{"id":106520,"date":"2019-05-26T20:34:30","date_gmt":"2019-05-26T23:34:30","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=106520"},"modified":"2019-05-26T20:44:55","modified_gmt":"2019-05-26T23:44:55","slug":"ele-representa-o-agronegocio-e-e-contra-mudar-regra-ambiental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/ele-representa-o-agronegocio-e-e-contra-mudar-regra-ambiental\/","title":{"rendered":"Ele representa o agroneg\u00f3cio. E \u00e9 contra mudar regra ambiental"},"content":{"rendered":"<p>Para Luiz Cornacchioni, \u2018n\u00e3o d\u00e1 para negar a mudan\u00e7a clim\u00e1tica\u2019. Diretor-executivo de entidade do setor de produ\u00e7\u00e3o diz ainda que altera\u00e7\u00f5es em C\u00f3digo Florestal e sa\u00edda do Acordo de Paris seriam \u2018retrocesso\u2019<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/incoming\/imagens\/Pomar-de-laranjas\/ALTERNATES\/LANDSCAPE_640\/Pomar%20de%20laranjas\" width=\"640\" height=\"399\" \/><\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o d\u00e1 para rasgar compromisso como se rasga guardanapo\u201d, afirmou ao Nexo o agr\u00f4nomo Luiz Cornacchioni, diretor-executivo da Abag (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira do Agroneg\u00f3cio), em refer\u00eancia a ideias de representantes da pol\u00edtica nacional de modificar as regras do C\u00f3digo Florestal, ou de recuar em rela\u00e7\u00e3o ao Acordo de Paris para o clima.<\/p>\n<p>Apresentando outro lado do agroneg\u00f3cio, Cornacchioni falou com o Nexo na sexta-feira (3), por telefone, e comentou a rela\u00e7\u00e3o entre o setor e meio ambiente, o papel da agropecu\u00e1ria para o combate \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica e desafios no Brasil em 2019, dissonante de produtores que, diz ele, insistem em n\u00e3o ver a conserva\u00e7\u00e3o ambiental como aliada.<\/p>\n<p>Agr\u00f4nomo graduado pela Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), da USP (Universidade de S\u00e3o Paulo), Cornacchioni tem experi\u00eancia h\u00e1 27 anos nas \u00e1reas de papel e celulose, florestas plantadas e no setor sucroalcooleiro, de derivados da cana-de-a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>Antes da Abag, foi diretor-executivo da Abraf (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas) e teve postos executivos na Terracal Alimentos e Bioenergia e na Suzano Papel e Celulose, uma das maiores empresas do agroneg\u00f3cio no pa\u00eds e l\u00edder mundial no mercado de papel.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de acumular fun\u00e7\u00f5es no setor produtivo, Cornacchioni \u00e9 l\u00edder da Coaliz\u00e3o Brasil Clima, Florestas e Agricultura, movimento de entidades do agroneg\u00f3cio, cientistas e organiza\u00e7\u00f5es da \u00e1rea de meio ambiente que trata de quest\u00f5es associadas \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica, propondo o desmatamento zero e a ado\u00e7\u00e3o de uma agricultura de baixo carbono.<\/p>\n<p>Um dos maiores setores na economia e exporta\u00e7\u00f5es brasileiras, o agroneg\u00f3cio, representado pela chamada bancada do boi, muitas vezes aparece como antagonista do meio ambiente no Brasil \u2014 ruralistas que apoiam o presidente Jair Bolsonaro (PSL) prop\u00f5em a flexibiliza\u00e7\u00e3o de normas ambientais e revoga\u00e7\u00e3o de \u00e1reas protegidas, por exemplo.<\/p>\n<p>2,27 bi de toneladas de g\u00e1s carb\u00f4nico foram emitidas em 2016 pela agropecu\u00e1ria<\/p>\n<p>7.900 km\u00b2 de \u00e1rea da Amaz\u00f4nia foram suprimidos entre 2017 e 2018<\/p>\n<p>80% da expans\u00e3o das \u00e1reas cultivadas no Brasil entre 2000 e 2014 se deu sobre \u00e1reas de pastagens j\u00e1 desmatadas; agricultura de alta produtividade n\u00e3o est\u00e1 entre atividades mais predat\u00f3rias, ao contr\u00e1rio da pecu\u00e1ria extensiva, grilagem e extra\u00e7\u00e3o ilegal de madeira<\/p>\n<p>Ao comentar propostas como a extin\u00e7\u00e3o de reservas legais, levantada no Senado, e demandas de representantes do agroneg\u00f3cio para revoga\u00e7\u00e3o de unidades de conserva\u00e7\u00e3o, Cornacchioni afirma que s\u00e3o \u201cretrocessos\u201d e n\u00e3o falam por todo o setor, nem mesmo pelas principais lideran\u00e7as \u2014 que, pensando nas exporta\u00e7\u00f5es, veem a sustentabilidade tanto quanto necessidade da atividade quanto como valor de mercado.<\/p>\n<p>A ado\u00e7\u00e3o de tecnologias para a agricultura de baixo carbono, uma das principais propostas da coaliz\u00e3o de que faz parte, tem o apoio da ministra da Agricultura, a pecuarista Tereza Cristina (DEM-MT), que ele considera \u201ccraque\u201d, com experi\u00eancia no setor e \u201cvis\u00e3o estrat\u00e9gica\u201d como governante para passar a valorizar os ativos ambientais brasileiros.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o d\u00e1 para negar que estamos vivendo a mudan\u00e7a clim\u00e1tica\u201d, diz o agr\u00f4nomo, que diz se preocupar com os impactos do aquecimento global n\u00e3o apenas para a atividade agropecu\u00e1ria, que depende da disponibilidade de recursos naturais, mas para a vida \u2014 tanto na cidade como no campo \u2014 das pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es, como seus filhos e netos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/incoming\/gsjumg-Luiz-Cornacchioni\/ALTERNATES\/PORTRAIT_640\/Luiz%20Cornacchioni\" width=\"640\" height=\"1024\" \/><\/p>\n<p><strong>Como tem acontecido o di\u00e1logo entre ambientalistas e o agroneg\u00f3cio, dentro da organiza\u00e7\u00e3o de que participa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LUIZ CORNACCHIONI<\/strong> &#8211; Acontece de maneira bastante positiva. Desde que a coaliz\u00e3o come\u00e7ou, em 2014, os resultados que tivemos com a contribui\u00e7\u00f5es para as NDCs [Contribui\u00e7\u00f5es Nacionalmente Determinadas, em portugu\u00eas, que se referem \u00e0s propostas que o Brasil fez no Acordo de Paris, em 2015, para combater a crise do clima] foi interessante, mostrando que conseguimos pensar estrat\u00e9gias efetivas.<\/p>\n<p>Outro ponto que vejo como positivo na coaliz\u00e3o \u00e9 a evolu\u00e7\u00e3o, o amadurecimento de nosso di\u00e1logo interno. Desde 2018, criamos a lideran\u00e7a compartilhada, dividindo os l\u00edderes do movimento entre um representante do agroneg\u00f3cio e outro, do setor ambiental. Por enquanto, sou eu, pela Associa\u00e7\u00e3o Brasileira do Agroneg\u00f3cio, e o Andr\u00e9 Guimar\u00e3es, pelo Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amaz\u00f4nia).<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, criamos a Vis\u00e3o 2030-2050, um documento que mostra como a coaliz\u00e3o pensa a agricultura e as florestas brasileiras para as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. Foi um trabalho intenso, feito a quase 200 m\u00e3os. Esse texto se divide em quatro grandes eixos. Primeiro, tratamos do uso da terra, propondo a\u00e7\u00f5es para o desmatamento, por exemplo. Segundo, falamos da agricultura e economia de baixo carbono. Falamos tamb\u00e9m dos usos alternativos das florestas \u2014 usos racionais para o potencial florestal, al\u00e9m de tratarmos, principalmente, do pagamento de servi\u00e7os ambientais [para quem preserva vegeta\u00e7\u00e3o nativa]. Por \u00faltimo, tratamos da valoriza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dessa sustentabilidade, com foco na economia de baixo carbono, que passa pelo uso de biocombust\u00edveis, biodiesel, etanol e biometano, entre outras alternativas.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 a agricultura de baixo carbono proposta pelo grupo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LUIZ CORNACCHIONI<\/strong> &#8211; Ela se baseia no melhor aproveitamento da terra, com o menor impacto poss\u00edvel. Ela envolve, por exemplo, o uso de tecnologias mais modernas para o preparo do solo, o que leva ao aproveitamento de seus nutrientes e da defesa vegetal. Al\u00e9m disso, onde h\u00e1 irriga\u00e7\u00e3o, prop\u00f5e-se fazer a irriga\u00e7\u00e3o mais direcionada poss\u00edvel, para que se usem menos recursos h\u00eddricos. Esse modelo tamb\u00e9m busca melhorar a conserva\u00e7\u00e3o de solo, para evitar perda de \u00e1gua e de nutrientes. \u00c9 uma agricultura que, no geral, melhora a capacidade do solo \u2014 algo que, al\u00e9m de provocar menos emiss\u00f5es [de g\u00e1s carb\u00f4nico], poupa o uso de outros recursos para tornar a terra mais produtiva. A discuss\u00e3o sobre modelos alternativos n\u00e3o vem de agora, mas desde o in\u00edcio do debate sobre a mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Vale dizer que a agricultura de baixo carbono n\u00e3o se contrap\u00f5e \u00e0 produtividade agr\u00edcola. A curva de produtividade da soja, por exemplo, foi cerca de quatro vezes maior que a curva de uso da \u00e1rea [agr\u00edcola] no Brasil nos \u00faltimos anos. \u00c9 um exemplo direto de que o ganho de produtividade pode se relacionar com o aproveitamento da capacidade do solo, e n\u00e3o necessariamente com a expans\u00e3o de \u00e1rea de cultivo. A agricultura de baixo carbono envolve tamb\u00e9m o aproveitamento de tecnologias, como a melhoria de material gen\u00e9tico, melhoria de manejo do cultivo. Isso tem muito retorno, principalmente para o produtor, que pode reduzir seus custos de produ\u00e7\u00e3o em terras mais produtivas.<\/p>\n<p><strong>O que o senhor espera da atua\u00e7\u00e3o da ministra da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento, a pecuarista Tereza Cristina?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LUIZ CORNACCHIONI<\/strong> &#8211; Acredito que ser\u00e1 uma gest\u00e3o das melhores poss\u00edveis. A ministra \u00e9 produtora rural, produtora agropecu\u00e1ria, tem experi\u00eancia. No Mato Grosso, passou pelo Executivo, como secret\u00e1ria estadual, foi \u2014 e \u00e9 \u2014 deputada, conhecendo o Legislativo, e esteve na Federa\u00e7\u00e3o da Agricultura do estado. Ela tem todas as condi\u00e7\u00f5es, tanto por seu conhecimento quanto por sua vis\u00e3o de futuro, de fazer uma gest\u00e3o excepcional. Ela sabe compreender o que \u00e9 importante.<\/p>\n<p>A coaliz\u00e3o apresentou \u00e0 ministra, h\u00e1 cerca de tr\u00eas semanas, a Vis\u00e3o 2030-2050, e falamos sobre agricultura de baixo carbono, pagamento por servi\u00e7os ambientais, entre outros temas envolvendo o setor. Ela compartilha da nossa vis\u00e3o. Um dos principais pontos que discutimos foi a necessidade de pararmos de usar nossos ativos ambientais apenas a efeito de compara\u00e7\u00e3o [com os outros pa\u00edses, de modo a \u201cproteger\u201d o Brasil de cr\u00edticas no setor] e transform\u00e1-los de fato em vantagens competitivas, valorizando-os em prol do produtor rural. A ministra entendeu esse tipo de estrat\u00e9gia. N\u00f3s vamos caminhar junto do minist\u00e9rio nos pontos em que temos converg\u00eancia de ideias e de a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>O sr. n\u00e3o v\u00ea poss\u00edvel conflito de interesses em casos como a demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas passada \u00e0 pasta da Agricultura?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LUIZ CORNACCHIONI<\/strong> &#8211; N\u00e3o sou especialista nesse tema, mas n\u00e3o vejo conflito de interesses. Acredito que a ministra sabe separar poss\u00edveis interesses que compartilha com o setor [agropecu\u00e1rio] de sua miss\u00e3o institucional. \u00c9 preciso cobrar, sim, que o \u00f3rg\u00e3o tenha institui\u00e7\u00f5es fortes, com uma tradi\u00e7\u00e3o de \u00e9tica e gest\u00e3o consolidada, que seja imune a eventuais vontades e manobras de seus dirigentes. Acredito que esse \u00e9 o caso da Tereza Cristina e do Minist\u00e9rio da Agricultura. Se isso n\u00e3o acontecer, e se, no futuro, eu perceber que n\u00e3o foi esse o caso na demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas na pasta da agricultura, vou ter que te ligar de novo e pedir desculpas pela minha posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>No senso comum, o agroneg\u00f3cio \u00e9 visto como antagonista do meio ambiente. Ao mesmo tempo,representantes do setor dizem que a agropecu\u00e1ria faz muito pela prote\u00e7\u00e3o ambiental. De onde vem essa contradi\u00e7\u00e3o de discursos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LUIZ CORNACCHIONI<\/strong> &#8211; A quest\u00e3o do antagonismo n\u00e3o est\u00e1 100% superada. Mas vejo que o setor tem evolu\u00eddo muito nisso. Ainda que esse discurso n\u00e3o seja un\u00e2nime, boa parte do agroneg\u00f3cio entende a import\u00e2ncia de se trabalhar unindo produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria e conserva\u00e7\u00e3o ambiental. Isso mesmo entre partes, representantes, l\u00edderes do setor no Brasil. Acredito que essa antagonismo [com o meio ambiente] est\u00e1 menor que antes \u2014 e que, logicamente, essa tend\u00eancia diminua cada vez mais.<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 para n\u00e3o dizer, al\u00e9m disso, que boa parte [20,5%] das \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o ambiental est\u00e3o hoje nas propriedades rurais privadas, por meio das reservas legais [\u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o definidas pelo C\u00f3digo Florestal e obrigat\u00f3rias em qualquer propriedade rural no Brasil]. Essas \u00e1reas tamb\u00e9m est\u00e3o [13%] nas terras p\u00fablicas \u2014 por exemplo, as unidades de conserva\u00e7\u00e3o \u2014, mas o setor privado tamb\u00e9m faz sua parte. Por causa do C\u00f3digo Florestal, \u00e9 responsabilidade do produtor rural manter e cuidar de uma s\u00e9rie de \u00e1reas de vegeta\u00e7\u00e3o nativa no pa\u00eds. \u00c9 uma contribui\u00e7\u00e3o importante \u2014 e por isso mencionei, no in\u00edcio da conversa, a import\u00e2ncia de melhorar os mecanismos de pagamento por servi\u00e7os ambientais, para criar incentivos para a preserva\u00e7\u00e3o, e deixar menor esse peso da preserva\u00e7\u00e3o sobre as costas dos produtores.<\/p>\n<p>Ainda assim, n\u00e3o vamos esquecer tamb\u00e9m que o produtor \u2014 boa parte dos produtores \u2014 entende que manter \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o ambiental em sua propriedade \u00e9 um ativo importante para ele. Com recursos h\u00eddricos melhores, com biodiversidade [nas \u00e1reas preservadas], a produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria \u00e9 melhor, em quantidade e em qualidade \u2014 com inimigos naturais, \u00e9 poss\u00edvel combater pragas e doen\u00e7as sem necessidade de uso de outros recursos de defesa vegetal, por exemplo. H\u00e1 mais fal\u00e1cia do que verdade nesse antagonismo do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p><strong>Em abril de 2019, mais de 600 cientistas denunciaram o Brasil por \u201cexportar desmatamento\u201d em commodities, incluindo alimentos. A agropecu\u00e1ria tem as maiores emiss\u00f5es de gases do efeito estufa no pa\u00eds. Como o setor pode contribuir para a discuss\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LUIZ CORNACCHIONI<\/strong> &#8211; A agropecu\u00e1ria tem impacto ambiental, como qualquer atividade humana. \u00c9 verdade que algumas atividades t\u00eam mais impacto, enquanto outras t\u00eam menos. No momento, o que procuramos fazer [no setor] para superar isso [a emiss\u00e3o da agropecu\u00e1ria de g\u00e1s carb\u00f4nico e do efeito estufa] \u00e9 aplicar tecnologias cada vez menos impactantes e com menor quantidade de emiss\u00e3o, como eu disse, para reduzir nosso peso no impacto. Para compensar esse impacto, voltamos \u00e0s \u00e1reas de conserva\u00e7\u00e3o nas propriedades \u2014 que, por terem mais vegeta\u00e7\u00e3o, contrapesam as emiss\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou entrar no m\u00e9rito de discutir se a den\u00fancia da carta [de cientistas] foi exagerada, porque n\u00e3o sou cientista para falar isso. Mas, sem d\u00favida, \u00e9 importante entender que h\u00e1 um recado nessa mensagem. A sustentabilidade passou a ter valor de mercado, e consumidores \u2014 tanto do mercado externo quanto do mercado interno \u2014 v\u00e3o passar cada vez mais a exigir de n\u00f3s [do setor] que fa\u00e7amos nossa parte. \u00c9 uma quest\u00e3o pragm\u00e1tica, que se relaciona com nossas exporta\u00e7\u00f5es, com a competitividade do agroneg\u00f3cio brasileiro no cen\u00e1rio externo.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o as demandas do agroneg\u00f3cio, na sua opini\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LUIZ CORNACCHIONI<\/strong> &#8211; Eu prefiro falar do que discutimos internamente na associa\u00e7\u00e3o. Aqui, reunimos os aspectos mais importantes em quatro eixos. Primeiro, a sustentabilidade. Se a tirarmos da equa\u00e7\u00e3o, a conta n\u00e3o fecha. Segundo, inova\u00e7\u00e3o e tecnologia \u2014 algo que tem rela\u00e7\u00e3o com ganhos de produtividade, como eu j\u00e1 disse. Terceiro, temos como necessidade melhorar, enquanto pa\u00eds, nossa infraestrutura e conectividade \u2014 algo que tem muito impacto sobre o agroneg\u00f3cio por causa da dispers\u00e3o de nossas terras, mas que afeta todos os setores da economia. Ainda no estado de S\u00e3o Paulo, que \u00e9 o mais desenvolvido do Brasil, n\u00e3o se consegue fazer uma viagem longa sem o sinal de celular cair umas tr\u00eas vezes. Imagine ent\u00e3o como \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o nos rinc\u00f5es do pa\u00eds, onde n\u00e3o s\u00f3 essa conectividade, mas as pr\u00f3prias estradas t\u00eam diversos problemas. O quarto ponto se refere \u00e0 necessidade de se aumentar e diversificar os recursos financeiros para o agroneg\u00f3cio. N\u00f3s vamos ter cada vez mais que fazer uso do mercado financeiro e do mercado de capitais \u2014 mesmo porque estamos em uma transi\u00e7\u00e3o [no pa\u00eds] para uma economia mais liberal. Vamos ter que nos adaptar.<\/p>\n<p><strong>Como o sr. avalia ideias como o projeto de lei que busca acabar com \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o em im\u00f3veis rurais, ou propostas de alguns representantes do setor de revogar a prote\u00e7\u00e3o sobre unidades de conserva\u00e7\u00e3o? Essas demandas falam pelo setor?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LUIZ CORNACCHIONI<\/strong> &#8211; N\u00e3o, nenhuma, n\u00e3o falam por unanimidade do setor. Mexer no C\u00f3digo Florestal \u00e9 um retrocesso. A discuss\u00e3o at\u00e9 esse c\u00f3digo virar lei foi intensa \u2014 na sociedade, no Congresso, com todos os setores envolvidos, passou por diversas comiss\u00f5es na C\u00e2mara. N\u00e3o \u00e9 uma lei perfeita \u2014 nem era a inten\u00e7\u00e3o que fosse \u2014, mas \u00e9 um c\u00f3digo bem moderno diante do que t\u00ednhamos antes e comparado com a legisla\u00e7\u00e3o de outros pa\u00edses. Esse \u00e9 o primeiro motivo pelo qual n\u00e3o vejo raz\u00e3o em mexer. Mas, al\u00e9m disso, n\u00f3s assumimos um compromisso. N\u00e3o est\u00e1 certo, em benef\u00edcio de alguns [ruralistas], prejudicar os bons produtores rurais, que implementam as regras do C\u00f3digo Florestal. Mais de 4,3 milh\u00f5es de produtores aderiram ao Cadastro Ambiental [registro federal de bases de dados para regularizar propriedades rurais usado para a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas na \u00e1rea]. Mudar as regras no meio do jogo \u2014 que, ali\u00e1s, est\u00e1 estabelecido \u2014 passa um sinal muito ruim, tanto no mercado interno quanto no externo. Essa \u00e9 a quest\u00e3o. Temos que implementar o c\u00f3digo, e n\u00e3o mud\u00e1-lo. H\u00e1 coisas muito mais importantes a se fazer do que voltar para tr\u00e1s e discutir reserva legal.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se temos muitas ou poucas unidades de conserva\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o sou especialista nessa \u00e1rea. \u00c9 importante, claro, que essas \u00e1reas cumpram com os objetivos para os quais elas foram criadas. Se as unidades cumprem com seu objetivo, se esse papel est\u00e1 sendo feito, n\u00e3o h\u00e1 por que reduzir por reduzir. Dez unidades s\u00e3o muitas, 20 s\u00e3o muitas, 1.000 s\u00e3o muitas? Qual o par\u00e2metro? Acredito que devemos fazer uma an\u00e1lise t\u00e9cnica dessas \u00e1reas. N\u00e3o \u00e9 com o f\u00edgado que resolvemos uma coisa da import\u00e2ncia que \u00e9 a unidade de conserva\u00e7\u00e3o, principalmente quando entendemos seu papel para a biodiversidade.<\/p>\n<p><strong>Como a mudan\u00e7a clim\u00e1tica deve ser tratada pelo agroneg\u00f3cio?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LUIZ CORNACCHIONI<\/strong> &#8211; N\u00e3o d\u00e1 para negar que estamos vivendo uma altera\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. Tanto quem mora na cidade quanto quem mora no campo percebe isso. Uma atividade como a agropecu\u00e1ria tem necessidade de recursos naturais \u2014 portanto, qualquer altera\u00e7\u00e3o ambiental, sem d\u00favida, tem impacto sobre a produ\u00e7\u00e3o. Se h\u00e1 uma altera\u00e7\u00e3o de regime h\u00eddrico, h\u00e1 impacto. Se h\u00e1 uma mudan\u00e7a dr\u00e1stica de temperatura, mesma coisa. Esse impacto pode ser mais ou menos intenso a depender do tipo de cultura ou da produ\u00e7\u00e3o animal, ou a depender da regi\u00e3o em que se est\u00e1. Mas o impacto \u00e9 sempre direto. A agropecu\u00e1ria perde performance com altera\u00e7\u00f5es ambientais duras.<\/p>\n<p>As lideran\u00e7as do agroneg\u00f3cio n\u00e3o t\u00eam d\u00favida disso. Acredito que o setor encara o tema com seriedade. O agroneg\u00f3cio participou da discuss\u00e3o das Contribui\u00e7\u00f5es Nacionalmente Determinadas brasileiras, ainda mais do C\u00f3digo Florestal. Um dos resultados desses debates foi justamente a cria\u00e7\u00e3o da Coaliz\u00e3o Brasil, Clima e Florestas, que surgiu pouco antes do Acordo de Paris. Esse acordo saiu da Fran\u00e7a, veio ao Congresso Nacional, foi votado \u2014 \u00e9 claro que ainda h\u00e1 pontos a se discutir, porque nem tudo est\u00e1 fechado.<\/p>\n<p>Agora n\u00e3o d\u00e1 para dizer que n\u00e3o tem acordo, como eu j\u00e1 disse. N\u00e3o d\u00e1 para dizer que n\u00e3o temos que cumprir com esses compromissos. At\u00e9 pode dizer que n\u00e3o temos mais compromissos? Pode. Mas vai ser bacana? N\u00e3o. Vai nos prejudicar sob o ponto de vista de imagem e de mercado? Muito. Principalmente nos \u00edndices de exporta\u00e7\u00f5es brasileiros, sobretudo com alguns pa\u00edses, que t\u00eam isso [a sustentabilidade, as a\u00e7\u00f5es pelo clima] quase como uma regra para comprar produto. N\u00e3o d\u00e1 para a gente sair rasgando acordo como se rasga um guardanapo.<\/p>\n<p><strong>Como qualificar o debate sobre o uso da terra no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LUIZ CORNACCHIONI<\/strong> &#8211; O uso da terra no Brasil \u00e9 important\u00edssimo. Primeiro porque temos um pa\u00eds de dimens\u00f5es continentais, com v\u00e1rios tipos de biomas. Al\u00e9m disso, temos diferentes densidades demogr\u00e1ficas em cada regi\u00e3o. \u00c9 uma discuss\u00e3o complexa, n\u00e3o apenas no setor agr\u00edcola e pecu\u00e1rio, mas na zona urbana \u2014 que, ali\u00e1s, tem muito mais uso e ocupa\u00e7\u00e3o de terras que no setor rural. Mas \u00e9 claro que, no setor agr\u00edcola, trata-se de uma discuss\u00e3o importante \u2014 \u00e9 preciso discutir usos, zoneamento, conflitos pela terra. S\u00e3o ativos importantes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Luiz Cornacchioni, \u2018n\u00e3o d\u00e1 para negar a mudan\u00e7a clim\u00e1tica\u2019. 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