{"id":109633,"date":"2019-07-20T12:30:24","date_gmt":"2019-07-20T15:30:24","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=109633"},"modified":"2019-07-19T22:10:38","modified_gmt":"2019-07-20T01:10:38","slug":"flores-com-agrotoxicos-preocupam-criadores-de-abelhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/flores-com-agrotoxicos-preocupam-criadores-de-abelhas\/","title":{"rendered":"Flores com agrot\u00f3xicos preocupam criadores de abelhas"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mel.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-109634\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mel-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mel-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mel.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>A f\u00e9rtil regi\u00e3o do Vale do S\u00e3o Francisco, que abrange os estados de Minas Gerais, Bahia e Pernambuco, vem se destacando desde a d\u00e9cada de 70 por sua produ\u00e7\u00e3o de frutas, hortali\u00e7as, uvas e vinhos e, mais recentemente, por sua produ\u00e7\u00e3o de mel. Mas n\u00e3o s\u00e3o os produtores os \u00fanicos respons\u00e1veis por esse sucesso. Insetos polinizadores como abelhas africanizadas, abelhas nativas e mamangavas (abelhas do g\u00eanero\u00a0<em>Xylocopa<\/em>) respondem por boa parte da poliniza\u00e7\u00e3o dos cultivos e fornecem um servi\u00e7o ambiental essencial e gratuito para a fruticultura. Esse servi\u00e7o est\u00e1 amea\u00e7ado pelo aumento na libera\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos, principalmente neonicotinoides como o clotianidina, o imidacloprid e o tiametoxam; e o fipronil, produto proibido na Europa h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada. Os produtores de maracuj\u00e1 do Vale do S\u00e3o Francisco j\u00e1 sentem a aus\u00eancia da mamangava nos seus cultivos e 70% das flores j\u00e1 s\u00e3o polinizadas de forma manual (t\u00e9cnica chamada popularmente de \u201cfazer fruto com as m\u00e3os\u201d). Em outros cultivos, como mel\u00e3o, por exemplo, caixas racionais de abelhas africanizadas est\u00e3o sendo alugadas para tentar minimizar a redu\u00e7\u00e3o das abelhas nativas. Nessas col\u00f4nias locadas, tem sido recorrente o desaparecimento ou mortes de abelhas.<\/p>\n<p>Aline Candida Ribeiro Andrade e Silva, doutora em Entomologia e pesquisadora do Centro de Manejo de Fauna da Caatinga (Cemafauna) da Universidade Federal do Vale do S\u00e3o Francisco (UNIVASF) em Petrolina (PE), explica a origem do problema que vem acontecendo com as abelhas da regi\u00e3o: \u201cEsse cen\u00e1rio de mortandade e desaparecimento das abelhas come\u00e7ou em meados de 2007, nos Estados Unidos, e vem acontecendo em todo o mundo. Em maio de 2019 foram registradas\u00a0<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/agronegocios\/noticia\/2019\/05\/26\/ritmo-de-liberacao-de-agrotoxicos-em-2019-e-o-maior-ja-registrado.ghtml\" rel=\"noopener noreferrer\">169 novas libera\u00e7\u00f5es<\/a>\u00a0de pesticidas no Brasil. Concomitante \u2013 o que n\u00e3o podemos chamar de coincid\u00eancia \u2013, as narrativas dos apicultores daqui da regi\u00e3o s\u00e3o que as col\u00f4nias est\u00e3o desaparecendo, que nas caixas que eles locam para as \u00e1reas de cultivo agr\u00edcola as abelhas est\u00e3o morrendo, ou ent\u00e3o que essas col\u00f4nias n\u00e3o voltam. Eles narram coisas do tipo &#8216;das 60 col\u00f4nias que eu loquei para meu cultivo de mangas, de melancia ou de mel\u00e3o eu s\u00f3 recebi duas ou tr\u00eas&#8217;, e eles precisam arcar com esse preju\u00edzo. Outro ponto que eles colocam \u00e9 quando o api\u00e1rio est\u00e1 muito pr\u00f3ximo dessas \u00e1reas com uso de pesticidas\u201d.<\/p>\n<p>Diante das narrativas de desaparecimento e morte das abelhas, Andrade e Silva e seus colaboradores coletaram alguns esp\u00e9cimes para an\u00e1lise, mas o resultado ainda n\u00e3o saiu. \u201cO que fizemos, ent\u00e3o, para antecipar as investiga\u00e7\u00f5es sobre esse problema de sa\u00fade p\u00fablica foi fazer an\u00e1lise do mel. As amostras de mel analisadas foram cedidas por criadores de abelhas da regi\u00e3o do Vale do S\u00e3o Francisco, al\u00e9m de amostras recolhidas no mercado informal nas cidades de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA). As amostras foram ent\u00e3o estocadas, conservadas e encaminhadas pela Universidade Federal do Vale do S\u00e3o Francisco para an\u00e1lise toxicol\u00f3gica na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) de Ribeir\u00e3o Preto\u201d, esclareceu a pesquisadora.<\/p>\n<p>Foram analisadas 468 amostras de mel quanto \u00e0 presen\u00e7a de res\u00edduos de fipronil, tiametoxam, dinotefuran, imidaclopride, nitenpiram, acetamiprode, tiacloprid e glifosato. Destas, 71 amostras, provenientes de produ\u00e7\u00e3o org\u00e2nica, foram negativadas em rela\u00e7\u00e3o aos pesticidas. Entre as demais amostras, 321 (68% do total analisado) apresentaram res\u00edduos de glifosato no mel. As frequ\u00eancias e amplitudes desse agrot\u00f3xico nas amostras ser\u00e3o posteriormente divulgadas, ap\u00f3s an\u00e1lises detalhadas feitas pela Universidade de Cardiff, na Inglaterra. \u201cO glifosato \u00e9 considerado cancer\u00edgeno e letal. Se ele \u00e9 cancer\u00edgeno do ponto de vista de inala\u00e7\u00e3o e toque (dermatog\u00eanico), imagine se for consumido. Os criadores de abelhas demonstram preocupa\u00e7\u00e3o e j\u00e1 estamos trabalhando em conjunto para ampliar o n\u00famero de amostras a serem cedidas pelos produtores de mel. Face a produ\u00e7\u00e3o de mel da regi\u00e3o do Vale do S\u00e3o Francisco, os resultados aqui indicados n\u00e3o somam mais que 3% do que poder\u00e1 ser feito em colabora\u00e7\u00e3o com todos os criadores para resultados mais robustos. Por hora, os resultados s\u00e3o preliminares e t\u00eam a inten\u00e7\u00e3o de sinalizar e provocar criadores de abelhas e produtores da regi\u00e3o para um problema que j\u00e1 \u00e9 realidade em outros estados do pa\u00eds\u201d, alertou Andrade e Silva.<\/p>\n<p><strong>A\u00e7\u00f5es judiciais<\/strong><\/p>\n<p>Andrade e Silva esclarece que os apicultores t\u00eam recorrido ao Minist\u00e9rio P\u00fablico de seus respectivos estados. Em Petrolina, consta no Minist\u00e9rio P\u00fablico de Pernambuco a Not\u00edcia Fato n\u00ba 46\/2019 encaminhada ao \u00f3rg\u00e3o para investiga\u00e7\u00e3o e o Auto 2019\/19985, que versa sobre o aumento da mortalidade de abelhas pr\u00f3ximas as \u00e1reas de irriga\u00e7\u00e3o. Junto a estes procedimentos est\u00e1 o laudo, em Nota T\u00e9cnica 03\/2019 da UNIVASF, com detalhes sobre o grau de contamina\u00e7\u00e3o e pesticidas presentes no mel.<\/p>\n<p><strong>Pesquisas recentes alertam sobre o problema<\/strong><\/p>\n<p>Em 2014, uma pesquisa online cont\u00ednua foi lan\u00e7ada na internet com o objetivo de avaliar as perdas de col\u00f4nias de abelhas no Brasil. As ocorr\u00eancias a partir de 01 de janeiro de 2013 foram aceitas para serem postadas na conex\u00e3o do site &lt;<a href=\"http:\/\/www.semabelhasemalimento.com.br\/beealert\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/www.semabelhasemalimento.com.br\/beealert<\/a>&gt;, bem como em aplicativos para smartphones e tablets. At\u00e9 31 de dezembro de 2017, 322 casos foram qualificados e validados para an\u00e1lises. Os resultados mostraram uma perda total de 49,7% de colmeias produtivas no per\u00edodo; em 86,7% dos casos os agrot\u00f3xicos foram relatados como respons\u00e1veis pela morte ou desaparecimento das abelhas; os inseticidas neonicotinoides e o fipronil lideraram as listas de agrot\u00f3xicos (55,9%) e o estado de S\u00e3o Paulo deteve 47% dos registros de mortes de abelhas no Brasil. Os resultados do estudo foram\u00a0<a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/333125925_Bee_colony_losses_in_Brazil_a_5-year_online_survey\" rel=\"noopener noreferrer\">publicados<\/a>\u00a0na revista Apidologie em maio deste ano.<\/p>\n<p>Outro\u00a0<a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007\/s13592-019-00676-x\" rel=\"noopener noreferrer\">estudo<\/a>\u00a0publicado na mesma revista em julho deste ano mostrou que an\u00e1lises toxicol\u00f3gicas em 114 amostras de abelhas mortas e vivas coletadas no campo possu\u00edam contamina\u00e7\u00f5es \u00fanicas e m\u00faltiplas, onde se registrou a presen\u00e7a de fipronil em 55,3%, tiametoxam em 21%, imidacloprid em 5,3%, nitenpiram em 1,8% e outros agrot\u00f3xicos em 11%, sendo estes amplamente utilizados em planta\u00e7\u00f5es de cana-de-a\u00e7\u00facar e pomares de laranja na regi\u00e3o agroindustrial do noroeste do estado de S\u00e3o Paulo. Foram estimadas mais de 2 bilh\u00f5es de abelhas mortas nos registros contabilizados no per\u00edodo. As abelhas africanizadas (<em>Apis mellifera<\/em>) e as abelhas nativas jata\u00ed (<em>Tetragonisca angustula<\/em>) foram as esp\u00e9cies mais prejudicadas, seguidas das mamangavas e abelhas nativas eussociais e solit\u00e1rias, conforme relatado na pesquisa, que durou cinco anos.<\/p>\n<p><strong>Solu\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Para Aline Andrade e Silva, poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es para o problema devem abranger medidas educativas, administrativas e de comunica\u00e7\u00e3o de risco: \u201cAcho que um trabalho de conscientiza\u00e7\u00e3o dos produtores acerca do uso dos pesticidas \u00e9 um bom come\u00e7o, embora as fiscaliza\u00e7\u00f5es nas inst\u00e2ncias municipal, estadual e federal devam determinar e notificar os crimes contra a fauna previstos em Lei. Outra forma de lidar com esse problema \u00e9 divulgar o que tem acontecido e propor planos de manejo sustent\u00e1vel e a\u00e7\u00f5es mitigadoras ou de compensa\u00e7\u00e3o com vistas a reduzir o uso de pesticidas\u201d, indicou a pesquisadora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A f\u00e9rtil regi\u00e3o do Vale do S\u00e3o Francisco, que abrange os estados de Minas Gerais,<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":109634,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mel.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mel-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mel-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mel.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mel.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mel.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mel.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mel.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mel.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mel.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"A f\u00e9rtil regi\u00e3o do Vale do S\u00e3o Francisco, que abrange os estados de Minas Gerais,","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/109633"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=109633"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/109633\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/109634"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=109633"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=109633"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=109633"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}