim e me perguntou o resultado de uma equa\u00e7\u00e3o. Quando ele viu que eu fiquei roxa de vergonha, disse a seguinte frase: &#8216;Imagina quando voc\u00ea for se casar e o padre te perguntar se voc\u00ea aceita o seu noivo e voc\u00ea ficar assim, toda vermelha!'&#8221;<\/i><\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Por que sentimos vergonha?<\/h2>\n<p>&#8220;N\u00e3o temos acesso ao que o outro v\u00ea (quando nos olha), estamos sempre imaginando o que o outro est\u00e1 olhando. E quando nos sentimos mal avaliados, sentimos vergonha&#8221;, diz o psiquiatra e psicanalista Julio Verztman, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea se exp\u00f5e e percebe que n\u00e3o tem controle sobre como est\u00e1 sendo visto. Isso pode gerar muito sofrimento&#8221;, explica Verztman, que atende pacientes que sofrem com timidez extrema h\u00e1 v\u00e1rios anos e publicou textos sobre fobia social.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas t\u00edmidas imaginam que est\u00e3o sendo mal vistas, sem que haja, necessariamente, um julgamento expresso ruim a respeito delas.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Provavelmente porque o ambiente no qual o sujeito exp\u00f5e a sua imagem lhe parece hostil. Pessoas que sentem vergonha desse tipo sup\u00f5em esta sensa\u00e7\u00e3o mal definida de hostilidade. H\u00e1 a\u00ed um perigo. N\u00e3o sabem, entretanto, defini-lo ou nome\u00e1-lo.&#8221;<\/p>\n<p>Durante a entrevista, Verztman evita usar o termo fobia social, mas reconhece que dar nome ao problema \u00e9 importante.<\/p>\n<p>&#8220;Faz o sujeito reconhecer algo que est\u00e1 vivendo e que outros vivem, se sente menos sozinho, fica mais f\u00e1cil procurar ajuda.&#8221;<\/p>\n<p>Por outro lado, tem havido muita rotula\u00e7\u00e3o em escolas, comenta.<\/p>\n<p>&#8220;As s\u00edndromes psiqui\u00e1tricas se popularizaram a tal ponto que viraram xingamento, jeito de punir o outro. Em nossa pesquisa, preferimos usar a palavra timidez para valorizar a denomina\u00e7\u00e3o que os pacientes se d\u00e3o, menos estigmatizante.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/3123\/production\/_107797521_gettyimages-1033950626.jpg\" alt=\"Jovem t\u00edmido no trabalho\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">GETTY IMAGES<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Na era da extrovers\u00e3o, jovens t\u00edmidos t\u00eam dificuldade em se dar bem no trabalho<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">A hist\u00f3ria de Jo\u00e3o<\/h2>\n<p>Jo\u00e3o soa calmo falando ao telefone com a reportagem, mas explica que n\u00e3o \u00e9 bem assim. &#8220;Eu estou tremendo um pouco&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Momentos antes da segunda entrevista, ele diz que sentiu-se mal. &#8220;Hoje n\u00e3o estou tremendo, mas fiquei ansioso meia hora antes da hora combinada. Senti calor e desconforto abdominal.&#8221;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o conta que descobriu que tinha fobia social lendo sobre o assunto na internet. Mas, assim como os pacientes de Verztman, n\u00e3o gostaria de ser rotulado. &#8220;Eu sei o que acontece comigo, ningu\u00e9m mais sabe. Algu\u00e9m apontar o dedo e dizer, &#8216;voc\u00ea \u00e9 f\u00f3bico&#8217;, eu n\u00e3o ficaria nem um pouco contente.&#8221;<\/p>\n<p>O medo do preconceito \u00e9 uma das raz\u00f5es pelas quais ele prefere n\u00e3o ser identificado. &#8220;Se eu disser que tenho fobia, v\u00e3o dizer que eu sou maluco, estranho, esquisito. Eu j\u00e1 ouvi isso sem falar que sou f\u00f3bico social. Imagina se eu falo.&#8221;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o conta que, hoje em dia, foge dos conhecidos. &#8220;Atravesso a rua, finjo que n\u00e3o vi.&#8221;<\/p>\n<p>Mas nem sempre foi assim.<\/p>\n<p>&#8220;Em 2003, minha m\u00e3e faleceu. Acho que eu n\u00e3o fui preparado pra isso. Sou o mais novo de cinco irm\u00e3os. Um deles falou, &#8216;voc\u00ea vai ser o homem da casa&#8217;. Eu ia fazer 18 anos. Eu tinha de arrumar trabalho, mas n\u00e3o conseguia fazer um curr\u00edculo, n\u00e3o tinha a menor idea de como fazer, tinha medo de ir nos lugares, n\u00e3o sabia onde mandar o curr\u00edculo, n\u00e3o tinha experi\u00eancia de nada na vida. Minha m\u00e3e me protegia muito. Eu brincava com minhas duas sobrinhas. Eram as \u00fanicas duas pessoas com quem eu brincava. Gostava de brincar, mas minha m\u00e3e me chamava pra ir estudar, ou ir fazer algo na rua. Meu irm\u00e3o mais velho queria me levar pra praia, pra um jogo, mas minha m\u00e3e n\u00e3o deixava. N\u00e3o consegui desenvolver habilidade social nenhuma.&#8221;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o est\u00e1 desempregado. Diz que precisa trabalhar, mas n\u00e3o sabe como vai vencer suas dificuldades.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">A era da extrovers\u00e3o<\/h2>\n<p>O que talvez dificulte muito a situa\u00e7\u00e3o de pessoas como Jo\u00e3o e Lili \u00e9 que, nos dias de hoje, a extrovers\u00e3o se tornou a norma.<\/p>\n<p>&#8220;A preserva\u00e7\u00e3o da intimidade e da interioridade \u00e9 muitas vezes combatida. Para galgar postos, conseguir sucesso, voc\u00ea tem de se expor, e isso tem um custo&#8221;, diz Verztman.<\/p>\n<p>&#8220;Nas redes sociais, as pessoas postam coisas de sua intimidade. Imaginamos um circulo \u00edntimo de destinat\u00e1rios, mas a postagem se dissemina para pessoas fora desse c\u00edrculo. O outro pode receber isso mal. E o julgamento negativo chega de maneira dificil, as pessoas se sentem expostas, se sentem mal.&#8221;<\/p>\n<p>Outra tend\u00eancia da sociedade atual \u00e9 uma exig\u00eancia cada vez maior de que as pessoas sejam assertivas e saibam se vender, diz o psicanalista Rafael Raicher, membro do N\u00facleo de Refer\u00eancia em Aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Adolesc\u00eancia e Juventude (Nuraaj) do instituto Sedes Sapientiae, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>&#8220;De um lado, temos a sociedade exigindo que jovens sejam bonitos, autosuficientes, que fa\u00e7am a vida por conta pr\u00f3pria, sem chefe. O trabalho \u00e9 coletivo, mas autogestado, e o jovem tem de fazer sua vida a partir de suas capacidades.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/7F43\/production\/_107797523_gettyimages-965851348.jpg\" alt=\"Terapia\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">GETTY IMAGES<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Terapia e t\u00e9cnicas de autoajuda podem auxiliar f\u00f3bicos<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Esse jovem, diz Racher, \u00e9 o oposto do t\u00edmido.<\/p>\n<p>&#8220;Ele \u00e9 perfeito, descarado, fala tudo. O sucesso \u00e9 o oposto do t\u00edmido.&#8221;<\/p>\n<p>Se voc\u00ea \u00e9 um tipo mais envergonhado, diante de exig\u00eancias t\u00e3o imposs\u00edveis de ser atendidas, a solu\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes, \u00e9 se esconder do mundo. Como fazem Lili e Jo\u00e3o. Mas eles contam nem em casa, com a fam\u00edlia, se sentem acolhidos.<\/p>\n<p>&#8220;Com 40 anos, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ainda morar com os pais, principalmente sendo filha \u00fanica&#8221;, escreve Lili.<\/p>\n<p>&#8220;Minha m\u00e3e \u00e9 do tipo totalmente protetora, al\u00e9m de ser mandona, autorit\u00e1ria, n\u00e3o entende at\u00e9 hoje o meu transtorno, isso porque \u00e9 uma pessoa esclarecida, com curso superior, mas que nunca teve curiosidade em pesquisar mais a fundo sobre a fobia social para tentar me ajudar. E isso \u00e9 algo muito triste para mim porque eu gostaria de ter a ajuda dela e de demais familiares. Como a maioria das pessoas, eles acham que \u00e9 frescura nossa, que ainda n\u00e3o crescemos e que temos que enfrentar nossos medos.&#8221;<\/p>\n<p>O que \u00e9 surpreendente nas hist\u00f3rias de Jo\u00e3o e Lili \u00e9 que os dois j\u00e1 conseguiram confiar muito em algu\u00e9m &#8211; o suficiente para namorar.<\/p>\n<p>&#8220;Est\u00e1vemos pensando em morar juntos, mas ela faleceu&#8221;, conta Jo\u00e3o. &#8220;Quando estava com a minha namorada, n\u00e3o parecia que eu era f\u00f3bico.&#8221;<\/p>\n<p>O que era diferente no comportamento dela? &#8220;Ela era tranquila. Tamb\u00e9m tinha ansiedade, mas me passava tranquilidade. Era uma pessoa t\u00e3o serena. Fazia tudo de uma maneira que eu n\u00e3o me sentia mal, ficava no meu p\u00e9: &#8216;Est\u00e1 tudo bem? Est\u00e1 triste?&#8217;. Era at\u00e9 engra\u00e7ado. Faz\u00edamos parte do mesmo forum sobre depress\u00e3o. Namoramos quase tr\u00eas anos. Ela teve um aneurisma cerebral, morreu dormindo.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o sabe se gostaria de ter outra pessoa como ela em sua vida. &#8220;Dificil. Ela era diferente, especial pra caramba.&#8221; (Jo\u00e3o chora ao telefone.)<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Al\u00e9m dos medicamentos<\/h2>\n<p>Lili e Jo\u00e3o j\u00e1 tentaram tratamentos. Fizeram um pouco de psicoterapia e tamb\u00e9m tratamento psiqui\u00e1trico, com rem\u00e9dios. Ele interrompeu os tratamentos; ela ainda \u00e9 atendida por um psiquiatra e toma medicamento h\u00e1 mais de dez anos. Nenhum dos dois parece ter esperan\u00e7a de melhora. &#8220;Ainda n\u00e3o conheci ningu\u00e9m que tenha se curado da fobia social&#8221;, escreve Lili.<\/p>\n<p>O site do Royal College of Psychiatrists oferece um guia completo com informa\u00e7\u00f5es sobre fobia social, que inclui v\u00e1rias t\u00e9cnicas de autoajuda, como t\u00e9cnicas de relaxamento, por exemplo.<\/p>\n<p>Entre os tratamentos dispon\u00edveis, o site menciona a autoexposi\u00e7\u00e3o gradativa (o paciente vai experimentando a intera\u00e7\u00e3o social aos poucos) e a Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), que tenta reorganizar a forma de pensar &#8211; e de agir &#8211; do paciente. Quando nada disso funciona, uma outra alternativa \u00e9 o uso de rem\u00e9dios &#8211; mas somente com acompanhamento m\u00e9dico, enfatiza o site.<\/p>\n<p>Os especialistas ouvidos pela reportagem explicam que, no Brasil, a pr\u00e1tica de consenso tem sido tratar a fobia social com rem\u00e9dios. Entre as psicoterapias, \u00e9 dada prefer\u00eancia \u00e0 Terapia Cognitivo Comportamental.<\/p>\n<p>O psicanalista Rafaeil Raicher argumenta, no entanto, que o caminho para a melhora do paciente \u00e9 encontrar o que \u00e9 particular a cada caso, ou seja, a origem da fobia na hist\u00f3ria do indiv\u00edduo. Esse \u00e9 o processo que ocorre na psican\u00e1lise, explica.<\/p>\n<p>&#8220;Contando a hist\u00f3ria de cada sujeito, eles (paciente e terapeuta) v\u00e3o tecendo as tramas. De onde vem esse medo? Como lidar?&#8221;<\/p>\n<p>J\u00falio Verztman, que \u00e9 psiquiatra e psicanalista, tamb\u00e9m v\u00ea bons resultados na psican\u00e1lise &#8211; embora afirme que os rem\u00e9dios podem ter um papel importante na evolu\u00e7\u00e3o dos pacientes. &#8220;Entre as psicoterapias, \u00e9 a que, a meu ver, traz efeitos mais duradouros. O processo \u00e0s vezes \u00e9 longo, n\u00e3o tem efeitos imediatos. Mas s\u00e3o mais duradouros.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Na psican\u00e1lise, a gente espera que a pessoa possa viver com mais liberdade, com outra rela\u00e7\u00e3o com seus sintomas. E sim, a gente v\u00ea isso ocorrer.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6473\/production\/_107651752_gettyimages-1000887536.jpg\" alt=\"Escola\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">GETTY IMAGES<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">A escola se tornou um espa\u00e7o que n\u00e3o acolhe pessoas com fobias sociais, diz especialista<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Sobre a dualidade entre terapia ou medicamentos, Raicher diz que ambos t\u00eam sua import\u00e2ncia no tratamento. &#8220;Na minha opini\u00e3o, n\u00e3o precisa ser uma coisa ou outra. Vi melhoras \u00e0s vezes com as duas abordagens combinadas.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;O importante \u00e9 que a pessoa que sofre de timidez seja escutada&#8221;, ressalta Verztma. &#8220;Mais do que um nome para o seu mal ou uma medica\u00e7\u00e3o, esses sujeiros buscam compreender o que sentem e ser acolhidos.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Como a sociedade pode ajudar?<\/h2>\n<p>Verztman diz que h\u00e1 v\u00e1rias formas de acolher a pessoa que sofre com timidez. Sentir pena n\u00e3o \u00e9 uma delas.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 importante que a gente n\u00e3o tenha pena, n\u00e3o coloque essas pessoas em situa\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o. &#8216;Que pena, que chato&#8230;&#8217; Isso \u00e9 uma maneira de rebaixar a pessoa ao nosso olhar. \u00c9 importante conversar com a pessoa, se ela der abertura e quiser, poder falar sobre isso&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Para Verztman, as pessoas que sofrem de vergonha est\u00e3o trazendo uma mensagem a respeito do mundo que constru\u00edmos.<\/p>\n<p>&#8220;Est\u00e3o refletindo um pouco do que n\u00f3s somos. A escola, por exemplo, se tornou um espa\u00e7o que n\u00e3o acolhe esse tipo de sujeito. Empresas ou outros locais de trabalho, onde as pessoas t\u00eam de se expor o tempo todo para provar que t\u00eam capacidade de lideran\u00e7a, tamb\u00e9m podem n\u00e3o ser espa\u00e7os acolhedores.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;As coisas que v\u00e3o melhorar a vida dos mais envergonhados s\u00e3o tamb\u00e9m coisas que podem melhorar a situa\u00e7\u00e3o de todos. Mais toler\u00e2ncia pela diferen\u00e7a \u00e9 uma delas.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption body-width\"><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;No segundo dia de aula, um professor fez uma brincadeira e, como eu estava sentada<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":110076,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/timidez.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/timidez-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/timidez-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/timidez.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/timidez.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/timidez.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/timidez.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/timidez.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/timidez.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/timidez.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"&#8220;No segundo dia de aula, um professor fez uma brincadeira e, como eu estava sentada","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/110075"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=110075"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/110075\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/110076"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=110075"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=110075"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=110075"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}