{"id":105392,"date":"2019-05-06T15:44:56","date_gmt":"2019-05-06T18:44:56","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=105392"},"modified":"2019-05-06T15:44:56","modified_gmt":"2019-05-06T18:44:56","slug":"agrotoxicos-podem-ser-a-causa-de-casos-de-cancer-e-malformacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/agrotoxicos-podem-ser-a-causa-de-casos-de-cancer-e-malformacao\/","title":{"rendered":"Agrot\u00f3xicos podem ser a causa de casos de c\u00e2ncer e malforma\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/cancer.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-105394\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/cancer-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/cancer-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/cancer.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>O menino Kalebi Luenzo tinha pouco mais de dois anos quando, de repente, come\u00e7ou a andar com dificuldade. Preocupada, Elis\u00e2ngela, sua m\u00e3e, levou a crian\u00e7a ao m\u00e9dico: ele tinha leucemia. Kalebi cresceu pr\u00f3ximo a uma planta\u00e7\u00e3o de algod\u00e3o, em Lucas do Rio Verde, conhecida no Mato Grosso como capital da agroind\u00fastria.<\/p>\n<p>O mec\u00e2nico de tratores Antonio Correa mudou-se para Tangar\u00e1 da Serra em busca de oportunidade de emprego no crescente setor agropecu\u00e1rio mato-grossense. Depois de dois anos trabalhando em fazendas de soja, teve sua primeira filha, Emanuelly, que nasceu com espinha b\u00edfida \u2013 tipo de malforma\u00e7\u00e3o cong\u00eanita que provoca problemas motores e compromete o funcionamento da bexiga e do intestino.<\/p>\n<p>Giovana Carvalho trabalhava como coordenadora do Centro de Refer\u00eancia de Sa\u00fade do Trabalhador de Sinop, tamb\u00e9m no Mato Grosso, quando come\u00e7ou a sentir dores na regi\u00e3o da lombar e nas costas. Cerca de um m\u00eas depois, descobriu um tipo raro de c\u00e2ncer no pulm\u00e3o: que acomete mulheres n\u00e3o fumantes entre 30 e 39 anos.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas casos t\u00eam muito em comum. Primeiro, ocorreram na zona rural de alguns dos mais ricos munic\u00edpios do estado que \u00e9 l\u00edder na produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os do Brasil, assim como no consumo de agrot\u00f3xicos. Outro ponto que as hist\u00f3rias t\u00eam em comum \u00e9 que essas fam\u00edlias estiveram expostas a diferentes pesticidas, incluindo o glifosato e a atrazina. Embora estejam entre os mais consumidos no pa\u00eds, essas subst\u00e2ncias est\u00e3o associadas ao desenvolvimento de c\u00e2ncer e \u00e0 malforma\u00e7\u00e3o fetal por pesquisas no Brasil e no mundo.<\/p>\n<p>Uma taxa mais alta de malforma\u00e7\u00e3o foi encontrada em regi\u00f5es com maior uso de agrot\u00f3xicos como a atrazina, segundo an\u00e1lise publicada em artigo da Universidade Federal do Paran\u00e1. O herbicida est\u00e1 proibido desde 2004 pela Uni\u00e3o Europeia, que associa a subst\u00e2ncia \u00e0 ocorr\u00eancia de dist\u00farbios end\u00f3crinos, problema que afeta o sistema hormonal.<\/p>\n<p>J\u00e1 o glifosato, classificado como \u201cprov\u00e1vel cancer\u00edgeno\u201d pela International Agency for Research on Cancer, est\u00e1 em meio a intenso debate internacional sobre seus efeitos negativos \u00e0 sa\u00fade. Em mar\u00e7o, um j\u00fari nos Estados Unidos o apontou como um \u201cfator importante\u201d na rela\u00e7\u00e3o com o desenvolvimento do c\u00e2ncer em um homem de 70 anos.<\/p>\n<p>A equipe da Rep\u00f3rter Brasil e da Ag\u00eancia P\u00fablica, em conjunto com pesquisadores da Public Eye, visitou tr\u00eas cidades no interior do Mato Grosso em busca dos poss\u00edveis efeitos dessas subst\u00e2ncias. Embora n\u00e3o seja poss\u00edvel concluir que os casos encontrados estejam relacionados a esses agrot\u00f3xicos, h\u00e1 diversos pontos que ligam as hist\u00f3rias de Kalebi, Emanuelly e Giovana a uma das grandes quest\u00f5es colocadas por m\u00e9dicos e pesquisadores de todo o mundo: estariam os agrot\u00f3xicos silenciosamente contribuindo para o desenvolvimento de algumas das piores enfermidades enfrentadas pela nossa gera\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<h3>N\u00e9voa de algod\u00e3o sobre a casa de Kalebi<\/h3>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-151805\" src=\"https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/3-2-1024x683.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/3-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/3-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/3-2-768x512.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"426\" \/><figcaption>O menino Kalebi foi diagnosticado com leucemia nove meses depois que seu pai come\u00e7ou a trabalhar como mec\u00e2nico de tratores usados na pulveriza\u00e7\u00e3o. A fam\u00edlia tamb\u00e9m morava perto de planta\u00e7\u00f5es de algod\u00e3o\u00a0<\/figcaption><\/figure>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia de Kalebi com pesticidas ficou intensa a partir de 2015, quando seu pai come\u00e7ou a trabalhar como mec\u00e2nico de tratores usados para a pulveriza\u00e7\u00e3o na fabricante de m\u00e1quinas agr\u00edcolas John Deer. Nove meses depois que ele conseguiu o emprego, seu filho foi diagnosticado com leucemia.<\/p>\n<p>A m\u00e3e de Kalebi lavava as roupas de trabalho do marido em casa, na mesma m\u00e1quina usada pela lavar a roupa de Kalebi e os outros dois filhos. A fam\u00edlia morava atr\u00e1s de uma algodoeira, bem perto do local onde se lavava e embalava o algod\u00e3o. \u201cO p\u00f3 do algod\u00e3o ca\u00eda em cima de casa, parecia uma n\u00e9voa\u201d, diz Elis\u00e2ngela dos Anjos. \u201cQuando meu marido soube da doen\u00e7a do Kalebi, ele ficou desesperado. Acho que se sentiu culpado porque trabalhava com isso e, mesmo sabendo que n\u00e3o podia, ele abra\u00e7ava as crian\u00e7as quando chegava do trabalho com a roupa contaminada\u201d, lembra. A m\u00e3e est\u00e1 convencida de que essa m\u00faltipla exposi\u00e7\u00e3o aos agrot\u00f3xicos levaram seu filho a desenvolver a leucemia.<\/p>\n<p>As suspeitas n\u00e3o s\u00e3o infundadas. As regi\u00f5es Central e Sul do Mato Grosso, que inclui Lucas do Rio Verde, apresentaram uma maior incid\u00eancia de leucemias e linfomas segundo\u00a0pesquisa\u00a0coordenada pela Universidade Federal do Mato Grosso, a UFMT. Nesses locais, o estudo aponta que entre os 20 agrot\u00f3xicos mais utilizados est\u00e3o o glifosato e a atrazina. O mesmo levantamento observa que h\u00e1 maior quantidade de pessoas de regi\u00f5es com alta produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola entre os pacientes internados com c\u00e2ncer infanto-juvenil no Hospital de C\u00e2ncer de Mato Grosso.<\/p>\n<p>Mas a fam\u00edlia nunca falou sobre essa suspeita em alto e bom som em Lucas do Rio Verde. O algod\u00e3o \u00e9 um dos setores em expans\u00e3o na regi\u00e3o e movimenta a economia local. O estado deve liderar a produ\u00e7\u00e3o da fibra nacionalmente segundo previs\u00e3o do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecu\u00e1ria para a safra de 2018 e 2019. Apesar de gerar mais empregos, a alta do setor tamb\u00e9m significa ainda mais agrot\u00f3xicos para a popula\u00e7\u00e3o local: a quantidade de vezes que se pulveriza o algod\u00e3o pode ser at\u00e9 tr\u00eas vezes maior do que em planta\u00e7\u00f5es de soja e milho. E isso inclui o uso da atrazina e do glifosato.<\/p>\n<p>Lucas, como \u00e9 chamada pelos habitantes locais, tem hoje 63 mil pessoas, que vivem no centro de um territ\u00f3rio cercado de lavouras de soja, milho e algod\u00e3o por todos os lados. Grandes multinacionais do agroneg\u00f3cio, a exemplo da Bunge, Louis Dreyfus, Cargill e Cofco, possuem sede no munic\u00edpio. O setor de su\u00ednos e avinos tamb\u00e9m \u00e9 destaque. \u201cNa \u00e9poca [do diagn\u00f3stico de Kalebi], nenhum m\u00e9dico de Lucas fez essa rela\u00e7\u00e3o do agrot\u00f3xico com a doen\u00e7a do meu filho, mas acho que eles n\u00e3o falam porque est\u00e3o numa \u00e1rea do agroneg\u00f3cio\u201d, opina Elis\u00e2ngela.<\/p>\n<p>Na cidade onde Kalebi cresceu, o glifosato aparece como o mais vendido na Agrol\u00f3gica Agromercantil, com o nome comercial ZAPPQ1. A loja \u00e9 revendedora exclusiva da Syngenta, empresa su\u00ed\u00e7a que tem no Brasil o seu principal mercado consumidor. Na mesma loja, a atrazina \u00e9 a quarta mais vendida com os nomes comerciais de Atrazina Grda e Gesaprim. A cidade tem posi\u00e7\u00e3o de destaque no uso de agrot\u00f3xicos. Em 2015, a exposi\u00e7\u00e3o por habitante no pa\u00eds era de 3,6 litros por ano, mas para os moradores de Lucas a m\u00e9dia saltava para 136 litros anuais, de acordo com\u00a0c\u00e1lculo de pesquisa feita pela UFMT.<\/p>\n<p>A reportagem procurou os principais setores produtivos que usam o glifosato e a atrazina no Mato Grosso. Em resposta, as associa\u00e7\u00f5es de produtores rurais enviaram uma nota por meio da Agrosaber, plataforma online que representa o setor e fabricantes de agrot\u00f3xicos e que foi lan\u00e7ada no dia 23 de abril durante reuni\u00e3o da Frente Parlamentar Agropecu\u00e1ria em Bras\u00edlia. Questionado sobre a associa\u00e7\u00e3o dos pesticidas \u00e0 malforma\u00e7\u00e3o e ao c\u00e2ncer, o grupo afirma que \u201cse utilizados dentro das recomenda\u00e7\u00f5es de uso, os defensivos agr\u00edcolas s\u00e3o seguros \u00e0 sa\u00fade humana e aos trabalhadores no campo\u201d. O comunicado diz ainda que n\u00e3o existe \u201coutra maneira eficaz de combater pragas sem agrot\u00f3xicos\u201d e que o n\u00e3o uso dos qu\u00edmicos poderia gerar uma \u201cperda de 20% a 40% de toda a produ\u00e7\u00e3o nacional\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o da reportagem, a Agrosaber enviou outra nota \u00e0 reda\u00e7\u00e3o afirmando que estudos em andamento na Fran\u00e7a e nos Estados Unidos \u201cmostraram que os agricultores tendem a ser mais saud\u00e1veis e t\u00eam menos c\u00e2ncer, em geral, quando comparados com outros grupos\u201d. A segunda nota afirma ainda que a Autoridade Europeia para a Seguran\u00e7a Alimentar revisou 164 publica\u00e7\u00f5es concluindo que \u201cembora alguns estudos tenham revelado associa\u00e7\u00f5es entre a exposi\u00e7\u00e3o ocupacional a defensivos e um c\u00e2ncer espec\u00edfico, como linfoma, leucemia e c\u00e2ncer de pr\u00f3stata, outros estudos n\u00e3o o fizeram. Os revisores da EFSA recomendaram estudos adicionais para avaliar exposi\u00e7\u00f5es na inf\u00e2ncia e leucemia antes de tirar conclus\u00f5es finais\u201d.<\/p>\n<h3>Emanuelly, contaminada durante a gesta\u00e7\u00e3o?<\/h3>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-151806\" src=\"https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/4-2-1024x683.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/4-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/4-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/4-2-768x512.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"426\" \/><figcaption>Emanuelly, filha de Antonio Corr\u00eaa, nasceu com um tipo de malforma\u00e7\u00e3o. Durante sua gesta\u00e7\u00e3o, a fam\u00edlia morava perto de planta\u00e7\u00f5es e seu pai era exposto \u00e0 pulveriza\u00e7\u00e3o no trabalho<\/figcaption><\/figure>\n<p>Quando deixou Cuiab\u00e1 rumo a Tangar\u00e1 da Serra, a 240 quil\u00f4metros da capital, Antonio tinha o objetivo de buscar um novo caminho profissional. \u201cNa \u00e9poca [2014], Cuiab\u00e1 estava ruim de emprego e l\u00e1 era uma regi\u00e3o que estava crescendo\u201d, explica. Logo, ele conseguiu um trabalho como \u201cbandeira\u201d, que consistia em ficar em p\u00e9 na lavoura segurando uma bandeira vermelha para indicar o local onde o avi\u00e3o deveria pulverizar. Seis meses ap\u00f3s a chegada em Tangar\u00e1, sua companheira engravidou, mas somente depois do nascimento foi descoberto que Emanuelly, hoje com cinco anos, tinha espinha b\u00edfida.<\/p>\n<p>\u201cA cidade n\u00e3o \u00e9 muito grande, mas l\u00e1 \u00e9 regi\u00e3o de cana de a\u00e7\u00facar e soja, ou seja, rodeada de planta\u00e7\u00f5es. Na \u00e9poca, al\u00e9m de trabalhar em fazendas, eu tamb\u00e9m morava perto de uma planta\u00e7\u00e3o de cana\u201d, relembra Antonio. Tangar\u00e1 da Serra, nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas, tem se destacado pelo crescimento econ\u00f4mico. Gra\u00e7as ao agroneg\u00f3cio, o PIB do munic\u00edpio saltou de R$1,4 bilh\u00e3o em 2010 para R$2,9 bilh\u00f5es em 2016.<\/p>\n<p>Antonio lembra que, na \u00e9poca, ele trabalhava com pouca prote\u00e7\u00e3o e sentia no corpo os efeitos do uso dos qu\u00edmicos. \u201cO cheiro era insuport\u00e1vel na \u00e9poca da pulveriza\u00e7\u00e3o. No trabalho, eu usava uma m\u00e1scara simples, tipo cir\u00fargica, e algumas coisas de pl\u00e1stico para proteger o cabelo, mas nenhum equipamento a mais\u201d, conta. \u201cEu sentia n\u00e1usea e dor de cabe\u00e7a depois do trabalho e eles falavam que era por causa do sol. Eu nem sabia qual era o tipo que eles usavam porque eles colocavam seguran\u00e7as armados protegendo os barrac\u00f5es onde se armazenavam os agrot\u00f3xicos\u201d, revela.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da pesquisa que analisou dados do Paran\u00e1, a rela\u00e7\u00e3o dos pesticidas com a malforma\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi acompanhada por pesquisadores da UFMT. Em 2011, os especialistas da universidade compararam dados de todos os hospitais p\u00fablicos, privados e de refer\u00eancia que atendem gestantes no Mato Grosso e encontraram\u00a0evid\u00eancias\u00a0que relacionavam a exposi\u00e7\u00e3o aos agrot\u00f3xicos com a doen\u00e7a. Em outro\u00a0levantamento\u00a0da mesma universidade, os pesquisadores analisaram a exposi\u00e7\u00e3o de mulheres antes de engravidar e no in\u00edcio da gesta\u00e7\u00e3o aos agrot\u00f3xicos nos oito munic\u00edpios do estado que mais usaram agrot\u00f3xicos entre 2000 e 2009. Mais uma vez, foi identificada uma correla\u00e7\u00e3o entre a incid\u00eancia da doen\u00e7a e o uso de agrot\u00f3xicos nessas cidades.<\/p>\n<p>Para a toxicologista e m\u00e9dica do trabalho Virginia Dapper, diversos estudos t\u00eam mostrado a rela\u00e7\u00e3o entre pesticidas e os efeitos negativos na sa\u00fade de crian\u00e7as. \u201cA exposi\u00e7\u00e3o pr\u00e9-natal a agrot\u00f3xicos, mesmo em baixas doses como aquelas provenientes de res\u00edduos em alimentos, pode sim provocar altera\u00e7\u00f5es no desenvolvimento neurol\u00f3gico das crian\u00e7as expostas\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Com o diagn\u00f3stico da doen\u00e7a, Emanuelly come\u00e7ou a fazer tratamento no Hospital Sarah Kubitschek, em Bras\u00edlia, refer\u00eancia nacional em problemas motores. Segundo Antonio, os m\u00e9dicos que atendiam a crian\u00e7a falaram para ele sobre a poss\u00edvel associa\u00e7\u00e3o entre os qu\u00edmicos e a espinha b\u00edfida. \u201cOs m\u00e9dicos perguntavam se eu morava na cidade ou no interior e sobre o contato direto com agrot\u00f3xicos. Eles j\u00e1 falavam da possibilidade de ter liga\u00e7\u00e3o entre a espinha b\u00edfida e o veneno\u201d, diz o pai de Emanuelly.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-151807\" src=\"https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/5-1-1024x683.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/5-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/5-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/5-1-768x512.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"426\" \/><figcaption>Trabalhador mistura agrot\u00f3xicos sem usar m\u00e1scara no norte do Mato Grosso. Ex-coordenadora de centro de atendimento em Sinop diz que eles n\u00e3o conhecem os riscos que correm<\/figcaption><\/figure>\n<h3>A cuidadora que adoeceu<\/h3>\n<p>Os casos de Kalebi e Emanuelly n\u00e3o s\u00e3o isolados, suspeitas similares rondam tamb\u00e9m profissionais que trabalham diretamente com a preven\u00e7\u00e3o dos efeitos dos agrot\u00f3xicos. Esse foi o caso de Giovana Carvalho, ex-coordenadora do Centro de Refer\u00eancia de Sa\u00fade do Trabalhador em Sinop, onde atendia empregados rurais de 14 munic\u00edpios. \u201cA gente via que muitos trabalhadores lavavam as roupas que usavam na aplica\u00e7\u00e3o do veneno junto com as pe\u00e7as do resto da fam\u00edlia ou lavavam os vasilhames dos produtos em \u00e1gua corrente\u201d relembra Giovana. Segundo ela, os trabalhadores n\u00e3o entendiam os riscos aos quais estavam expostos: \u201cquando sentiam enjoos ou dores de cabe\u00e7a, achavam que era em decorr\u00eancia do trabalho no sol\u201d.Luna\u00e9 Parracho\/Ag\u00eancia P\u00fablica\/Rep\u00f3rter Brasil<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-151808\" src=\"https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/7.jpg\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" srcset=\"https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/7.jpg 800w, https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/7-300x169.jpg 300w, https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/7-768x432.jpg 768w, https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/7-678x381.jpg 678w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"360\" \/><figcaption>Na cidade de Kalebi, o glifosato \u00e9 o mais vendido em revendedora exclusiva da Syngenta, empresa su\u00ed\u00e7a que tem no Brasil o seu principal mercado consumidor<\/figcaption><\/figure>\n<p>No ano passado, a pr\u00f3pria Giovana recebeu diagn\u00f3stico de um tipo raro de c\u00e2ncer de pulm\u00e3o. \u201c\u00c9 algo t\u00e3o novo para a medicina que sequer tem nome, atinge mulheres que nunca fumaram\u201d, explica. Ea faz tratamento no Hospital de Barretos, interior de S\u00e3o Paulo, onde conhece outros dez pacientes provenientes da mesma cidade, Sinop.<\/p>\n<p>A reportagem esteve na cidade, onde a loja DDB Agroneg\u00f3cios vende atrazina na forma comercial de Primoleo e Gesaprim. AL\u00e9m do glifosato, com o nome comercial de ZAPPQI.<\/p>\n<p>Giovana sempre viu rela\u00e7\u00e3o entre a alta preval\u00eancia de doen\u00e7as na sua regi\u00e3o e o uso das subst\u00e2ncias. Durante o per\u00edodo no Cerest, alertava os trabalhadores sobre os riscos. \u201cExistem bairros em Sinop que s\u00e3o praticamente dentro de lavouras e em que o avi\u00e3o pulveriza pr\u00f3ximo das casa, das escolas\u201d, diz. \u201cNo Mato Grosso n\u00e3o existe fiscaliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso mudar isso. Existe rela\u00e7\u00e3o das doen\u00e7as com agrot\u00f3xicos sim\u201d, alerta.<\/p>\n<p>Mesmo com a variedade de estudos sobre os riscos que os agrot\u00f3xicos representam \u00e0 sa\u00fade humana, especialistas alertam que as pol\u00edticas p\u00fablicas ainda n\u00e3o mudaram de acordo com essas evid\u00eancias. Em alguns casos, as mudan\u00e7as parecem acontecer na dire\u00e7\u00e3o oposta.<\/p>\n<p>No Mato Grosso, decreto de 2013 reduziu as dist\u00e2ncias permitidas para aplica\u00e7\u00e3o terrestre de agrot\u00f3xicos. Ou seja, hoje \u00e9 permitido aplicar ainda mais perto de povoados, cidades e cursos d\u00b4\u00e1guas. A dist\u00e2ncia m\u00ednima autorizada era de no 200 metros no estado, e em 2013 foi reduzida para 90. Outras mudan\u00e7as implementadas no mesmo ano reduziram a transpar\u00eancia sobre o uso das subst\u00e2ncias. O Indea, \u00f3rg\u00e3o estadual que antes publicava as subst\u00e2ncias e as quantidades de agrot\u00f3xicos utilizadas em cada munic\u00edpio, hoje n\u00e3o divulga mais esse monitoramento.<\/p>\n<p>Entre os cr\u00edticos dos agrot\u00f3xicos, alguns defendem que as pol\u00edticas s\u00f3 v\u00e3o mudar quando mais estudos forem feitos. \u201c\u00c9 preciso de mais pesquisas cient\u00edficas para conseguir encontrar essa prova definitiva da rela\u00e7\u00e3o dos agrot\u00f3xicos com doen\u00e7as como c\u00e2ncer e malforma\u00e7\u00e3o cong\u00eanita\u201d, afirma Jo\u00e3o de Deus, bi\u00f3logo e especialista em seguran\u00e7a do trabalho do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, que atualmente mora em Sinop. \u201cMas, quando se corta recursos para a ci\u00eancia, fica cada vez mais complicado provar\u201d. Ele se refere ao corte, feito no ano passado pelo governo Michel Temer, de R$400 milh\u00f5es no or\u00e7amento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPQ).<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-151809\" src=\"https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/6-1-1024x683.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/6-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/6-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/6-1-768x512.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"426\" \/><figcaption>Pulveriza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos em planta\u00e7\u00e3o de soja no norte do Mato Grosso<\/figcaption><\/figure>\n<p>Outros pesquisadores entendem que os estudos existentes s\u00e3o o suficiente para mudan\u00e7as nas pol\u00edticas p\u00fablicas, como ocorreu na Uni\u00e3o Europeia, que proibiu a atrazina e hoje debate a poss\u00edvel proibi\u00e7\u00e3o do glifosato. \u201cAs evid\u00eancias cient\u00edficas dispon\u00edveis em n\u00edvel mundial e nacional s\u00e3o concretas, j\u00e1 nos auxiliam no processo de transi\u00e7\u00e3o para novos modos de produ\u00e7\u00e3o e de minimiza\u00e7\u00e3o dos efeitos nocivos dos agrot\u00f3xicos na sa\u00fade humana\u201d, afirma a pesquisadora da UFMT, Mariana Soares. \u201cPor\u00e9m os interesses pol\u00edticos e econ\u00f4micos do Brasil passam por cima de quaisquer estudos\u201d.<br \/>\n<em>Atualiza\u00e7\u00e3o (02\/05\/2019 \u00e0s 18h38): Foi inclu\u00edda no texto uma segunda nota enviada pela Agrosaber ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o da reportagem. A associa\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia sido ouvida e citada na vers\u00e3o original, mas enviou informa\u00e7\u00f5es adicionais.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O menino Kalebi Luenzo tinha pouco mais de dois anos quando, de repente, come\u00e7ou a<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":105394,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/cancer.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/cancer-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/cancer-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/cancer.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/cancer.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/cancer.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/cancer.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/cancer.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/cancer.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/cancer.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"O menino Kalebi Luenzo tinha pouco mais de dois anos quando, de repente, come\u00e7ou a","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/105392"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=105392"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/105392\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/105394"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=105392"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=105392"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=105392"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}