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Vencedor do Nobel cria dispositivo que retira água do ar

Vencedor do Nobel cria dispositivo que retira água do ar

Tecnologia, que funciona por energia térmica, pode gerar até mil litros de água potável por dia, e servir a regiões de baixa umidade

A quantidade de água potável no planeta representa uma fração minúscula do total – algo que coloca a existência da nossa espécie em risco. Menos de 1% da água doce é adequada e acessível para o consumo humano. Por isso, quanto maior o desperdício, mais curto é o caminho para a escassez.

Uma invenção de um vencedor do Prêmio Nobel de Química, entretanto, tem potencial de virar o jogo quando o assunto é obtenção de água potável. Com o uso da chamada química reticular, o professor e químico Omar Yaghi, nascido na Jordânia, desenvolveu um equipamento capaz de extrair a umidade do ar – até mesmo de locais áridos – e transformar em água potável.

O aparelho é produzido pela Atoco, empresa de tecnologia de Yaghi, e tem o tamanho semelhante a um contêiner de um pouco mais de 6 metros. Ele é alimentado por energia térmica e tem capacidade de gerar até mil litros de água potável por dia para comunidades locais.

Apartamentos de moléculas

Em 2025, Yaghi e seus colegas cientistas Susumu Kitagawa e Richard Robson foram laureados com o Prêmio Nobel de Química por desenvolverem novos materiais chamados de estruturas metalorgânicas (ou MOFs, na sigla em inglês).

Formados por uma mistureba de íons metálicos e longas moléculas orgânicas, os MOFs criam redes microscópicas altamente porosas, permitindo que eles capturem, armazenem e interajam com diferentes moléculas.

Ao aplicar essas propriedades para a captação de água, Yaghi demonstrou que essas estruturas são eficazes tanto na captura de água – mesmo em condições de baixa umidade – quanto na purificação dela.

Na imagem acima é possível ver uma das principais propriedades dos MOFs: a sua alta porosidade. Moléculas de gás conseguem se inserir dentro da estrutura do MOFs e, dessa forma, serem captadas — Foto: Divulgação/The Nobel Prize
Na imagem acima é possível ver uma das principais propriedades dos MOFs: a sua alta porosidade. Moléculas de gás conseguem se inserir dentro da estrutura do MOFs e, dessa forma, serem captadas — Foto: Divulgação/The Nobel Prize

“Suas estruturas de poros personalizáveis ​​e funcionalidades químicas permitem a adsorção seletiva de uma ampla gama de contaminantes. Além disso, muitos MOFs possuem sítios cataliticamente ativos que podem facilitar a degradação de poluentes”, explica um editorial da revista científica Nature WaterA chamada “adsorção” representa um processo físico-químico no qual partículas de uma substância gasosa ou líquida aderem à superfície de outro sólido ou líquido.

Em entrevista ao The Guardian, o professor defende que a invenção mudaria o mundo e solucionaria a escassez de água em comunidades isoladas ou vítimas de desastres naturais e climáticos, como furacões ou ondas de secas intensas. Nesse tipo de situação, em que fontes centralizadas de eletricidade e água podem ser interrompidas por danos estruturais, o aparelho, operante por energia térmica, abasteceria milhares de famílias.

O desenvolvimento dos MOFs ganhou um Prêmio Nobel por conta a variabilidade de funções que essas estruturas podem ter ao possuírem propriedades coletoras, filtradoras e de armazenamento de outras moléculas — Foto: Divulgação/The Nobel Prize
O desenvolvimento dos MOFs ganhou um Prêmio Nobel por conta a variabilidade de funções que essas estruturas podem ter ao possuírem propriedades coletoras, filtradoras e de armazenamento de outras moléculas — Foto: Divulgação/The Nobel Prize

Aplicações ajustáveis

O cenário de emergência diante do intenso desperdício e poluição da água potável no planeta faz com que os MOFs adquiram uma outra importância além de garantir o abastecimento hídrico em regiões áridas ou isoladas.

Após as descobertas que renderam aos pesquisadores o Prêmio Nobel, dezenas de milhares de diferentes MOFs foram construídos para servirem em funções ajustáveis e associadas à coleta e à separação de substâncias a nível molecular.

“Alguns deles podem contribuir para a solução de alguns dos maiores desafios da humanidade, com aplicações que incluem a separação de PFAS da água, a decomposição de traços de produtos farmacêuticos no meio ambiente, a captura de dióxido de carbono ou a coleta de água do ar em desertos”, diz comunicado do Prêmio Nobel.

O projeto piloto e os experimentos com MOFs mostram avanços significativos, mas sua adoção industrial de forma ampla ainda não é possível. Afinal, eles são estruturas caras de serem produzidas e se degradam ao longo do tempo quando expostos à água. O próximo passo dos pesquisadores é buscar estruturas de MOFs mais estáveis e que sigam uma lógica de operação sustentável e ambientalmente responsável.