{"id":10054,"date":"2014-11-08T15:59:51","date_gmt":"2014-11-08T15:59:51","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=10054"},"modified":"2014-11-08T16:02:25","modified_gmt":"2014-11-08T16:02:25","slug":"quao-cordial-e-o-povo-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/quao-cordial-e-o-povo-brasileiro\/","title":{"rendered":"Qu\u00e3o \u201ccordial\u201d \u00e9 o povo brasileiro?"},"content":{"rendered":"<div class=\"ico_colunista\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"photo\" src=\"http:\/\/www.mercadoetico.com.br\/website\/wp-content\/uploads\/userphoto\/leonardoboff.thumbnail.jpg\" alt=\"Leonardo Boff\" width=\"80\" height=\"58\" \/><\/p>\n<p class=\"autor-interna\">Leonardo Boff<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mercadoetico.com.br\/website\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/brasileiros_550.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-95626\" src=\"http:\/\/www.mercadoetico.com.br\/website\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/brasileiros_550.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"416\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dizer que o brasileiro \u00e9 um \u201chomem cordial\u201d vem do escritor Ribeiro Couto, express\u00e3o generalizada por S\u00e9rgio Buarque de Holanda em seu conhecido livro: \u201cRaizes do Brasil\u201d de 1936 que lhe dedica o inteiro cap\u00edtulo V\u00ba. Mas esclarece, contrariando Cassiano Ricardo que entendia a \u201ccordialidade\u201dcomo bondade e a polidez, que \u201cnossa forma ordin\u00e1ria de conv\u00edvio social \u00e9 no fundo, justamente o contr\u00e1rio da polidez\u201d(da 21\u00aa edi\u00e7\u00e3o de 1989 p. 107). Sergio Buarque assume a cordialidade no sentido estritamente etimol\u00f3gico: vem de cora\u00e7\u00e3o. O brasileiro se orienta muito mais pelo cora\u00e7\u00e3o do que pela raz\u00e3o. Do cora\u00e7\u00e3o podem provir o amor e o \u00f3dio. Bem diz o autor:\u201da inimizade bem pode ser t\u00e3o cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do cora\u00e7\u00e3o\u201d(p.107).<\/p>\n<p>Escrevo tudo isso para entender os sentimentos \u201ccordiais\u201d que irromperam na campanha presidencial de 2014. Houve por uma parte declara\u00e7\u00f5es de entusiasmo e de amor at\u00e9 ao fanatismo para os dois candidatos e por outra, de \u00f3dios profundos, express\u00f5es chulas por parte de ambas as partes do eleitorado. Verificou-se o que Buarque de Holanda escreveu: a falta de polidez no nosso conv\u00edvio social.<\/p>\n<p>Talvez em nenhuma campanha anterior se expressaram os gestos \u201ccordiais\u201d dos brasileiros no sentido de amor e \u00f3dio contidos nesta palavra. Quem seguiu as redes sociais, se deu conta dos n\u00edveis baix\u00edssimos de polidez, de desrespeito m\u00fatuo e at\u00e9 falta de sentido democr\u00e1tico como conviv\u00eancia com as diferen\u00e7as. Essa falta de respeito repercutiu tamb\u00e9m nos debates entre os candidatos, transmitidos pela TV. Por exemplo, que um dos candidatos chame a Presidenta do pa\u00eds de \u201cleviana e mentirosa\u201d se inscreve dentro desta l\u00f3gica \u201ccordial\u201d, embora revele grande falta de respeito diante da dignidade do mais alto cargo da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para entender melhor esta nossa \u201ccordialidade\u201d cabe referir duas heran\u00e7as que oneram nossa cidadania: a coloniza\u00e7\u00e3o e a escravid\u00e3o. A coloniza\u00e7\u00e3o produziu em n\u00f3s o sentimento de submiss\u00e3o, tendo que assumir as formas pol\u00edticas, a lingua, a religi\u00e3o e os h\u00e1bitos do colonizador portugu\u00eas. Em consequ\u00eancia criou-se a Casa Grande e a Senzala. Como bem o mostrou Gilberto Freyre n\u00e3o se trata de institui\u00e7\u00f5es sociais exteriores. Elas foram internalizadas na forma de um dualismo perverso: de um lado os senhor que tudo possui e manda e do outro o servo que pouco tem e obedece ou tamb\u00e9m a hierarquiza\u00e7\u00e3o social que se revela pela divis\u00e3o entre ricos e pobres. Essa estrutura subsiste na cabe\u00e7a das pessoas e se tornou um c\u00f3digo de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade e aparece claramente nas formas como as pessoas se tratam nas redes sociais.<\/p>\n<p>Outra tradi\u00e7\u00e3o muito perversa foi a escravid\u00e3o. Cabe recordar que houve uma \u00e9poca, entre 1817-1818, em que mais da metade do Brasil era composta de escravos (50,6%). Hoje cerca de 60% possui algo em seu sangue de escravos afro-descendentes. O catecismo que os padres ensinavam aos escravos era \u201cpaci\u00eancia, resigna\u00e7\u00e3o e obedi\u00eancia\u201d; aos escravocratas se ensinava \u201cmodera\u00e7\u00e3o e benevol\u00eancia\u201d coisa que, de fato, pouco se praticava.<\/p>\n<p>A escravid\u00e3o foi internalizada na forma de discrimina\u00e7\u00e3o e preconceito contra o negro que devia sempre servir. Pagar o sal\u00e1rio \u00e9 entendido por muitos ainda como uma caridade e n\u00e3o um dever, porque os escravos antes faziam tudo de gra\u00e7a e, imaginam que devem continuar assim. Pois desta forma se tratam, em muitos casos, os empregados e empregadas dom\u00e9sticas ou os pe\u00f5es de fazendas. Ouvi de um amigo da Bahia que escutou uma senhora, moradora de um condom\u00ednio de alta classe dizer:\u201dos pobres j\u00e1 recebem a bolsa-fam\u00edlia e al\u00e9m disso creem que t\u00eam direitos\u201d. Eis a mentalidade da Casa Grande.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias destas duas tradi\u00e7\u00f5es est\u00e3o no inconsciente coletivo brasileiro em termos, n\u00e3o tanto de conflito de classe (que tamb\u00e9m existe) mas antes de conflitos de status social. Diz-se que o negro \u00e9 pregui\u00e7oso quando sabemos que foi ele quem construiu quase tudo que temos em nossas cidades. O nordestino \u00e9 ignorante, porque vive no semi-\u00e1rido sob pesados constrangimentos ambientais, quando \u00e9 um povo altamente criativo, desperto e trabalhador. Do nordeste nos v\u00eam grandes escritores, poetas, atores e atrizes. No Brasil de hoje \u00e9 a regi\u00e3o que mais cresce economicamente na ordem de 2-3%, portanto, acima da m\u00e9dia nacional. Mas os preconceitos os castigam \u00e0 inferioridade.<\/p>\n<p>Todas essas contradi\u00e7\u00f5es de nossa \u201ccordialidade\u201d apareceram nos twitters, facebooks e outras redes sociais. Somos seres contradit\u00f3rios em demasia.<\/p>\n<p>Acrescento ainda um argumento de ordem antropol\u00f3gico-filos\u00f3fica para compreender a irrup\u00e7\u00e3o dos amores e \u00f3dios nesta campanha eleitoral. Trata-se da ambiguidade fontal da condi\u00e7\u00e3o humana. Cada um possui a sua dimens\u00e3o de luz e de sombra, de sim-b\u00f3lica (que une) e de dia-b\u00f3lica (que divide). Os modernos falam que somos simultaneamente dementes e sapientes (Morin), quer dizer, pessoas de racionalidade e bondade e ao mesmo tempo de irraconalidade e maldade. A tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 fala que somos simultaneamente santos e pecadores. Na feliz express\u00e3o de Santo Agostinho: cada um \u00e9 Ad\u00e3o, cada um \u00e9 Cristo, vale dizer, cada um \u00e9 cheio de limita\u00e7\u00f5es e v\u00edcios e ao mesmo tempo \u00e9 portador de virtudes e de uma dimens\u00e3o divina. Esta situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um defeito mas uma caracter\u00edstica da condition humaine. Cada um deve saber equilibrar estas duas for\u00e7as e na melhor das hip\u00f3teses, dar primazia \u00e0s dimens\u00f5es de luz sobre as de sombras, as de Cristo sobre as do velho Ad\u00e3o.<\/p>\n<p>Nestes meses de campanha eleitoral se mostrou quem somos por dentro, \u201ccordiais\u201d mas no duplo sentido: cheios de raiva e de indigna\u00e7\u00e3o e ao mesmo tempo de exalta\u00e7\u00e3o positiva e de milit\u00e2ncia s\u00e9ria e auto-controlada.<\/p>\n<p>N\u00e3o devemos nem rir nem chorar, mas procurar entender. Mas n\u00e3o \u00e9 suficiente entender; urge buscar formas civilizadas da \u201ccordialidade\u201d na qual predomine a vontade de coopera\u00e7\u00e3o em vista do bem comum, se respeite o leg\u00edtimo espa\u00e7o de uma oposi\u00e7\u00e3o inteligente e se acolham as diferentes op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. O Brasil precisa se unir para que todos juntos enfrentemos os graves problemas internos e externos (guerras de grande devasta\u00e7\u00e3o e a grave crise no sistema-Terra e no sistema-vida), num projeto por todos assumido para que se crie o que se chamou de o Brasil como a \u201cTerra da boa Esperan\u00e7a \u201d(Ignacy Sachs).<\/p>\n<p class=\"usu-descricao-interna\">Leonardo Boff \u00e9 te\u00f3logo e professor em\u00e9rito de \u00e9tica da UERJ.<\/p>\n<p class=\"usu-descricao-interna\">Fonte: Mercado \u00c9tico<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leonardo Boff &nbsp; &nbsp; Dizer que o brasileiro \u00e9 um \u201chomem cordial\u201d vem do escritor<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Leonardo Boff &nbsp; &nbsp; Dizer que o brasileiro \u00e9 um \u201chomem cordial\u201d vem do escritor","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10054"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10054"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10054\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10054"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10054"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10054"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}