{"id":109823,"date":"2019-07-24T10:00:25","date_gmt":"2019-07-24T13:00:25","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=109823"},"modified":"2019-07-23T19:05:32","modified_gmt":"2019-07-23T22:05:32","slug":"dispersao-da-araucaria-na-mata-atlantica-foi-influenciada-por-povos-pre-colombianos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/dispersao-da-araucaria-na-mata-atlantica-foi-influenciada-por-povos-pre-colombianos\/","title":{"rendered":"Dispers\u00e3o da arauc\u00e1ria na Mata Atl\u00e2ntica foi influenciada por povos pr\u00e9-colombianos"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/araiacaria.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-109824\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/araiacaria-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/araiacaria-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/araiacaria.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>A explora\u00e7\u00e3o intensiva de madeira praticada no Sul do Brasil a partir do s\u00e9culo 19 \u00e9, em boa medida, respons\u00e1vel pelo fato de a arauc\u00e1ria (<i>Araucaria angustifolia<\/i>) ser hoje uma esp\u00e9cie em risco extremo de extin\u00e7\u00e3o. Contudo, dados de um estudo ainda em andamento sugerem que em outro momento da hist\u00f3ria a a\u00e7\u00e3o humana beneficiou a expans\u00e3o dessa con\u00edfera na Mata Atl\u00e2ntica, ajudando a moldar a regi\u00e3o hoje conhecida como Mata de Arauc\u00e1rias, que se estende por Paran\u00e1, Santa Catarina e parte do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>\u201cA forma como a esp\u00e9cie est\u00e1 hoje distribu\u00edda parece ter tanto influ\u00eancia clim\u00e1tica quanto antr\u00f3pica. O que n\u00e3o sabemos \u00e9 se foi algo ocasional ou se os humanos agiram intencionalmente para expandir a popula\u00e7\u00e3o de arauc\u00e1rias e, assim, ampliar sua fonte de comida\u201d, disse Mariana Vasconcellos, p\u00f3s-doutoranda na City University of New York (Cuny) e no Jardim Bot\u00e2nico de Nova York (NYBG), nos Estados Unidos, \u00e0\u00a0<b>Ag\u00eancia FAPESP.\u00a0<\/b><\/p>\n<p>Segundo a pesquisadora, estudos arqueol\u00f3gicos j\u00e1 mostraram que as primeiras popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas que habitaram o Sul do Brasil se alimentavam do pinh\u00e3o, a semente da arauc\u00e1ria, h\u00e1 pelo menos 4,3 mil anos.<\/p>\n<p>O trabalho de Vasconcellos \u00e9 conduzido pelos pesquisadores\u00a0<b><a href=\"https:\/\/www.carnavallab.org\/ana\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ana Carolina Carnaval<\/a><\/b>\u00a0(Cuny) e\u00a0<b><a href=\"http:\/\/www.nybg.org\/person\/fabian-michelangeli\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fabian Michelangeli<\/a><\/b>\u00a0(NYBG) no \u00e2mbito de um\u00a0<b><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/82209\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Projeto Tem\u00e1tico<\/a><\/b>\u00a0apoiado pela FAPESP e pela ag\u00eancia norte-americana National Science Foundation (NSF) e realizado no \u00e2mbito do programa\u00a0<b><a href=\"http:\/\/www.biota.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">BIOTA-FAPESP<\/a><\/b>.<\/p>\n<p>O objetivo da pesquisa colaborativa \u00e9 conhecer a distribui\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies animais e vegetais na Mata Atl\u00e2ntica, entender como a fauna e a flora reagiram \u00e0s varia\u00e7\u00f5es no clima ocorridas nos \u00faltimos milhares de anos e, assim, levantar informa\u00e7\u00f5es que ajudar\u00e3o a prever o impacto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no bioma e a estabelecer \u00e1reas e esp\u00e9cies-chave para pol\u00edticas de conserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Resultados de diversas linhas de investiga\u00e7\u00e3o vinculadas ao Tem\u00e1tico foram apresentados no dia 12 de julho, na sede da FAPESP, durante o simp\u00f3sio\u00a0<b><a href=\"http:\/\/www.fapesp.br\/eventos\/usbiota2019\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Dimensions US-BIOTA S\u00e3o Paulo<\/a><\/b>: A multidisciplinary framework for biodiversity prediction in the brazilian Atlantic Forest hotspot.<\/p>\n<p>No caso da pesquisa de p\u00f3s-doutorado de Vasconcellos, a proposta \u00e9 descobrir como as popula\u00e7\u00f5es de arauc\u00e1ria se comportaram (se houve expans\u00e3o ou retra\u00e7\u00e3o) desde a \u00faltima era do gelo (\u00faltimo m\u00e1ximo glacial), ocorrida h\u00e1 cerca de 20 mil anos. Para isso, foram coletadas amostras da esp\u00e9cie em \u00e1reas com vegeta\u00e7\u00e3o nativa remanescente na Serra da Mantiqueira, em S\u00e3o Paulo, e nos estados da Regi\u00e3o Sul para realizar a an\u00e1lise gen\u00f4mica. Os dados obtidos por sequenciamento foram cruzados com registros de p\u00f3len fossilizado dispon\u00edveis na literatura cient\u00edfica e modelos capazes de estimar como era o clima em eras passadas.<\/p>\n<p>\u201cSabemos que o clima frio e \u00famido \u00e9 o ideal para a arauc\u00e1ria. Modelamos a distribui\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie durante o \u00faltimo m\u00e1ximo glacial [quando estava muito frio e seco], durante o Holoceno M\u00e9dio [per\u00edodo mais quente e \u00famido ocorrido h\u00e1 cerca de 6 mil anos] e comparamos com a distribui\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie no presente [quente como o Holoceno M\u00e9dio, por\u00e9m mais seco]. De modo geral, vimos que \u00e0 medida que a temperatura aumentou a \u00e1rea de distribui\u00e7\u00e3o das arauc\u00e1rias foi diminuindo. No entanto, os registros de p\u00f3len fossilizado indicam que h\u00e1 cerca de 4 mil anos houve uma explos\u00e3o populacional\u201d, contou Vasconcellos.<\/p>\n<p>Resultados das an\u00e1lises gen\u00f4micas, segundo a pesquisadora, refor\u00e7am a hip\u00f3tese de influ\u00eancia humana nesse fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>\u201cEnquanto na Serra da Mantiqueira vemos uma popula\u00e7\u00e3o geneticamente diferenciada, que parece ter evolu\u00eddo naturalmente e com pouca interfer\u00eancia antr\u00f3pica, na Mata de Arauc\u00e1rias temos indiv\u00edduos muito parecidos entre si, distribu\u00eddos em uma ampla \u00e1rea geogr\u00e1fica. Isso \u00e9 caracter\u00edstico de uma expans\u00e3o populacional violenta. Como essa esp\u00e9cie tem grande longevidade e leva entre 20 e 40 anos para come\u00e7ar a se reproduzir, dificilmente fatores clim\u00e1ticos conseguiriam isoladamente explicar uma dispers\u00e3o t\u00e3o r\u00e1pida\u201d, disse Vasconcellos.<\/p>\n<p>A pesquisadora est\u00e1, no momento, reanalisando os dados com aux\u00edlio de modelos capazes de fornecer informa\u00e7\u00f5es mais cont\u00ednuas sobre as altera\u00e7\u00f5es no clima ocorridas nos \u00faltimos 20 mil anos. \u201cCom as novas an\u00e1lises poderemos confirmar a influ\u00eancia humana na expans\u00e3o da arauc\u00e1ria e determinar em que momento da hist\u00f3ria ela ocorreu\u201d, disse.<\/p>\n<p>De acordo com\u00a0<b><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/487\/cristina-yumi-miyaki\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cristina Miyaki<\/a><\/b>, professora do Instituto de Bioci\u00eancias da Universidade de S\u00e3o Paulo (IB-USP) e uma das coordenadoras do Tem\u00e1tico, a influ\u00eancia de povos pr\u00e9-colombianos na formata\u00e7\u00e3o da floresta amaz\u00f4nica e na propaga\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies de interesse, como a castanheira-do-par\u00e1 (<i>Bertholletia excelsa<\/i>), j\u00e1 foi alvo de diversos estudos. \u201cNa Mata Atl\u00e2ntica o tema ainda \u00e9 relativamente pouco discutido\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201cEste foi o \u00fanico estudo do projeto que explorou o impacto antr\u00f3pico em termos de dispers\u00e3o de esp\u00e9cies na Mata Atl\u00e2ntica. \u00c9 um caso especial, que n\u00e3o fazia parte do nosso escopo inicial\u201d, disse Carnaval, professora do Departamento de Biologia da Cuny.<\/p>\n<p><b>Novas esp\u00e9cies<\/b><\/p>\n<p>Outro estudo apresentado durante o simp\u00f3sio \u2013 conduzido nos \u00faltimos quatro anos durante o doutorado de Lucas Bacci, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) \u2013 praticamente dobrou o n\u00famero de esp\u00e9cies conhecidas do g\u00eanero\u00a0<i>Bertolonia<\/i>, end\u00eamico da Mata Atl\u00e2ntica e caracterizado por plantas de folhas grandes e infloresc\u00eancia escorpioide (flores inseridas sempre do mesmo lado).<\/p>\n<p>Foram 12 novas esp\u00e9cies descritas, a maioria na regi\u00e3o central e norte do bioma. \u201cO g\u00eanero \u00e9 encontrado em toda a Mata Atl\u00e2ntica, mas somente cinco esp\u00e9cies s\u00e3o largamente distribu\u00eddas. A maioria \u00e9 microend\u00eamica, principalmente as do norte\u201d, disse.<\/p>\n<p>Ao recriar a hist\u00f3ria evolutiva dessas esp\u00e9cies o pesquisador concluiu que se trata de um g\u00eanero monofil\u00e9tico, ou seja, que evoluiu a partir de um ancestral comum h\u00e1 cerca de 30 milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>O evento trouxe ainda dados sobre a diversidade e a filogenia de aves, opili\u00f5es, borboletas e sobre a influ\u00eancia de fatores clim\u00e1ticos como temperatura e precipita\u00e7\u00e3o na formata\u00e7\u00e3o do bioma.<\/p>\n<p>\u201cUma das coisas que descobrimos com os trabalhos que v\u00eam sendo feitos desde 2014 \u00e9 que a Mata Atl\u00e2ntica n\u00e3o evoluiu sozinha. As conex\u00f5es dessa floresta com a Amaz\u00f4nia e com os Andes est\u00e3o entre os motivos que a tornam t\u00e3o diversa. Vemos que existem v\u00e1rias liga\u00e7\u00f5es entre essas florestas, que foram mediadas pelo clima ao longo do tempo\u201d, contou Carnaval.<\/p>\n<p>Agora que a parte de coleta de dados est\u00e1 sendo finalizada pelos 16 pesquisadores associados e seus alunos envolvidos na iniciativa, ter\u00e1 in\u00edcio um grande esfor\u00e7o de integra\u00e7\u00e3o do conhecimento multidisciplinar que permitir\u00e1 desenvolver modelos preditivos.<\/p>\n<p>\u201cUma das propostas \u00e9 acompanhar por sat\u00e9lite a varia\u00e7\u00e3o da temperatura e, assim, gerar modelos que estimem a diversidade que est\u00e1 sendo perdida e os locais em que isso est\u00e1 ocorrendo\u201d, disse Carnaval.<\/p>\n<p>Segundo Miyaki, tem sido um grande desafio colocar um grupo t\u00e3o diverso de cientistas para trabalhar juntos. \u201cA equipe re\u00fane bi\u00f3logos de diferentes \u00e1reas \u2013 sistematas, ec\u00f3logos, geneticistas e paleobot\u00e2nicos \u2013, ge\u00f3logos, paleoclimat\u00f3logos, especialistas em modelagem e engenheiros envolvidos com sensoriamento remoto. Um programa regular de financiamento \u00e0 pesquisa n\u00e3o nos permitiria ousar tanto. S\u00f3 foi poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 parceria entre a FAPESP e a NSF\u201d, disse.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A explora\u00e7\u00e3o intensiva de madeira praticada no Sul do Brasil a partir do s\u00e9culo 19<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":109824,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/araiacaria.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/araiacaria-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/araiacaria-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/araiacaria.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/araiacaria.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/araiacaria.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/araiacaria.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/araiacaria.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/araiacaria.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/araiacaria.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"A explora\u00e7\u00e3o intensiva de madeira praticada no Sul do Brasil a partir do s\u00e9culo 19","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/109823"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=109823"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/109823\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/109824"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=109823"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=109823"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=109823"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}